Imersão é o Must da Jornada?

A Revolução dos Bichos — George Orwell

Um dos aspectos mais interessantes nas obras de ficção é o poder de imersão que o autor deve ter para transportar o leitor para aquele mundo criado por ele. Esse quesito é, ao mesmo tempo que uma estratégia, o meio de captar as pessoas, já que uma boa imersão gera curiosidade e empatia em relação aos personagens ou assunto tratado. É uma tarefa difícil e ao mesmo tempo trabalhosa, já que exige muito conhecimento e pesquisa. Dentro do pacote ainda tem o talento, mas ele não basta por si só.

Se o talento não basta, ele não serve? Não, muito pelo contrário. O talento facilita o processo de criação, mas ele não o torna completo sozinho. Conhecer realidades distintas e passar as ideias para a escrita são atividades essenciais e que necessitam de treino. O olho pode não conseguir enxergar tudo o que é exposto a ele caso não seja treinado para isso, assim como a escrita não se explica sozinha sem antes escrever textos e mais textos cheios de bobagens. Afinal, como dá para saber se é bom se antes nunca se escreveu o ruim?

Voltando a imersão, dá para saber bem quando houve um trabalho de pesquisa num livro e quando não houve preparação alguma. Os textos acadêmicos, por exemplo, são os maiores alvos do olhar atento, já que é indispensável que haja um bom trabalho na imersão e na pesquisa. Os livros não acadêmicos têm necessidade de uma ambientação maior, principalmente os de ficção, pois muitas vezes o leitor não entrou em contato com aquele assunto ou mundo antes daquele livro. O autor tem uma chance — caso seja um livro único — para conquistar a confiança de quem o lê, para valer a pena o tempo investido naquela atividade, e quando essa chance é perdida, acontece desconexão, seja com o livro, os personagens, o mundo ou até mesmo o autor.

Falo tanto de pesquisa e até agora não dei exemplo algum. Consideremos, então, um livro que trate de relacionamentos abusivos. Para escrever um livro assim, não seria preciso vivenciar tal relacionamento, e sim saber como ele se comporta, as causas e se possível os efeitos daquela relação. A análise, coleta de experiências e diferenciação entre um relacionamento saudável e um nem tanto têm como resultado uma promessa de livro boa, que retrata bem a vida de pessoas abusadas. Após essa verificação de como o mundo real funciona, o talento entra para unir todos as questões a respeito daquele assunto. Será que a vítima vai saber ouvir os familiares quando dizem que aquela pessoa está fazendo mal a ela? Ou será que a vítima escolheu o relacionamento ruim de propósito? A vítima é mesmo vítima ou merece todos os transtornos pelos quais passa?

Saber o contexto em que a obra foi produzida também ajuda no processo de imersão do leitor, pois delimitar tempo e espaço, situação política e social e a essência do pensar tanto das personagens quanto do próprio autor ajudam a criar uma atmosfera em que se limitam algumas interpretações em detrimento de outras. Eliminar possibilidades ajuda a diminuir frustrações, já que às vezes a imersão pode ser estragada por expectativas não correspondidas. A falta de identificação pode acontecer por inúmeros motivos, mas um dos objetivos do autor é fazer com que quem entre em contato com o seu livro passe por uma experiência boa, que o leitor entenda a obra e abrace aquela realidade, aceitando qualidades e defeitos.

Considerando a imersão como um processo que envolve o leitor no texto, acredito que é complexo conseguir tal proeza, mas não impossível. Alguns livros clássicos, por tratarem de realidades muito distantes e com pouco poder de imersão, às vezes cansam o indivíduo e fazem com que ele se distraia com outras atividades. Esse fenômeno, no entanto, não é uma realidade exclusiva das obras mais antigas. Alguns lançamentos do mercado editorial também não conseguem prender a atenção, e nisso pode entrar tanto o problema de imersão — que pode ser relacionado com super exposição de estímulos de diversas naturezas — e também o fato de o enredo não surpreender, voltando a falar das expectativas frustradas.

Por fim, posso dizer que todos nós temos problema de imersão em algum momento da vida. Podemos estar distraídos com tantas atividades que nos ocupam, podemos ter lido muitos livros com temáticas parecidas e enredos semelhantes, e talvez o autor não tenha conseguido amarrar sua história de forma que prenda a atenção. Acho que o importante a ser dito aqui é que independente da qualidade literária, que pode influenciar sim, existe também a não imersão pela falta de maturidade do leitor, que talvez não consiga acompanhar a obra naquele instante. Convenhamos, às vezes lemos textos muito complicados, ou lemos quando estamos cansados, e isso faz com que não nos interessemos mais por aquele livro ou autor.

A imersão é um parâmetro bom de análise, mas também não precisa ser o único aspecto realmente importante dentro de uma obra. Às vezes os personagens tocam sem que o enredo seja extraordinário, assim como os acontecimentos dentro de uma narrativa podem chamar mais a atenção do que quem está vivendo aquilo. Alguns aspectos podem destoar dentro de uma construção literária, e esses tijolos equivocados podem tirar o brilho dos corretamente postos. A experiência de leitura é individual e precisa ser ponderada, pois a maioria dos livros — senão todos — têm pelo menos alguma coisa que pode ser aproveitada. Seja uma construção frasal bacana, um narrador poderoso ou ser um exemplo de como não escrever. A sensibilidade para perceber essas nuances está em quem lê, portanto cada viagem para cada leitor é única, fazendo com que a mensagem também o seja.