A magia do circo

Texto por Caroline Stédile | Fotos por Melvin Quaresma

A magia do circo deslumbra a alma e contagia o corpo logo na infância, lá na primeira vez em que nos sentamos na arquibancada. Comigo foi assim. Diante do picadeiro e embaixo da lona, tudo parecia possível.

A dança no ar era realizada com graciosidade pela acrobata. As fitas me encantaram. Cada movimento era um suspiro de admiração e alívio — por ela saber exatamente o que estava fazendo.

Tentava piscar pouco para não perder um único movimento. Registrava com a mente para, após o espetaculo, criar o meu próprio show na sala de casa. Os movimentos eram repetidos com perfeição — sonhava a minha mente. As limitações estavam apenas no pequeno corpo que dançava, em segurança, no tapete peludo.

Um pouco mais tarde conheci o globo da morte. O braço do meu pai era o conforto para agonia que entrava pelos meus olhos e se espalhava pelo corpo ao ver todas aquelas motos adentrarem no globo gigante — e que ficava tão pequenininho.

Muitas outras vezes sentei na arquibancada para assistir aos espetáculos. Eles nunca decepcionam. Desde espetáculos menores, daqueles que vão de bairro em bairro; até os grandiosos, como a magia transmitida no Cirque du Soleil que encanta ao redor do mundo todo.

Alegria!

É assim que começa e termina cada apresentação construída por artistas que distribuem sorrisos para depois colecioná-los. Dona Deolinda foi uma dessas artistas, fez parte da primeira geração da família circense do Circo Irmãos Romanos. Ela dedicou a vida inteira ao picadeiro e hoje já não se apresenta diante do público, mas gosta de lembrar aos mais novos a determinação necessária quando se é um artista circense.

“O público paga para nos ver sorrir.”

O sorriso é o motivo e a razão do circo. O sorriso contagia, mas têm dias que não é fácil sorrir. A vida no picadeiro tem esses desencontros. Ser artista circense é isso: deixar os problemas para trás em sincronia com o momento que o pé pisa no palco. O espetáculo não pode parar.

Muitos artistas circenses são frutos do circo: nasceram e foram criados debaixo da lona. O espetáculo encanta e vicia. É perceptível a paixão pelo picadeiro se renovando a cada geração; as famílias circenses se tornam tradicionais, um legado a ser preservado.

“Na vida de circo, tudo é muito intenso.”

Aos 4 anos John já se apresentava como palhaço junto do pai, com quem aprendeu grande parte das suas habilidades circenses. Ele completa a quarta geração da família Salgueiro e deu origem a quinta. Os anos de dedicação e treino estão claramente visíveis no corpo do trapezista de 29 anos.

“Aqui você aprende olhando, se descobrindo. Não tem nada regrado, tudo acontece de forma natural.”

Ao final de aproximadamente três meses de instalação do circo em uma cidade grande, está na hora de partir e coletar sorrisos em outro lugar. Quando a cidade é pequena, duas semanas são suficientes. Na bagagem sempre tem espaço para carregar a esperança de voltar e reencontrar os amigos e projetos que foram deixados por ali.

Às vezes, apertando um pouquinho, dá para carregar também o amor. Márcia Santos, que há 23 anos era “da cidade”, conheceu o malabarista Joarez Alvez e passou a ser “do circo”.

“Geralmente quem é da cidade e casa com alguém do circo, acaba vindo pro circo e não ao contrário. Quem nasce aqui, não sai.”

Mesmo não apreciando a atenção do público e preferindo ficar nas barraquinhas de lanches, posto que ocupa há 5 anos, ela acompanhou o marido nos malabares durante 18 anos da vida que escolheu seguir.

“Odeio até fotografia! Para falar eu sou boa, mas não me pede para aparecer, não.”

Juntos eles construíram a sua própria bagagem. Os dois filhos, Junior Alves com 21 anos e Igor Alves com 10, já sabem bem o que querem para vida e, como havia de ser, são coletores de sorrisos.

“Nasci no circo, meu avô era de circo, meu pai era de circo e eu não tive como escapar: fiquei no circo!”
Igor Alves — 2014