Quase 30 anos e não aprendi português ainda?!

Portugueses e brasileiros, mais desunidos do que nunca pela língua que nos une

Nuno Codeço, durante o Masterchef Brasil. Imagem retirada do site TV Mais.

O Masterchef Brasil conseguiu uma audiência que, acredito, nunca imaginou: a mídia portuguesa. O sorridente da imagem acima é Nuno Codeço, português que participou da edição de 2016 do programa. A temporada já terminou no Brasil, mas está em exibição em Portugal atualmente.

Na última segunda-feira, 30 de janeiro, o episódio com a prova seletiva de Nuno caiu na boca dos portugueses, mas não foi pela culinária. Foi pelo uso de legenda para a fala do candidato e pelo comentário feito pelo jurado francês Erick Jacquin quando Nuno respondeu a argentina Paola Carosella.

Paola: “Faz quanto tempo que você vive no Brasil?”
Nuno: “Cinco anos.”
Jacquin: “Cinco anos no Brasil e nem fala português ainda”.

O trecho foi publicado por Rita Marrafa de Carvalho no Twitter e no Facebook, acompanhado dos comentários pessoais da jornalista portuguesa. Rita é uma profissional renomada em Portugal. A opinião dela sobre o episódio virou notícia de destaque por aqui e levantou um debate acirrado. A polêmica foi grande. Tanto que o jurado se justificou.

Ontem, quatro dias depois das publicações de Rita Marrafa, o caso continuava a repercutir, desta vez no programa Passadeira Vermelha, da SIC. O jornalista — brasileiro — João Fellet twittou um trechinho, com destaque para uma colocação da jornalista e escritora portuguesa Luísa Castel-Branco.

Bem, uma declaração como esta gera alguma curiosidade. Procurei o programa e, abaixo, está o debate na íntegra (falta apenas o começo, quando exibiram o trecho do Masterchef Brasil publicado por Rita Marrafa).

A discussão, logo no início, constata uma realidade: brasileiros têm dificuldade para entender portugueses. A apresentadora Ana Marques simplifica bem a questão. “O erro está em que… durante 40 anos, foi trazer de lá pra cá e levar muito pouco de Portugal pra lá”.

No próximo mês de maio, vai fazer 40 anos que Gabriela foi exibida em Portugal. Foi a primeira novela a passar numa televisão portuguesa. Para termos noção do tamanho do sucesso da produção, fica um trecho do artigo de Teresa Matos sobre os 25 anos da exibição, publicado em 2002 no jornal Público.

À hora da telenovela o país parava e as ruas ficavam desertas. Conta-se que até os deputados interrompiam os trabalhos na Assembleia da República para assistirem ao folhetim (…). “Gabriela amarrou os portugueses à casa e ao televisor”, diz Miguel Gaspar, crítico de televisão d’ “O Independente”. Alberto Silva Lopes, vice-presidente da Associação Portuguesa de Telespectadores, concorda: “As pessoas passaram a delegar à telenovela horas que anteriormente eram consagradas a outras formas de convívio”. Pela mão de Gabriela, os portugueses ficaram “viciados” no género.

Simultaneamente ao impacto de Gabriela em Portugal, o Brasil vivia a febre Roberto Leal. O português loirinho, simpático, alegre, cheio de energia, apresentava-nos à cultura da terra onde nasceu com músicas que foram sucesso e que, até hoje, sabemos cantar. Roberto vivia nos mais consagrados programas de TV da época, ganhou inúmeros prêmios e até protagonizou um filme.

Avaliando por este começo, a largada foi a mesma, mas o desenrolar da história foi bem diferente. Enquanto os portugueses recebiam cada vez mais do Brasil depois de Gabriela, nada mais de Portugal chegou aos brasileiros por um bom tempo depois de Roberto.

Como disse Ana Marques na discussão do programa, os portugueses se adaptaram ao linguajar do Brasil. Acostumaram-se a ouvir e a entender significados de expressões. Quando vim morar aqui pela primeira vez, em 2008, durante um intercâmbio acadêmico, fiquei muito surpresa por ter colegas de turma que usavam “legal” no lugar de “fixe” ao falar comigo. Eles conhecem as gírias, os atores, os cantores, as músicas, os escritores, os livros, as marcas, a culinária… E nós, nada.

Por isso, qualquer reação que os portugueses tenham diante do episódio do Masterchef é legítima, afinal são os criadores da língua, mas não é correto apelar à desinformação, para não referir o preconceito, na hora de argumentar.

Luísa Castel-Branco referencia o acordo ortográfico aos 4:40 do vídeo, ao falar que “todas as alterações que estamos a fazer (…) têm a ver com o fato do Brasil e dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) poderem mais facilmente entender-nos, e o Brasil nem sequer ratificou esse acordo. De acordo com o Governo Federal, o Brasil ratificou o acordo ortográfico em setembro de 2008, mesmo ano que Portugal, e o uso das novas regras passou a ser obrigatório em 1 de janeiro de 2016. Mesmo durante o período de adaptação, já utilizávamos maciçamente a nova ortografia, embora ainda cheios de dúvidas (o hífen que o diga).

Não entro no mérito do acordo. Ouvi pessoalmente de vários portugueses, quando questionados sobre a nova ortografia, que “os brasileiros não sabem nem ler” então não há nada que justifique. É adequado? É injusto? É confuso? É obrigatório. E nós apenas cumprimos.

