Sobre minha avó

D. Maria completou 74 anos no começo desta semana. E é engraçado que minha primeira lembrança da minha avó materna é exatamente seu aniversário de 50 primaveras. Eu tinha quatro anos e lembro que aquela foi a primeira festa, de verdade, que fui. Com direito a discurso, barraco, faixa com escritos de declaração de amor (que eram bem comuns nos 90’s) e um bolo de chocolate que poderia alimentar o bairro inteiro (sem força de expressão).

Durante um tempo, eu acreditei que minha avó tivesse nascido ali, aos 50. Porque, afinal de contas, não havia memórias com ela antes daquele dia e ela era a única adulta que se importava com as crianças da casa. Que se comunicava conosco, daí parti pro mais óbvio: minha avó também é criança.

Era apenas complicado. Éramos nove pessoas em uma casa com três cômodos pequenos. A metade dos adultos estava desempregada. Era preocupação, correria e estresse demais pra adaptar o discurso a nós. A gente (minha irmã e eu) coloborava não aprontando nada demais. Nem brigando ou gritando (pelo menos, não dentro de casa). Apenas cuidávamos uma da outra e ficávamos em silêncio…

Um dia, por pura ignorância infantil, coloquei o plug da Tv 110 em uma tomada 220. Queimou. Eu tinha acabado com a única distração da casa em semana de fim de novela. Era “Por Amor”. Eu tinha certeza que ia morrer. Mas obviamente, contei pra minha avó que assumiu a culpa e ainda foi chamada de “velha gaga” no alto dos seus 54 anos. Ela não contestou. Pegou a bronca. Pagou o conserto da TV e ainda, descolou uma televisão portátil com a patroa para assistirmos o último capítulo da novela.

É como dizem, “nem todo herói tem capa”. E eu devo mais da metade do que sou, a essa mulher, minha heroína, que já nasceu com 50 anos e um coração gigantesco.