Não precisa bancar “o mais novo solteiro pegador”! Respire fundo e assuma sua dor de ter perdido um amor!

Escrevo este texto pensando, especialmente, em todos os homens corajosos que decidem olhar para si, acolherem suas fragilidades e assumirem o luto do fim de um relacionamento sem deixarem-se perder nas cegueiras superficiais do machismo.

Recentemente, terminei um relacionamento de mais de 12 anos. Ele, sem sombra de dúvidas, foi o homem que mais amei e… sim, ainda amo! Foi a pessoa junto a qual compartilhei minhas maiores aprendizagens. Construímos juntos espaços que me proporcionaram aprofundar o olhar sobre mim, sobre as pessoas e sobre o mundo.

Maior parte do tempo, estivemos alegres, felizes. Éramos um casal bonito e divertido. Sabem aqueles casais que chegam a despertar uma invejinha? Além de inveja, acho que tínhamos certa admiração das pessoas com as quais convivíamos. Era muito legal escutar alguém dizendo que nos admirava como casal, fato que aconteceu algumas vezes no decorrer dos anos. Não costumávamos brigar ou ficar de mal um com outro de uma forma muito drástica ou por longos períodos. Éramos carinhosos e no sexo, então… durante todos os 12 anos, o sexo com ele sempre foi algo maravilhoso, sintonia total, prazer imenso, até mesmo nos últimos dias em que estávamos juntos.

Na verdade, quando já havíamos tomado a decisão, pela separação, toda tesão, carinho, intimidade, cumplicidade, parceria se intensificaram. Chegamos, inclusive, a contar nossos planos e sonhos futuros, o que iríamos fazer dali pra frente e nos incentivamos e brindamos, coisa que já não fazíamos mais há um bom tempo. Acho que nos últimos dias juntos, fizemos um resgate do melhor que tínhamos e concretizamos, assim, a nossa despedida.

Poxa, mas por que se separar, então?

Por amor, mas agora, um amor menos romântico e mais genuíno!

Além destas coisas bonitas e legais que descrevi, tinha um lado não muito feliz que estávamos construindo. De forma mais forte, no último ano de relacionamento, deixamos em algum lugar abandonada e perdida a nossa conexão verdadeira. Nossas visões diferentes sobre as coisas, sobre a vida e sobre nós mesmos começaram a se opor, passaram a lutar de forma intensa, mas era uma luta mais silenciosa, não muito falada. Nossas necessidades passaram a competir e não encontramos mais um ponto de convergência. Passei por fases de raiva, culpa, de vitimização por minhas expectativas frustradas.

Mas, para mim, o ponto extremo de tudo, o momento que me fez tomar a iniciativa pela separação, foi quando percebi que muitas das coisas que faziam ele feliz eram as fontes do meu sofrimento. O dar-se conta disso caiu sobre mim de forma arrebatadora! Foi como uma bomba atômica explodindo na minha mente, no meu coração, destruindo impiedosamente quase tudo que eu acreditava, principalmente, sobre mim mesma.

A partir daí, não tinha mais a menor importância os meus julgamentos e minhas desqualificações sobre as prioridades dele… isso diluiu-se frente à tristeza que era para mim termos perdido este elo, não estarmos conectados… E muito, mas muito difícil, o mais triste de tudo foi me deparar com a identidade egoísta que construí para mim mesma, para a qual fiquei cega por tempos.

Enfim, tomei a iniciativa, conversamos e concordamos em tudo, inclusive, com o fato de que estávamos muito incapacitados para tentarmos juntos alguma possibilidade de reconexão e, então, era hora de eu ir embora.

Deixei um mundo para trás de pessoas lindas e queridas (todos os familiares e amigos que vieram junto com a relação), animais (sim, tínhamos gato, cachorro e eu não pude trazer comigo pelo próprio bem deles), de coisas (toda nossa casa estruturada, linda e confortável, um carro que era dele e que me facilitava a vida em inúmeras e importantes caronas). E o mais dicícil de tudo: agir com o coração para deixar o amor da minha vida.

Faz quase 3 meses que a separação em si aconteceu. Foram muitas perdas e, mesmo que eu saiba a importância de ir embora e deixar ir, é tudo muito difícil e dolorido na experiência em primeira pessoa, sendo protagonista. Os dias vão passando, cuido para não cair em armadilhas para fazer de conta que estou bem, que sou forte, fodona e bola pra frente, pois internamente existe algo sempre reafirmando que eu preciso passar por tudo que tiver de ser nesta experiência para evoluir como ser humano. Estou vivendo um dia de cada vez, de altos e baixos, tentando não negligenciar qualquer sentimento, pensamento e vontade ou não vontade de ação.

Entre preciosos processos terapêuticos, meditações, colos amigos e afetos queridos, estou descobrindo, acolhendo e assumindo quem sou de verdade, aprendendo a pedir ajuda, a me cuidar e, o essencial para o momento: a assumir minha vontade imensa de ser cuidada também.

Minha visão sobre tudo está mais ampla e acho que estou mais lúcida perante o significado do que é essa vida afinal. Tenho uma vontade enorme de ajudar as pessoas a aprenderem a se cuidar, a cuidarem uns dos outros, a cuidarem desse mundo que temos… e seguir, assim, eu aprendendo também.

