Mais um dia.

Começa assim. O coração batendo acelerado de um jeito ruim. Você sente os olhos querendo chorar e as mãos tremendo demais. E lembra que está no lugar errado. E que não pode sair tão fácil quanto gostaria.

Para ser sincera, você descobriu tudo isso bem cedo. Com poucas semanas. Alguns disseram que era cedo demais para se sentir desse jeito. Outros concordaram e disseram que a gente sabe desde o primeiro dia que é uma cilada, Bino. Te chamaram de mimado. E você insiste. Mesmo sabendo, lá no fundo, que era insistir no erro, que você estava indo contra tudo o que você estava sentindo.

Jogar tudo para o alto seria o ideal. Gritar um foda-se bem grande, falar tudo o que está entalado na garganta. Mas a vida adulta não funciona assim, como o despertador e o saldo bancário insistem em te dizer. Na vida muitas vezes temos que engolir o que temos na boca e respirar muito fundo para não vomitar.

E você respira fundo. Conta até 10. Fecha os olhos e fica alguns segundos imaginando que nada disso esta acontecendo com você. Que é tudo um sonho. E se questiona. Se questiona a todo momento, travando uma guerra com você mesmo. Sou mesmo mimado? É. É tudo da minha cabeça? Pode ser. Estou dramatizando? Meu filho, você merece um Oscar. Sou um idiota por estar pensando e sentindo tudo isso? Com certeza.

E assim passam as horas e lá se vai mais um dia. Desses que você promete que vai aguentar por pelo menos um ano. Desses que quando a cabeça já está no travesseiro e as lágrimas finalmente caem, você promete que vai mudar o amanhã. Que vai lutar contra tudo isso. Que vai deixar todos esses sentimentos quietos e seguir em frente. Porque a vida adulta, meu amigo, é assim mesmo.