Holocausto de cada dia

Museu do Holocausto de Curitiba, 2015

A cada tic-tac do relógio, a história da humanidade se completa e se multiplica ao mesmo tempo. Algumas voltas do ponteiro passam despercebidas, não valem a pena serem contadas. Já os segundos — ou anos — mais peculiares são perpetuados e voltam a circular no relógio da vida quando precisam ser relembrados.

Os depósitos de histórias guardam tempos diferentes. Museus, bibliotecas, escolas… Alguns desses lugares vivem apenas para recontar o passado. Por outro lado, outros se desprendem desse passado para tentar mudar o futuro.

Há os interessados nas atividades de preservação da história — esses têm nome próprio. Carlos Reiss, apesar de coordenar um museu que, inicialmente, parece preso no passado recontando trágicos momentos, preocupa-se mesmo é com o futuro esperando para ser vivido. Lá, o trabalho de Carlos ainda pode fazer alguma diferença.

Falar sobre Holocausto não é fazer uma viagem no tempo. Hoje ainda vemos intolerância, racismo e ódio. O holocausto é composto por histórias de pessoas chegando à conclusão de que outras são inferiores e merecem passar por processos de discriminação, confinamento e assassinato. Vemos isso todos os dias em menores escalas.

O Museu do Holocausto de Curitiba é o depósito de memórias dos anos de 1933 até 1945, período de duração do holocausto nazista. A necessidade de mostrar o passado reflete diretamente na intenção de não deixar os momentos mais obscuros voltarem a circular pelos ponteiros.

“Para falar de Holocausto não podemos só despejar informação na cabeça das pessoas. Contamos histórias pontuais e tiramos lições delas. Se eles saírem daqui sem saber se foi Hitler, Himmler, Goebbels… 1935 ou 36… Não importa! Mas se entenderem a mensagem que queremos passar, posso deitar a cabeça no travesseiro e dormir em paz.”
Vida (hebraico)

Vida! É lá que o museu começa e termina. A palavra é representada em hebraico na parede do ambiente, a céu aberto, que antecede a entrada do museu. É um aviso velado no símbolo. A partir daquele ponto, as lições tiradas das histórias — muitas sobre a morte — deverão ecoar nos momentos que serão tiquetaqueados futuramente no relógio da vida de cada visitante.

Os pés que calçam os sapatos

É muito importante entender que o holocausto não é uma história de milhões de pessoas, são milhões de histórias de milhões de pessoas, cada uma com um nome, sobrenome e sonho.

Anne Frank, de forma discreta, é a primeira personagem a ser lembrada. Uma citação na parede vizinha ao símbolo da vida evidencia a memória do diário mais famoso do mundo: “Apesar de tudo, ainda acredito na bondade humana.”

O relato mantido por dois anos, durante a guerra, coloca o diário de Frank como um dos objetos mais representativos na reconstrução de histórias. As palavras se mantêm vivas através do tempo. Outros pertences ajudam a preservar milhões de histórias, mas a maioria deles não é tão evidente.

“Ao invés de mostrar uma pilha de corpos, cabelos ou sapatos, como estamos acostumados a ver, para nós é muito mais importante mostrar um único sapato. A partir dele podemos mostrar de quem era esse calçado, o que aconteceu nessa história e, principalmente, o que podemos tirar de lição.”

A fala acaba se tornando uma metáfora para outros objetos do museu — aqueles que já possuem uma história — , já que os calçados expostos ainda procuram o caminho percorrido pelos pés que um dia os calçaram.

Outros rastros já foram decifrados. Aos oito anos, Gert Drucker estava presente em um episódio do holocausto, antecedente à guerra, conhecido como Noite dos Cristais. Presenciou e sobreviveu, junto com a sua família, à destruição de uma sinagoga; continuou lutando pela vida ao se esconder em um orfanato durante anos; e finalmente reencontrou a mãe ao fim da guerra. Juntos, os únicos sobreviventes da família se mudaram para Brusque, em Santa Catarina, e logo chegaram a Curitiba.

Hoje Gert ainda vive na capital paranaense e parte dos 86 anos de sua vida constroem o acervo de histórias dos judeus que chegaram ao Brasil. Sua jornada é constantemente contada pelos guias do museu e a proximidade geográfica chama atenção dos visitantes atentos.

Para instigar ainda mais, Carlos gosta de contar aos visitantes sobre Sara, uma mulher que sobreviveu aos horrores do campo de concentração de Auschwitz e, depois da Guerra, reconstruiu sua vida no Brasil. Entre os netos, um se dedica especialmente para fazer essa e outras histórias continuarem vivas por quanto tempo for necessário: o Carlos.

“Nosso sonho é um dia poder fechar o museu. Não precisar mais falar sobre esse tema para educar as pessoas. Alguns não acreditam que esse dia vai chegar. Pode não ser na nossa geração, mas temos que começar em algum lugar. Se não acreditássemos que o ser humano pode mudar, não estaríamos perdendo tempo com isso.”

Que a contagem regressiva para esse dia se inicie!

___________________________________________________________________

Esse texto foi originalmente publicado no aplicativo para smartphones “Aspas”, junto com uma série de reportagens de cunho humanizado.