Esta imagem de sermos analfabetos citada acima leva-me a refletir sobre o próximo argumento de Luísa Castel-Branco, aos 5:12. “Pessoas no Brasil têm para com os portugueses uma atitude que é do conhecimento geral (…). De uns anos pra cá começa a haver uma ou outra atitude mais negativa com os brasileiros, mas nada que se compare a que os portugueses têm lá”. É de conhecimento geral mesmo que, no Brasil, o seu Manuel (também pode ser o Joaquim) é um padeiro burro e bruto e a dona Maria é uma velha bigoduda que só veste preto, mas não é possível determinar medidas para este tipo de atitude. Eu posso não achar que generalizar uma nação como burra é mais grave do que generalizar uma outra como analfabeta. E aí?

Posso estar falando pelo senso comum agora, mas desconheço outro estereótipo que se tenha no Brasil com relação aos portugueses além do combo burrice+brutalidade+bigode (e não estou minimizando de jeito nenhum, basta isso para ferir sentimentos, gerar desrespeito e até virar crime). Entretanto, como ainda vou fazer 30 anos, consultei meu sogro, que já vai nos 60, e ele também não recorda.

Do lado inverso, só entre os que já presenciei em 1 ano e 4 meses morando em Lisboa, conto quatro. 1)Somos analfabetos, como já referi. 2)Também não temos “respeito pela vida humana como nós temos” — isto ouvi durante uma conversa de almoço entre cinco portugueses, que comentavam uma notícia policial de São Paulo que tinham visto pela internet. 3)Certo dia, um professor levou a turma para visitar uma rádio. Um dos funcionários pediu para que nos apresentássemos. Na minha vez, falei “sou de Fortaleza, no Brasil” e a reação do funcionário foi “humm gostosa. Preciso comentar algo sobre a imagem feminina? 4)Um colega português no estágio olha pra mim e pergunta “então Carol, como é um brasileiro triste?. Oi?

No programa, Luísa Castel-Branco ressalta outros. Aos 5:32, a jornalista faz a colocação que João Fellet destacou no Twitter. Diz ficar impressionada que, mesmo com nossa “falta de cultura, falta de respeito, a falta de tudo, um povo que não tem uma língua própria, porque eles falam português, que vem de Portugal”, agimos com “arrogância” ao insinuar que Nuno, um português, não fala português. O apresentador Cláudio Ramos intervém e lembra que quem disse que o candidato não fala português foi um francês. Mas importa? Para Luísa não. “Seja quem for. Tu sabes o que se passa no Brasil quando os portugueses lá vão”. Por este raciocínio, poderia ter sido até um português a dizer. Foi lá no Brasil, então fomos nós.

Em seguida, aos 7:27, Luísa diz que é preciso explicar aos brasileiros, mais uma vez, que a língua é portuguesa, de Portugal, e que eles falam português, senão se esquecem”. Todos os brasileiros têm certeza de que sua língua nativa é o português, mas só até chegarem em Portugal e descobrirem que, na verdade, falam “brasileiro”. Sim, alguns portugueses é que parecem esquecer que falamos a mesma língua. Pode ser no contexto que for. Há dois dias, na aula (faço mestrado), a professora disse que um trabalho misturava “brasileiro, português, inglês”. Estagiei numa redação de TV aqui e ouvia diariamente dos jornalistas coisas do tipo “ah, aí tinha um texto em brasileiro”. É como se, a cada situação dessas, fosse um português olhando pra mim e dizendo “quase 30 anos de vida e não fala português ainda, Carol?!” Acredito que muitos brasileiros que já viveram em Portugal ouviram essa referência. Também acredito que os portugueses não usam por mal, mas que é um forma de segregar, é.

O debate no programa Passadeira Vermelha ainda envereda para o lado das dublagens (dobragens), da aprendizagem de línguas, dos sotaques, mas vou parar por aqui.

Acredito que tentar se comunicar na língua do país onde você está é uma questão de gentileza e cordialidade. E é com esse pensamento que, mesmo também sendo nativa do português, faço questão de adotar palavras e expressões que não existem no Brasil no meu dia a dia. Hoje, eu pego o autocarro para ir ter com minhas amigas, chamo toda a malta para um passeio e registo sítios bonitos em foto, por exemplo.

O melhor tem sido abrir os olhos para a beleza da norma culta da língua portuguesa. Tudo aquilo que aprendemos no colégio, e nunca mais usamos, aqui é parte de qualquer rotina. Voltei a usar pronomes que já nem lembrava, como consigo, convosco e vosso em conversas simples.

A fonética torna tudo ainda mais interessante. É hilário brincar de corrigir o sotaque brasileiro das amigas. Também é a elas que recorro quando deixo escapar alguma palavra, o que, orgulhosamente digo, quase já não acontece. Compreender foneticamente um português torna-se natural com o costume. O que falta ao Brasil é hábito. Por isso a legenda para Nuno, que, claramente, não foi pelo fato de ele ser português, mas sim de soar estranho para os brasileiros. Da mesma forma que o jurado francês segue legendado, até hoje, desde 2014, quando o programa estreou lá.

É muito fácil apelar a estereótipos, que nem deveriam existir, para minimizar qualquer reflexão. Há más concepções por todos os lados, cabe a nós trabalhar para extingui-las. Até lá, sigo como Vinícius, botando um pouquinho de sotaque nas relações tão lindas que tenho construído aqui.


Vinícius de Morais compôs “Saudades do Brasil em Portugal” para Amália Rodrigues, a musa do fado português. Os dois vídeos abaixo trazem áudios gravados durante um encontro na casa de Amália. No primeiro, Vinícius canta. No segundo, Amália. Ouçam, é um deslumbre.

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