Pós

“Conseguiu dormir?”, ele me pergunta ainda cansado.

“Olha, depois de te imaginar morto e de como eu sairia daquela situação por quase duas horas, eu dormi, sim…” respondo e fico olhando pra cara incrédula dele.

“E por que eu morreria?”

“Não sei. Mas imagina a situação… eu interfonando pro porteiro e explicando que você morreu e eu precisava de ajuda.”

“Nega, por que você ligaria pro porteiro? Eu hein!”

Eu amo quando ele mete umas expressões de D. de casa no meio do diálogo.

“Porque eu não trouxe meu celular e não sei desbloquear o seu…”

“Hm, verdade. E tudo aqui tem senha…” entra na minha onda.

“Daí eu ia ter que esperar a polícia e responder perguntas constrangedoras…”

“Tipo?”

“Tipo… ‘onde cês se conheceram? Então, moço, foi no Tinder. Um match…’”

Ele enfim solta uma gargalhada que parece contemplar o meu pavor. E eu continuo, sem limites:

“E não saberia responder perguntas essenciais e importantes…”

“Tipo?!”

“’Ele é libriano de qual decanato? A vênus está em qual planeta?’ Eu mal sei seu ascendente…” revira os olhos e não ri. Astrologia sempre foi um impasse nas nossas interações.

“Será que eles peguntariam se a gente tinha…” faz barulho com a boca e um sinal com a mão que indica sexo.

“Nossa… não vou dormir nunca mais aqui!”

“Olha, assumo que eu deixaria meu corpo e sentaria bem naquela cadeira ali pra assistir tudinho…”

“Isso porque cê é um espírito de porco maldito…”

Conversas pós sexo são o verdadeiro habitat da intimidade…

“A pior parte seria ver sua mãe chegando e dando de cara com uma desconhecida…”

“Você pensou em tudo, hein?”

“Pois é, menino. Por isso demorei a dormir…”

“Mas deixa eu te mostrar uma coisa aqui…” pega o celular e mostra o botão ‘chamadas de emergência’, “Aqui você ligaria diretamente pra alguém e evitaria , ao menos, a parte do porteiro…”

“Bem, acho que ligaria pro seu irmão, embora o constrangimento seria, se não maior, de igual intensidade…”

“Meu irmão seria de boas…”

Não seria, não.

Reparo meu corpo pelo espelho do guarda-roupa dele. À meia luz, não sei se olho as costas ou a bunda, mas digo “até que minha bunda ficou bonitinha no reflexo…”, obviamente elogiando a parte do corpo errada.

“Sua bunda é a coisa mais linda desse universo…” ele diz e coloca a mão sobre a banda direita, “Olha isso… É pequena e enche a mão…”.

Definitivamente, eu tava olhando minhas costas.

“Queria que tivesse um espelhão aqui no teto pra você conseguir ver como sua bunda é linda. Pequenininha e linda!”

“Não… Assim ia ficar parecendo um motel. Eu não gosto de motel, é impessoal…” retruco.

Gosto da organização quase monótona das prateleiras do quarto. E como sua roupa de cama cheira a comfort. Também curto os bonequinhos nerds e o quadro inspiracional que está ali de enfeite porque ele nem lembra o que tá escrito e não consegue ler no escuro.

Há algo poético nas conversas pós sexo. A calmaria depois da vontade de consumir intensamente o outro. O relaxamento físico ainda curtindo os arrepios causados no corpo. As carícias trocadas suavemente. Um beijo na testa. Um cafuné. O casal exposto depois de tanta intimidade compartilhada. As músicas…

O pós sexo é o verdadeiro portal pro universo alheio.

“Depende do motel… tem motel que pode ser divertido. Tem cinema 3D e tudo. Além de poder deitar na cama e ficar olhando pro céu…”

“É. Seria massa olhar pro céu estrelado bem naquela hora, mas que graça tem um cinema? Não consigo ver…” digo e dou um beijo no peito dele.

“Imagina colocar uns filmes legais… e fazer ali mesmo… eu não pensaria muito em usar a cama…” ele defende a ideia, mas ainda não me convenço.

Eu sou uma tagarela. Ele também.

“Nega?!”

“Eu…”

“Porque cê tá tão longe?”

Encosto minha cabeça em seu peito e adormeço depois de alguns minutos ali mesmo. Não sem antes levar uns sustos pensando que ele morreria asfixiado. E chegar meu rosto bem perto do seu nariz pra checar a respiração de vez em quando. Pode acontecer.