saudade

os melhores momentos que tivemos juntos foi em silêncio. longos intervalos em que nos entretínhamos apenas com palavras escritas ou com a música preenchendo a sala.

lembro do cheiro de cigarro empesteando a casa, do odor das pílulas de alho que você tomava todas as manhãs logo depois do café preto puro e sem açúcar. todos esses cheiros se impregnavam em mim nos abraços em que você me acolhia como se eu fosse menina.

o tempo passava só quando eu crescia. se dançávamos pela cozinha antes do almoço, você se assustava com a minha altura. …


meninos

os meninos caminham pelas ruas, soltos e tranquilos. viram esquinas, levantam taças, canecas e latas. juntos os meninos brindam e sorriem, se engraçam e distribuem olhares de desejo.

os meninos parecem simples, mas carregam dentro de si o peso da vida. eles escondem dor em piadas, tragadas, goles e gozos ocasionais.

sozinhos os meninos se afogam e se entristecem. eles se apequenam, adoecem e cerram os olhos. quando dormem, sonham com as belezas do que não podem ter e acordam certos de que tudo há de passar.

os meninos enxergam apenas o mundo dentro de si, atravessam a rua…


vagalume

quando eu era criança, os vagalumes indicavam a chegada do verão. lembro de uma noite em especial em que ficamos acordados até tarde. não era comum as visitas ficarem muito tempo, mas era dezembro e estava calor. a noite estrelava e tudo parecia bem.

passamos a noite ouvindo os adultos contarem histórias, rirem. comemos na varanda atrás de casa e só havia luz ali. diante de nós, a vida seguia entre árvores, grama e umidade. aquela foi a noite mais luminosa que guardei.

depois que o sol se punha, cresci assistindo ao breu da janela do meu quarto, pois…


água fria

entro no mar com o corpo quente e sinto a água fria molhar a barriga. espero a onda perfeita chegar e afundo. ouço tudo, experimento o sal, então, emerjo e flutuo.

aprendi a nadar, mas não tenho jeito com isso. eu não me acostumo com o mar. quando era criança, estar na água parecia natural. eu caía, quase afogava, mas estar ali era encontrar a plenitude. não havia nada mais divertido do que a água agitada em dias quentes.

sinto que um dos problemas de envelhecer é acumular medos inexplicáveis. de repente, quando a gente se dá conta…


calor

há um sabor de mar quando os dias estão quentes. esse gosto surge na primavera quando o sol finalmente alcança meu apartamento.

em manhãs assim, a claridade me desperta antes da hora e me provoca a construir um mundo inteiro nesse cômodo a ponto dele se tornar tão extenso quanto a costa dessa ilha.

fecho os olhos e me vejo a deriva e entregue no mar morno do meu quarto. ali me imagino imersa, aquecida, meio sonolenta e completa.

não tem vento jogando areia nos olhos, não há devaneio, erros ou dúvida. nem dor de cabeça ou queimadura de sol. o meu horizonte é tudo que não tenho ao alcance, incluindo você.


vento sul

quantas vezes é possível acender o coração sem deixar que ele perca o controle e se consuma até virar pó? se acontecesse de uma só vez, tudo bem. seria mais fácil se não houvesse o vento que assobia nas janelas e que eu chamo de sul sem ter certeza pra onde ele vai.

o medo maior é que o vento sul carregue tudo que há de bom, cada palpitação mais agitada e no peito fique apenas um espaço oco e disforme. lá fora, as pessoas hão de olhar e dizer: “ali já houve um coração, vítima de pequenos…


Quando a gente chega em uma certa idade é impossível ignorar o tempo. Começa com uma lombar que trava quando você tem uns 30 e poucos e muda sozinha uma mesa de lugar. O tempo não tem hora para agir.

Na série de eventos que me distanciam da juventude, recentemente, me dei conta de que estou quase velha demais para ter filhos. Quando tinha uns 10 anos uma vizinha me perguntou quantos filhos eu queria ter. Respondi: “nenhum”. Isso causou um desconforto que até eu mesma na minha percepção infantil senti. Ela sentenciou insatisfeita: “vai ser freira, então”. …


Por favor, grite dentro do seu coração — Foto: https://www.etsy.com/listing/827029150/please-scream-inside-your-heart-pin

Há histórias são extraordinárias e inesquecíveis. Ou quase. Ultimamente tudo que leio se desfaz e tive que cultivar o hábito de colar links em um diário virtual para não esquecer. Li que um oceanógrafo sentia falta do mar na pandemia, soube que no Japão um dia construíram uma montanha-russa, mas que ninguém podia gritar, por isso, colocaram uma placa escrito “Grite em seu coração”. Essa é a minha classificação de extraordinário. Algo que faz o canto da minha boca subir e dá vontade de guardar.

Como o leitor pode perceber, minha vida não tem nada de extraordinária. Já foi muito…


Estou correndo. Rápido demais, como é de costume. Morrendo aos poucos no final. Exausta, dramática. Insuficiente. Mas não consigo reduzir. Não consigo parar e só penso no ponto de chegada. O que tem no caminho não importa. Que o pulmão não dá conta não faz diferença. Lá, no fim, está o que eu quero e eu vou. Simples assim. O problema é que só consegui chegar na linha de chegada uma vez, uma vez sã e salva. Nas outras, tento consertar. Ou desisto. Ou me fazem abandonar. Ou paro. Ou me barram.

(Texto escrito em 23 de março de 2016)


há três semanas, a máquina de lavar roupa decidiu que só trabalharia quando quisesse. acatei a exigência, compreensiva. resignada, passei a colocar a roupa toda lá, programar a bichinha e esperar.

Foto: Viktor Talashuk

geralmente, demorava um bom tempo, mas ela cedia e dava resposta. eu nem conferia se a quantidade de água estava certa, se o sabão havia misturado bem ou se a centrifugação foi realizada com sucesso. fazia vista grossa e ignorava o processo todo com medo que tudo desandasse. tentamos manter nossa relação assim até que no último sábado a máquina parou de vez.

talvez tenha ficado ressentida. dia desses…

Carol Passos

Jornalista, feminista e bordadeira. nem tudo que eu escrevo é real.

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