Carol Veiga
May 8 · 3 min read

Autonomia Preta ou Ocupação em espaços Brancos, os Dois não Dá

Muitos de nós, em sua grande maioria, trabalhamos para brancos, tendo eles como patrões ou enquanto clientes, aqueles que irão no fim usufruir de nossos serviços. Afinal algumas tarefas são criadas para o conforto e comodidade dos que tem maior poder econômico.

A síndrome de Chica da Silva é a mais comum que vemos sempre entre os nossos, ela é alforriada, “casada” ( não de forma legal ou com autorização da igreja) com o homem branco e rico passa a viver como uma Sinhá branca cheia de caprichos e seus escravos. Tinha seu “reconhecimento” porque ocupou a Casa Grande, passara agora a ter seu lugar de “fala”, ou talvez seja o seu lugar Me-Re-Ci-Do! Casa Grande enegrecida e filhos de mulher preta tendo melhorias de vida.

Se para você o caminho para autonomia dos nossos é buscando ser uma Chica da Silva, é porque você ainda não entendeu que não há vitória sozinha, não há salvação do todo pelo um. Se basear pela lógica do meu umbigo primeiro só nos atrasa como comunidade. Na biografia de Chica seu “marido” foi para Portugal levando apenas os filhos homens que teve com ela. Chica teve sim dinheiro para se sustentar e educar suas filhas nos moldes brancos, mas não há nada em sua história que seja de contribuição para autonomia e luta das pessoas pretas. Tudo que ganhou voltou para os próprios brancos. Em seu testamento ela doou parte de seus bens às irmandades religiosas que eram exclusivas de brancos.

Nada tão distante estamos diante de pensamentos e posições que estão sendo tomadas por muitos de nós nos tempos mais atuais. Dentre eles a forma em como iremos chegar nesse local de falso poder: “Nós devemos ser duas ou três vezes melhores que eles, nosso trabalho será notado, ganharemos dinheiro, fama etc. Pretos no topo! A favela venceu!” e depois? Depois do Ocupa Tudo a gente gasta tudo que conseguimos com eles, né? Afinal eles vão reconhecer nosso valor , vão também se reeducar reconhecendo que nós conseguimos chegar lá! Lá onde mesmo? Nos parâmetros que eles mesmo impuseram, né? Mas se são eles que criam as regras quem garante que elas não possam também ser mudadas pelos próprios? Nada garante!! Aliás é exatamente isso que ocorre, se continuarmos em busca de se igualar ao que nem é nosso , vamos acabar vestindo muita roupa desconfortável e pintando a cara branco como Chica ao se maquiar na tentativa de se assimilar com eles.

Mas será que conseguimos colocar o nosso trabalho sem eles? É possível construir mesmo que de forma sutil o que de fato é nosso , ou nos colocaremos sempre nessa posição de ter que se enquadrar dentro das expectativas exigências brancas? Adaptação, Sincretismo, Resistência são exemplos de algumas formas de ações que permitiram que conseguíssemos sobreviver sem perder o que é nosso por completo, mas até quando temos que estar sujeitos a apenas sobreviver?

Oras eles detém de fato esse poder econômico. O texto não e propõe a falar sobre “Black Money” , mas a reflexão sobre o que você tem feito ou procurado fazer para alcançar a autonomia que não é só sua, mas para seu povo. O que dentro de seus conhecimentos e habilidades busca construir? Consegue visualizar e projetar uma carreira ou profissão na qual, do contrário do primeiro parágrafo do texto, você seja um dos patrões ou trabalhe para pessoas pretas? Saber que seu propósito de hoje está sendo construído por você mesmo e não por outros. Então quando estiver caminhando prol da autonomia de seu povo é quando estará no caminho de obter Poder, poder para definir o que é o melhor para todos, com o que vamos consumir e investir, nosso sucesso será a partir de nós mesmos.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade