Resistir ou não: Eis a questão

Re- sis- tên- cia

Substantivo feminino (rs)

  1. Força que se opõe ao movimento.

Essa é a definição que encontrei no dicionário. É claro, existem inúmeras definições para a mesma, mas essa é a que mais se encaixa no meu corpo de pele negra.

Há tempos venho, de acordo com a maré tentando resistir, digo tentando porque nunca resisti de fato. Me coloco contra o sistema, mas o sistema é maior, forte e massacrador, pisam nos e esmagam nos como formigas, enquanto nós carregamos folhinha por folhinha pra nos reconstruir por dentro. Nos incriminam, uma garrafa de pinho sol e uma sentença de vida. Nos humilham, revistam, não encontram e aí plantam, pó, erva, grana, arma, e aí acaba, game over pra nossa sanidade. Nos xingam, vagabundo, maconheiro, viciado, preto sujo, favelado. Preto? Com toda minha cor. Sujo? Se ser preto é sinônimo de sujo o sistema é mais negro que eu.

Resistir, não mais, não aqui. Como posso acreditar que esse ato vai me levar avante? Como? Em 2018 me formo Engenheira, ou me formaria. Estou desde o terceiro período da faculdade desempregada, uma busca exaustiva que já completa 4 anos. São aproximadamente 1470 dias ouvindo os demônios da minha mente soprarem que sou incapaz, que devo desistir e aceitar os encargos que a sociedade branca designaram pra mim, como mulher e/ou descendente de pessoas escravizadas. Será que devo largar a caneta e a calculadora pra ninar uma criança branca? Todo dia me pergunto isso, todo dia vou contra isso, resisto parceladamente. Integralmente seria se eu me reafirmasse que estou no caminho certo e que a glória uma hora chegará. Mas eu não sei se vai, e também não acredito nisso, nem me culpo. Culpa? Como posso me culpar sobrevivendo com o que sobra das contas do mês que minha mãe paga com sua pensão/aposentadoria que mal dá pra mensalidade da faculdade + imposto de renda sem nos sufocar?

Talvez eu volte a falar em resistir quando tiver um emprego, um diploma, algo que dê força ao meu negro, fraco e desnutrido corpo contra o Estado.

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