Uma das coisas mais profundas que a psicologia me ensinou
A psicologia é verdadeiramente desafiadora.
Escutar é uma das ações mais profundas e valorosas que a psicologia reforçou na minha vida e trajetória. Uma prática e postura diante do mundo — e a avançar a cada dia.
Escutar a outra, o outro. Escutar as dores do mundo, os prédios que desmoronam, as pontes que desabam e quem vive debaixo delas. Escutar o corpo diz, os ombros e colunas reclamam. Escutar como o desemprego afetou a vida do vendedor de balas no ônibus, a senhora que terminou o dia de faxina e só quer chegar em casa. Escutar a solidão de quem vive cercado por valores individualistas.
Ouvir não é o mesmo que escutar.
Escutar não é o mesmo que ouvir.
A gente pode ouvir o gemido sem escutar a dor; ouvir o tapa sem escutar o grito de socorro; ouvir a piada sem escutar a ofensa.
É preciso escutar as histórias e as trajetórias para, de fato, conhecê-las e conhecer quem está ali, à nossa frente. O que estrutura e dá sentido às suas vidas.
Escutar exige humildade e um tremendo respeito à quem está na nossa frente. Escutar com os ouvidos de quem sabe que ainda tem muito a aprender.
Dizer é uma necessidade.
Por isso que uma das grandes posturas do opressor é virar as costas para escutar o que o outro diz e o que esse outro carrega. É duvidar. Questionar. Desqualificar.
É o que o patriarcado e o racismo fazem: silenciam para dominar.
É compromisso da psicologia devolver ao outro a fala. Dizer é uma necessidade, uma tarefa, nossas responsabilidade no mundo. É tomar o lugar que é nosso por direito. Reconhecer a nossa história, erguer os punhos e lutar.
Se a gente não escuta, o outro se sente sozinho ou sozinha. Sem esperanças. Deixa de existir.
Se a gente não diz, a gente deixa o passado e os seus sujeitos dominarem as nossas vidas, contarem nossa história por nós. A gente não toma de volta tudo que nos roubaram.
Escutar e falar é convidar o outro a vir com a gente.
E, melhor ainda do que escutar, é quando a gente resolve fazer alguma coisa com aquilo. É quando diante de tudo que a gente já escutou e tudo que queremos, enxergamos o ponto de partida pra transformar o mundo e a vida das pessoas — se não for pra isso, não sei pro quê mais a psicologia pode servir.
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Publicado em perfil do facebook no meu quinto dia da psicóloga,
27 de Agosto de 2017.
