A vida sem salto

Visitar lojas de calçados sempre foi uma tortura pra mim, é aquele dia que eu marco na agenda, praticamente um evento que vem naturalmente com o subtexto: não vai ser fácil. A tortura se deve aos meus pés chatos e suados, meu joelho pra dentro e, por conta disso tudo, a minha total falta de equilíbrio.

A primeira vez que eu experimentei um sapato com o mínimo de salto, eu estava comprando sapatos para alguma festa, já devia ser uma pré-adolescente, e a vendedora deve ter pensado que eu “já tava na idade”. No meu segundo passo com o salto, meu pé virou, eu tropecei, e a minha irmã riu. Foi o suficiente para eu decidir abandonar aquilo e voltar para o conforto de um sapato baixo, onde eu podia ficar com os pés no chão.

Porém, a vida é feita de convenções, infelizmente, e eu não escaparia ao dia que teria que usar salto. Fiquei tão nervosa que meus pés suavam e deslizavam no maldito sapato, eu nunca fui pequena ou magra, tudo só ia ficando pior. Lá estava aquele ser corpulento, desengonçado, pés suados e aquela súplica interna: “por favor, não caia!”. Usar salto, pra mim, é algo tão traumático que eu transformei em um estado de espírito.

Entrar de salto, por exemplo, nada tem a ver com arrogância. Está relacionado com o seu oposto. É como entrar naquela festa que você não conhece ninguém, ou naquela reunião para a qual você não se preparou direito, com aquelas pessoas que “usam salto” (no sentido contrário do seu).

Passei grande parte da minha adolescência de salto. Na verdade, poucos são os momentos da minha vida em que o estado de espírito “de salto” tenha me abandonado. Apresentar trabalho no colégio, quando me vi frente a frente com a minha prova de recuperação de física, minha primeira entrevista de emprego, sair de casa e quando eu publicar este texto, provavelmente.

Qualquer lugar/momento/sentimento que desbravo pela primeira vez é como estar de salto. É como passear de salto na floresta, com toda aquela terra molhada, e eu só torcendo pro salto não ficar preso, não afundar e estragar tudo. Aquela sensação de que se o meu pé não coubesse ali, era como ficar descalça no mundo.

E depois de longas caminhadas segurando nas paredes, com aquela dor excruciante nos meus joanetes, eu decidi que “foda-se”. Era descalça mesmo, com os meus pés largos, esquisitos e esparramados que eu ia viver.

Não tinha necessidade de passar por aquilo, se eu podia ficar descalça. Minha mãe não gostava que eu ficasse descalça, sujava a cama, o sofá e todos os outros lugares que eu colocava o pé. E, pela segunda vez, eu decidi que “foda-se”, pé se lava, e antes água do que desequilíbrio.

Eles sobreviveram. Com toda a sua feiura e esquisitice. Às vezes, aquela sensação antiga retorna, os dedos apertam, eu me sinto desequilibrada, posso cair a qualquer momento e fazer um estrago. Um ser humano grande e desajeitado, tentando demonstrar o mínimo de naturalidade, mas vivendo um grande desconforto.

Porém, antes de me desesperar e simplesmente congelar em uma posição por puro medo de afundar, eu desço do salto e vou exibir os meus pés horrendos em algum lugar. Porque eles podem ser feios, mas, quando estamos no chão, ninguém dança como nós, e, com total ausência de modéstia, a gente arrasa na pista.


Originally published at euescrevomal.tumblr.com.

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