Memória e resistência

Texto publicado originalmente no folder da exposição Desconstrução do Esquecimento: Golpe, Anistia e Justiça de Transição, realizada pela Diretoria de Ação Cultural da UFMG, promovido pela universidade em parceria com o Memorial da Anistia, Comissão de Anistia e Ministério da Justiça e Segurança Pública. Entre 28 de junho e 31 de julho de 2017, no Centro Cultural UFMG.

Nos tempos sombrios
 se cantará também?
 Também se cantará
 sobre os tempos sombrios.
Murilo Mendes. Poesia do exílio.

A exposição Desconstrução do Esquecimento: Golpe, Anistia e Justiça de Transição convida nosso olhar a revisitar um período sombrio da história do Brasil, por meio de uma narrativa curatorial que instiga nossa reflexão e percepção sensível, assim como nossos sentimentos. Construída por uma colaboração coletiva e integrada de toda a equipe, a composição potente e delicada nos guia por fios que restituem, em nossa memória, a lembrança enovelada do golpe de 1964, sua duração e extensão, as aderências e resistências, seus feitos e efeitos, seus ardis. E realça as lutas contra o regime de exceção, as reivindicações pela anistia, os apelos por justiça, até a desejada reconquista da democracia. Esse período, ferido por recessos e excessos, mas também movido por uma possante insurgência contra os arrestos da liberdade e dos direitos fundamentais, provocou efeitos devastadores, ainda ressonantes na experiência da sempre reinventada nação brasileira. As travessias, os movimentos, as perdas, incluindo as humanas, tecem os relatos e enredos de um percurso pleno de desilusão e dor, mas também de coragem, esperança e vontade. Muitos foram os agentes de todas as esferas que nessa trajetória se empenharam, de vários modos, em vários âmbitos e de formas as mais pungentes, pelo pleno restabelecimento do regime republicano democrático.

A história das sociedades é veiculada por inúmeras narrativas e pontos de vista, por olhares e ângulos diversos. E é também narrada e inscrita pelos atos de memória que nos constituem como sujeitos. Não há nas cronologias uma linha linear com fronteiras rígidas e totalmente demarcadas. O tempo dos fatos se expande em várias direções, interfere em todo o tecido social, afeta suas adjacências e contemporaneidades, ressoa e se desdobra para além de qualquer marco liminar. A experiência histórica, vislumbrada aqui em lampejos luminosos, matiza as teias das intrincadas relações de poder que interagem obliquamente, nas dobras mesmas das temporalidades atravessadas. Assim, esta exposição enseja uma visão do presente que ilumine o passado, sendo no mesmo arco por ele alumbrado, em películas nas quais se vislumbram luzes, mas ainda também sombras. E se torna desejante de um devir dos tempos sombrios superados.

Por meio desta iniciativa, a Universidade Federal de Minas Gerais reitera seu compromisso ético, sua ênfase na formação para a cidadania. Nas dádivas dos 90 anos da UFMG, a exposição a nós se oferece como mais uma das muitas ações que evocam a necessidade de que, na constituição mesma da memória, os gestos de lembrança que insistem na desconstrução dos esquecimentos sejam contínuos e perenes, exigindo lembrar que todo e qualquer sujeito, todo e qualquer cidadão, toda a sociedade tem o inalienável direito à verdade, à justiça, à liberdade, enfim.

Nossos agradecimentos aos que tornaram possível esta realização. Aos que sonham e sonharam por nós o sonho de justiça dos que livres são, nossa reverência.

Leda Martins e Silvana Cóser
Coordenação e supervisão geral

Foto: Cyro Almeida