Sobre estar descobrindo devagarinho mais sobre Saudade

Carol
Carol
Sep 2, 2018 · 4 min read

Saudade é um trem engraçado.

Eu finjo que já sei como funciona, mas a verdade verdadeira é que ela ainda consegue me surpreender vez ou outra (e com “vez ou outra” eu quero dizer que ela ainda consegue me dar umas boas rasteiras quando eu menos espero e mais vezes do que gosto de admitir).

Eu já tô mais do que acostumada com a visita doce-amarga que o passado costuma me fazer e já me conformei em viver a vida sabendo que, hora mais hora menos, vai bater aquela saudade. A saudade da risada que parece até gravada na memória. A saudade daquele dia em que me diverti tanto pela primeira vez depois de muito tempo. A saudade daquele abraço que faz a gente até derreter. A saudade de casa (de todas as que sei que tenho espalhadas por aí!). A saudade de coisa besta e de coisa séria; a boa e a ruim; a de tanto tempo atrás que nem lembro direito e a daquele dia que na verdade foi ontem.

Pois bem. Eu conheço esse lado da moeda. Na verdade, eu até gosto de pensar que eu me preparei pra ele!

Eu já sabia que ia sentir tanta saudade que simplesmente não ia caber em mim. Já tinha minha lista de coisas que sabia que ia ser saudade na certa e estava aberta a preencher a de coisas que nunca imaginei que ia sentir falta, mas que sabia que logo a saudade ia dar um jeito de alcançar. Mas, agora que eu tô do lado de cá, definitivamente tá sendo engraçado conhecer a outra face dessa mocinha que achei que já me era tão familiar — tá sendo engraçado conhecer a saudade do que ainda nem foi.

Hoje faço aniversário de 1 mês desde que tomei coragem (na marra) de estender meu pezinho pra fora do Brasil e me encontro em uma posição que passei a apelidar carinhosamente de saudade suspensa.

Oficialmente Presidente do Clube Das Indecisas Anônimas, eu percebi que tô mais uma vez dividida entre dois lados: a saudade de lá e a de cá.

Basicamente, eu tô experimentando tanta coisa, conhecendo tanta gente e descobrindo tão mais sobre quem eu sou, que às vezes eu já me pego saudosa de tudo que eu tô tendo a chance de viver aqui! Cada pedacinho dessa experiência que eu tô tendo o enorme privilégio de ter tá se acumulando num lugarzinho que eu ainda nem sabia que existia dentro de mim, mas que vem crescendo quase tão rápido quanto ele surgiu.

O fato é que, nesse balançar entre saudades, eu me sinto meio que em lugar nenhum, quase que suspensa no ar, me revezando entre uma vontade enorme de voltar correndo e um aperto forte no coração de saber que vai chegar o dia em que tudo isso aqui vai ficar pra trás — acho que é difícil entender e, principalmente, aceitar que não consigo ter os dois “eus” ao mesmo tempo.

É tão maluco perceber que tem gente igual a gente espalhada pelo mundo inteiro e descobrir isso, com certeza, vem sendo a melhor parte dessa aventura toda! Nessa mania do ser humano de criar cultura, acho que a gente esquece que na verdade é tudo farinha do mesmo saco, e, nesse jeitinho diferente-mas-igual de cada um, eu tô tendo a sorte de conhecer pessoas incríveis, colecionar vários pedacinhos de mundo e criar um quebra-cabeça surreal — e delicioso — do que é ser gente.

No fim das contas, do mesmo jeito que eu queria trazer todo mundo daí na mala comigo, eu já sei que vou precisar de arrumar um super plano pra levar todo mundo daqui de volta pra casa.

Imagens ao vivo de Carolina arquitentando um lugar onde o eu-de-lá e o eu-de-cá podem existir ao mesmo tempo

Tem gente que fala que a saudade que vem da gente, mas na verdade eu acho que a gente é que vem da saudade. É essa saudade toda (a antiga e a nova, eu aprendi) que se junta pra fazer da gente o que a gente é e o que a gente deixa de ser.

Sei que 1 mês parece ser pouquíssimo tempo pra já estar recebendo visita dessa nova-saudade — talvez no fim das contas eu só seja uma pessoa saudosista por natureza — , mas, nesse turbilhão de tudo-novo, eu tô gostando de vez ou outra puxar uma cadeira e sentar pra tomar um café com esse outro lado do sentir que eu ainda não conhecia, só pra escutar o que ele tem pra me dizer.

Seja como for, a gente não seria nada sem a saudade, acredito eu — e, sinceramente, que sorte a nossa, pois não é que a palavra mais linda do mundo veio caber bem aqui, na ponta da nossa língua ❤

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    Carol

    Experimentando palavras diferentes

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