E hoje também vai ser…

Eu tenho uma dificuldade enorme de sair da cama. Levantar. Tomar banho. Escovar os dentes. Colocar uma roupa e sair. Eu não levanto bem há anos. O despertador toca e eu começo a chorar descontroladamente durante 5 minutos porque eu não sei quem eu sou, eu não sei o que diabos estou fazendo aqui e me imagino dando um tiro na cabeça. Olho para a janela e penso em pular mas o estrago não seria muito grande do terceiro andar. O objetivo de se jogar é espatifar e não ter jeito de salvar.

Eu não lembro quando levantar da cama se tornou tão exaustivo. Foi algo ali entre a quarta série do ensino fundamental, em que acordar cedo era sinônimo de ver mais desenhos, e a quinta série do ensino fundamental, em que acordar cedo era torturante em todos os sentidos. Acordar significava ter que ir para a escola, uma instituição da qual eu era muito fã até me tornar sua vítima. Eu tinha que enfrentar aquela professora que, por mais que eu me esforçasse mais do que todos os outros alunos, nunca me deu uma nota maior do que 8,5, mesmo quando minha redação era impecável e merecia um 10. Era ter que aturar algumas meninas mexendo comigo, me ignorando ou só me tratando mal — e, tola, eu era emocionalmente dependente delas assim mesmo.

No colegial, algumas coisas mudaram. Era legal ir para a escola, porque tinha pessoas que eu amava lá. O ano era 2003 e foi o melhor ano da minha vida até agora. Eu vivo pensando no quanto eu queria voltar ali. E nessa de ficar pensando no que aconteceu lá, na minha felicidade de lá, eu fico cega e não vejo a minha felicidade daqui.

Eu acho que nunca amei mesmo, de verdade, até bem pouco tempo atrás. Eu sempre criei uma relação de dependência emocional com as pessoas, inclusive com pessoas que me tratavam muito, muito mal, como as meninas da escola, como o meu primeiro namorado e como o cara com quem eu passei mais tempo na vida. Tudo isso me machucou e as feridas ainda sangram quando derrubo qualquer coisa no chão, quando saboto todo o trabalho de dieta e exercícios que tenho feito pelo bem da minha saúde ou, até, quando me escondo embaixo das cobertas pra chorar antes de dormir. Todos esses fantasmas, grandes e pequenos, ainda estão lá.

Dormir também é difícil. Tem dias que deitar a cabeça no travesseiro significa pensar demais. Como. Vou até a cozinha e caço qualquer coisa. Tem pão de queijo no congelador, coloco no forno, mas não posso comer pão de queijo, volto para o congelador. Deito na cama. Levanto. Banho de pelo menos meia hora. Desculpa, Cantareira. Cama. Rola. Pensa, pensa, pensa, pensa e surta. Não dorme e chora. São noites em que dormir dói e acordar dói mais ainda. É olhar no espelho e não se reconhecer.

Eventualmente, eu perco o controle. Não sei quando criei o controle mas às vezes ele se perde. Pode ser uma coisa boba, como as roupas, que viram uma zona em 10 minutos — basta jogar uma peça de roupa na cama e esquecer de guardar para que elas se multipliquem como gremlins. Pronto. Perdi. Olho aquela pilha e sinto uma tristeza tão profunda que me sinto uma grande imbecil porque aquilo não é motivo para ser triste. É só uma pilha de roupas que precisa ser arrumada.

Tem dias que bate uma insegurança enorme. Parte dela no trabalho. Não me formei, na verdade eu mal fiz faculdade. Eu me joguei nessa atmosfera de trabalho sem ter um background e fui me virando, conquistei muita coisa mas na maior parte do tempo eu me sinto uma farsa. Mesmo não sendo, mesmo com todo conhecimento e experiência, sinto como se eu estivesse enganando todo mundo. Falsa. Ou todo mundo sabe que eu sou essa farsa e me incentivar é parte de um passatempo cruel, pra me ver surtar e depois tirar sarro de mim. Um pensamento que me coloca, de novo, como centro do mundo dos outros quando eu só tenho mesmo é medo de não ser notada, vista, bajulada e querida. Dependência emocional de novo.

Tem dias que eu quero morrer. Hoje é um desses e amanhã também vai ser.

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