Insônia

Eram duas da manhã de uma quinta feira, estava usando a camiseta vermelha dele. Foi a primeira que encontrou no armário do namorado, ou ex-namorado? Nenhum dos dois sabia mais, não fazia diferença.

Já era madrugada e ela não conseguia dormir, estava na sala debruçada na janela, no escuro, com um copo de uísque na mão e um cigarro na outra. Há um ano, essa cena seria inimaginável, como que uma vida inteira pode ruir desse jeito? A vida sempre foi tão quadrada, tudo em seu devido lugar, no mais absoluto tédio. Agora tudo estava de cabeça pra baixo, nenhuma certeza, nenhuma amarra, nada fazia muito sentido e ela continuava entediada.

Parece que se existe alguma certeza nessa vida é de que o tédio e a morte, sempre permanecem. Esse pensamento dava uma sensação de desespero e conforto. Não importa o que aconteça, estar na merda é uma certeza. Era o que parecia pelo menos.

Então se sentiu mais insignificante. Era ridículo pensar nisso. Boa parte do mundo está mergulhada em tragédias reais. Tanta gente com problemas de verdade. E ela ali, se lamentado por levar uma vida conturbada. Foda-se pensou, também tinha direito de ser infeliz. Já havia perdido coisas demais e a tristeza era uma conquista dela.

Olhou a vista novamente, tomou mais um gole do uísque e se perguntou quanto tempo ainda teria, qual seria a extensão da trajetória dela. Se tudo acabasse agora, o que teria sido sua vida? Viveu boa parte do tempo de acordo com as expectativas dos outros. Então resolveu tomar suas decisões baseada apenas no que achasse melhor e de repente tudo estava de ponta cabeça.

Mais um gole de uísque. Fecha os olhos. Respira. Aquela janela poderia resolver tudo, em um minuto ela pararia de sentir tudo aquilo. Acendeu outro cigarro e olhou a vista outra vez. Durante a madrugada tudo parece perdido.