Alvos das manifestações: a violência contra jornalistas

Imagem: Jornal do Comércio, ato contra a prisão de Matheus Chaparini

Os relatórios de violência contra jornalistas da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) começaram a ser desenvolvidos em 1998. Naquela época, as ocorrências apontaram para 21 casos de violência. Os dados mais recentes, de 2016, já registram 161 casos. O levantamento aponta um aumento de 17,52% no número de agressões em relação à 2015 e, novamente, a maior parte das agressões foram registradas em manifestações de rua.

A tensão dos conflitos que ocorrem durante manifestações de rua são vividas de formas diversas por cada um de seus principais atores: os manifestantes, os policiais, e os jornalistas que estão lá para cobrir o acontecimento. Para o presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul, Milton Simas, “os profissionais precisam ter cuidado para não se tornarem alvos. Nossos colegas às vezes erram em escolher ficar no meio da manifestação [entre os manifestantes e os policiais militares].”

Simas conta ainda que, em 2014, ocorreu em Porto Alegre um curso com o Batalhão de Operações Especiais (BOE) para conscientizar os profissionais da imprensa gaúcha quanto a essas práticas, em decorrência às manifestações de 2013 e à Copa do Mundo. Desde então, o curso não aconteceu novamente. Para repórteres como Matheus Chaparini (Jornal Já), entretanto, cobrir a manifestação atrás das polícias militares é se contentar com uma versão superficial da história, por só incluir a visão do órgão oficial.

Durante a ocupação da Secretaria Estadual da Fazenda, em junho do ano passado, Chaparini foi o único jornalista a entrar no prédio junto com os secundaristas que protestavam por melhorias no ensino público estadual. No momento da desocupação, ele foi preso e levado com mais nove adultos para o então Presídio Central.

Em nota, na época, a Secretaria de Segurança Pública afirmou que “a prisão se deu em virtude do ato individual de invasão, do qual ele foi parte ativa, e não do exercício da atividade profissional de jornalista”. Fato contestado pelo vídeo no qual o jornalista se identifica ao Capitão Trajano, que afirma repetidamente: “pra mim tu tá junto”.

Minutos após a prisão, o Sindicato já havia contratado um advogado criminal e está até hoje arrecadando verba, por meio de um crowdfunding, para pagar pela defesa do jornalista. Em 2016, foram 12 casos de jornalistas presos no exercício da profissão. Portanto, este não parece ser um caso isolado. Um ano depois, Chaparini ainda responde por dano qualificado e desobediência.

O especialista em Segurança Pública, Alberto Kopittke, corrobora com o argumento de Chaparini. Ele explica que um profissional de Relações Públicas da Brigada Militar deveria se encarregar da segurança do jornalista atrás ou à frente do cordão policial, sem que exista um critério para quem é protegido ou não. Kopittke defende o diálogo como a melhor solução para minimizar as agressões em um ambiente tão tenso.

A instrução por parte da Brigada Militar é de que, nessas ocasiões, os jornalistas estejam sempre com equipamentos de segurança, como capacetes e coletes a prova de balas com a identificação de imprensa. O Sindicato dos Jornalistas afirma que este é um dever de todos os veículos de comunicação: proteger os seus funcionários com todas as ferramentas possíveis. Entretanto, casos como o de Daniel Fraga, ex-repórter da Rádio Gaúcha, mostram que esta não é uma prática comum entre as empresas.

Em dezembro do ano passado, Fraga foi ferido na cabeça por uma pedra, enquanto cobria uma manifestação em frente à Assembleia Legislativa. O tumulto não era mais algo inusitado, pois a semana havia sido agitada e com muitos protestos contra o pacote de medidas proposto pelo governo estadual. “Eu estava assistindo os dois lados frente a frente, como um técnico de futebol do lado do campo. […] Estava só registrando os fatos, dizendo o que eu via. […] Não tive nenhum contato do Sindicato, mas logo que aconteceu isso os meus chefes me ligaram e eu fui atendido pelo médico da empresa. A rádio foi bem cuidadosa comigo”, conta Daniel, que desconhecia a recomendação do uso de equipamentos de segurança. Ele diz ainda que prefere sempre ser o mais factual possível, para que os manifestantes não tomem as falas dele como algum tipo de afronta pessoal.

Em ambas as partes, manifestantes e policiais militares, existem dificuldades crescentes para lidar com gravações em vídeo e com a possível exposição negativa posterior. Matheus Gomes é líder de diversos movimentos sociais desde a época em que liderou o DCE da UFRGS e foi uma figura importante dos protestos de 2013 em Porto Alegre. Ele explica que, apesar de repudiar qualquer ato de violência contra os profissionais da imprensa, entende porque estes acabam se tornando alvos em determinadas manifestações de rua. Para Matheus, os veículos de comunicação possuem um papel importante para a construção política, social e econômica da sociedade. Isso significa que os manifestantes querem que as suas reivindicações possam aparecer na mídia sem serem depreciadas como, segundo ele, acontece nas coberturas da mídia hegemônica.

“Algumas manifestações são defendidas, como as que aconteceram no Parcão a favor do impeachment da presidente Dilma, enquanto outras são criminalizadas. Por isso que esse processo tem mais a ver com projeto de sociedade e menos com a violência em si. […] os manifestantes estão usando o espaço que têm para dizer que são contra essas empresas. Isso faz parte do processo democrático”, explica Matheus. Ele argumenta ainda que os casos de violência poderiam diminuir caso os jornalistas fossem mais honestos quanto a posição política do veículo e fizessem esse trabalho checando todas as fontes e informações, para que os propósitos das manifestações não fossem distorcidos. Matheus também defende o fomento às mídias alternativas, como uma forma de representação e de dar voz para esses grupos sociais.

Os jornalistas são frequentemente responsabilizados pelas posições políticas da linha editorial do veículo de comunicação. Isso acontece com ambos os lados. Chaparini, por exemplo, acredita que se ele estivesse com o crachá de algum veículo grande de comunicação, talvez ele não fosse preso. Fraga, se pergunta se a agressão que sofreu pode ter sido proposital.

Kopittke alega que a liberdade de imprensa e de expressão ainda precisam ser naturalizadas, tanto entre os policiais quanto entre os manifestantes, que, ainda segundo relatório da Fenaj, são respectivamente os principais responsáveis pelas agressões contra jornalistas em 2016. “Quando nós não temos nada a esconder, nós temos que ter confiança para que todas as imagens sejam mostradas”, argumenta. O treinamento dos policiais, segundo Kopittke, ainda é um problema grave nesse sentido. Isso porque ele acredita que as abordagens — mesmo com o uso da força — deveriam transmitir segurança para os profissionais da imprensa, independente do veículo para o qual eles trabalham.

Ninguém sabe quais serão os números apontados pelo relatório da Fenaj de violência contra jornalistas de 2017. Sabe-se, no entanto, que a responsabilidade para que estas agressões diminuam não estão, essencialmente, nos profissionais que são atingidos. Em um ano de tantas manifestações populares, de ânimos acirrados com o alto índice de desemprego, mudanças políticas e econômicas que afetam a vida de milhares de pessoas, é de extrema importância que as informações possam alcançar a população em sua pluralidade. Entretanto, isso acontece com maior facilidade quando os jornalistas podem chegar aos acontecimentos sem medo de se tornar mais uma estatística.