Água venenosa

Carol Cruz
Nov 4 · 3 min read

Estava com a cabeça no centro de São Paulo quando o médico anunciou meu nome no microfone. Fazia muito tempo que não passeava pelas ruas do Anhangabaú e aquele era, sem dúvida alguma, o lado da cidade que eu mais gostava. Eu até carregava um sincero fascínio pela Paulista, mas era diferente. Na Paulista conseguia ser apenas mais uma alma vagando, mas lá embaixo, no centro centro, eu só era mais um… nada. Sentia falta dos cheiros, das pessoas de diferentes partes do mundo no corre, da variação de comida e de rostos cansados, mas sentia falta, principalmente, da sensação que aquela parte do planeta me causava. Algo tinha que ver com o clima. Com os dias de sol e chuva e vazamento de gás que me pareciam tão intensos, mas todo o resto tinha a ver com o não ser. O não existir. Não importar e não me importar também.

Eu tinha escutado o médico me chamar. Dizia com a pronúncia “inglesa” do meu nome e escolhi ignorar. Ignorei algumas vezes, nem parecia que havia a urgência em descobrir do que se tratava aquele caroço no meu peito direito. “Carolaine Cruz” me chateava, não me causava reconhecimento. Eu queria ouvir mesmo o “Caroliiiine” alongado e nasalado que a gente da minha terra insistia em profanar. E como se alguma força divina me houvesse ouvido, a voz masculina enfim e muito suavemente disse “Caroline Cristine”. Seco, curto, mas menos inventado. Levantei.

Enquanto caminhava em direção a sala do médico, apenas conseguia pensar que a morte, no fim das contas, só servia para colocar as coisas em perspectiva. Todas as mortes me serviam como reflexão daquilo que poderia ter sido, daquilo que poderia ter dito ou até, não dito. A possibilidade de morrer em seis meses, me lançou em uma dimensão de espaço e tempo distinta. Jogou luz em relações que precisavam florescer e secou completamente, aquelas que necessitavam de tempo e de desistência. Talvez tenham sido os meses mais felizes da minha vida e os mais cruéis também. A pergunta que sempre faziam em tom de brincadeira, tinha ganhado significado e respondê-la, hipoteticamente, me parecia desrespeitoso: “o que você faria se soubesse que ia morrer em seis meses?”

Eu fiz o que qualquer um faria. Chorei. Me consolei. Aproveitei. Me declarei. Me droguei. Transei muito. Tive os melhores orgasmos enquanto guardava, no meu peito direito, o segredo que, em qualquer momento, poderia me desligar para essa realidade. Deixei que chupassem e mordessem meu seio. Colocassem a porra do caroço na boca. Chorei novamente por noites inteiras. Pensei em fins trágico e estúpidos, pensei até, em superficialidades: será que a morte tem algum ruído específico? Senti raiva. Muito mais do que qualquer sentimento positivo de auto amor e declarações aos entes queridos, eu fiquei puta e deixei que o ódio fluísse por todas minhas células, cancerígenas ou não. Irritada. Não suportava o sapo de não estar aqui quando as coisas acontecessem e eu nem sabia o que esperava acontecer. Esperava ver o futuro. Os filhos crescerem. A revolução acontecer. E, simplesmente, não veria nada. Graças a Deus! Tinha zero confiança também e ao mesmo tempo, sentia que seria bom resolver esse assunto logo de uma vez. Afinal, todo mundo ia morrer, não ia?

Certa noite me peguei imaginando que se pudesse escolher uma trilha sonora para o momento, seria Maneiras na voz do Zeca Pagodinho. Clichê, mas eu nunca disse que não era. Talvez carregue em minha história, o roteiro mais clichê dos tempos. “Se eu quiser fumar, eu fumo. Se eu quiser beber, eu bebo. Pago tudo que consumo com o suor do meu emprego.” É uma boa música.

“Carolaine?” me perguntou o homem evidentemente irritado. “Carolaine Cruz?” me encarava esperando a confirmação. Não me dei ao trabalho de responder. Fiz que não com a cabeça pois Carolaine, eu nunca fui e saí caminho contrário àquela sala maldita. Andei sentido a porta sem pensar muito. Fui andando e só parei quando avistei um banco ao lado de uma praça. Tive a sensação de ser um nada novamente, como em São Paulo, como no Anhangabaú e ri. Me chamariam louca, mas tinha a certeza de que a vida só poderia acontecer agora e tratei de mudar o tempo verbal daquela narrativa.

Carol Cruz

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A bem da verdade é que quando escrevo não tô mais sozinha.

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