Não tenho a menor garantia de que este texto seja uma real ajuda, embora a intenção seja esta. Nem de longe, é uma tentativa de convencer alguém de algo, de impor “certos” e “errados”, não é isso! Se você tiver lido até aqui, sugiro que reflita, questione, teste o que foi escrito com a sua experiência de vida e, se o que estiver lendo fizer sentido gerando alguma contribuição, que legal! Ficarei feliz, claro! 

Então, com este intuito, quero contar como essa minha história de perder um amor e de recomeço de vida, vem me ajudando a ampliar o olhar sobre as coisas dos universos feminino e masculino.

Neste mundo predominantemente machista, é fácil perceber que, tanto para mulheres como para homens, há uma desqualificação generalizada quando demonstramos fragilidades e vulnerabilidades, como se fosse possível alguém não as ter. É verdade que há motivos para celebrar uma maior abertura para, ao menos, olhar para estes aspectos nos últimos tempos e esta é uma discussão muito ampla, que pode ficar pra uma próxima, quem sabe?! A questão é que há muito a se viver e aprender para ultrapassar algumas barreiras nestes aspectos ainda, para despertarmos mais nosso potencial emocional, nossa compaixão e auto-compaixão… enfim.

Pensando neste sentido e no foco deste texto, acho que para os homens se permitirem ao luto do fim de um relacionamento é um desafio muito maior. Da vivência que estou tendo, vejo que é muito diferente a forma como os homens vivem suas perdas, olham e acolhem suas fragilidades. Existe uma permissão mais natural para que as mulheres sofram, chorem, fiquem tristes e peçam ajuda, enquanto que para os homens isso é, explicitamente, banalizado e ridicularizado, mesmo que eles sintam uma dor imensa numa situação bem semelhante a minha, que contei a vocês.

Com bastante frequência tenho visto que quando um homem passa pelo fim de um relacionamento, existe uma pressão enorme por parte de seus colegas e amigos (principalmente, de outros homens), uma forçação de barra do caramba pro cara começar a pegar geral, mostrar o garanhão pegador que é, afinal agora está livre, sem a prisão de um relacionamento. Tipo, a maravilha da vida é isso mesmo: curtição, encher a cara, “pegar muita vagabunda e piranha”, comer todas… blá, blá, blá…! Peço desculpas, pode ser triste e revoltante ler estas coisas, mas preciso escrever assim, pois é assim mesmo que as palavras são ditas muitas vezes, sem cerimônias. Não saberia dizer quantas vezes ouvi coisas lamentáveis do tipo.

Qualquer tristeza que um homem esteja passando precisa ser atropelada por essa palhaçada machista: ordens a noitadas de bebedeiras e muito sexo, festas, diversões, atividades e distrações variadas para comprovar absoluta masculinidade, afinal, esse é o mundo poderoso em que vivemos!

Cara, quando isso vai ter fim? Além de ser uma falta de humanidade monstruosa com o “amigo” que acaba de ter uma perda e fracassar num relacionamento, é uma baita contribuição para tudo de ruim que sabemos que acontece neste mundo machista. Não dá pra não relacionar este tipo de comportamento à banalização e incentivo aos mais variados casos de assédios e abusos contra mulheres que ocorrem todos os dias por aí. É extremamente comovente esta crueldade e falta de visão!

Amigos, vocês realmente acreditam que os homens não sofrem com o fim de um relacionamento? Vocês realmente acreditam que a vida após uma separação é a liberdade declarada, pura alegria e curtição e todo o resto de uma vida compartilhada… ah, é só um resto sem importância, mesmo… Sério?

Eu sei que podemos ver exemplos destas coisas acontendo entre mulheres também e quem disse que o machismo é fortalecido e reproduzido somente por homens?

E peço a vocês que não entendam esse texto como uma crítica a querermos nos divertir e pirar um pouco para afogar as mágoas. A questão não é essa!

Neste tempo separada, muitas vezes, eu pensei em ficar nesta vibe:

#sqn

O que quero compartilhar aqui é uma visão sobre as dificuldades reais em vivermos nossa tristeza por ter perdido um amor por causa do machismo. Quando se ignora a realidade além das aparências, quando se ignora sentimentos e pensamentos mais profundos e genuínos, para atender a uma cobrança imposta, deixa-se de evoluir como ser humano. E nisto não poderá haver liberdade!

Conheço homens que conseguem encarar toda essa pressão machista e não se deixam levar por ela simplesmente. Claro que não é fácil, é mega desafiador, mas me perguntem como eles ficam depois de encarado esse desafio! Tornam-se mais humanos e, por isso, genuinamente mais fortes, exemplos admiráveis, espelhos para outros homens e mulheres.

Homens queridos, não se submetam às pressões machistas, busquem parar de reproduzi-las! Confiem em vocês, experimentem-se e ajudem outros homens a aprenderem sobre isso também. Vivam os seus lutos, reconheçam suas vulnerabilidades. Vocês podem começar a adotar outras posturas frente à vida, não tenham medo!

As coisas estão mudando, é tempo de despertar, de ir além dos padrões e assumir a pessoa linda e maravilhosa que cada um é, seja homem ou mulher.

Então, respire fundo e assuma a sua dor de ter perdido um amor!

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