Você engole?

Você cospe ou engole?”, a voz dele soa como uma televisão distante em algum programa qualquer da Discovery Home and Health, desses que não exigem muita atenção e a gente só deixa rolando pra ter uma voz ambiente... “Carol?”, indaga mais uma vez. Eu o encaro e percebo como é lindo. Porra! Que gato! No fundo, tô pensando como caí em uma relação com esse homem? Gato e bom de cama, mas NADA A VER comigo.

Carol?” ele fala mais alto e eu sacudo a cabeça espantando os pensamentos que me ocorriam na hora. “Você come?”

Já era o terceiro mês que namorávamos. O conheci através desses apps comuns hoje em dia. Eu não queria começar outra relação, precisava de férias. O último namoro sugou todas minhas energias, mas lá estava eu, sentada com o cara, o observando fazer caretas estranhas ao comer um acarajé…

Essa pelinha do camarão, ó? Tá vendo? Se come isso?” ele olhava pro camarão com nojo. E ainda tinha falado durantes alguns minutos de como o camarão era a esponja do mar. E é essa necessidade de mostrar o conhecimento dele o tempo todo que me irrita um pouco. Pode ser só inveja ou insegurança, mas às vezes, eu só quero comer o camarão-imundo-esponja-do-mar…

“Eu como!”, soou mais irritado do que eu gostaria. Levanto e peço outro.

“Vai comer outro?”, ele pergunta e nem disfarça a surpresa. Já falou algumas vezes, sempre em tom de brincadeira, que não gosta de mulheres gordas. E que ele “se cuidava” pra mim… EU NÃO PEDI NADA INFERNO…

Eu o ignoro completamente. Peço também mais uma cerveja.

Ca? Tá tudo bem?”, agora o tom de voz de quem sabe que fez merda.

“Sim!” eu preciso terminar essa relação que está fadada ao desencontro. Por que não fiz isso ainda?

Eu odeio me sentir na obrigação de ir vê-lo, na obrigação de sorrir pra ele, na obrigação de trepar com ele… eu me odeio! Por que fui fazer isso? Ele pega as coisas e gosta de dar na minha boca, como se eu não pudesse abrir um bis, pegar e comer, eu não aguento mais ter que discutir uma pá de coisa inútil com ele… EU ODEIO KANT!

Ele me encarava, paralisado com a boca aberta pronto pra abocanhar mais uma vez o bolinho e se não fosse a vida em torno de nós, poderia jurar que estavam fazendo o desafio do manequim.

Você não precisa passar por isso!”, diz entristecido. Minha versão louca explodindo tinha falado tudo aquilo em voz alta. Eu o magoei. Peço desculpas, sugiro que terminemos. Ele reage bem, mas fez a proposta que passemos mais uma noite juntos. Eu aceito.

Eae, você engole?” ele pergunta ainda empurrando minha cabeça em direção ao seu quadril…

Eu não engulo.