Caos

Eu não durmo há dias. Revejo a vida de trás pra frente, choro quando não devo, e, quando devo, não sei chorar. Levanto cansada, nunca sei o que vestir e perco horas encarando minhas clavículas e a raiz do meu cabelo.

Penso constantemente nas coisas que queria fazer, e não fiz. Penso no meu saldo bancário. Penso muito no meu saldo bancário. Penso nos meus trabalhos como se pensa em “pessoas com quem eu saí, e não me ligaram mais”. Penso nas pessoas como algo que acabou, e sinto falta das pessoas.

Eu me busco nas lembranças da torta de banana da minha avó, e em como ela me chamava. Escuto tambores que me chamam em um terreiro distante. Algo me pesa o peito, e eu não estou lá, queria voltar.

Eu não durmo há dias. Estou sempre triste. As minhas clavículas e o meu saldo bancário. Meus trabalhos e as pessoas. Hoje, de novo, eu não estou lá. Eu não durmo há dias, eu tenho 30 anos, as coisas que eu queria fazer e não fiz e a raiz do meu cabelo. O despertador toca. Recomeça.

Não importa o que eu faça, quantos chás eu tome, eu sempre termino aqui.

Eu nunca fui exatamente uma pessoa “tranquilona”, que vai impressionar as pessoas por levar a vida sempre sem exigir nada dela, ou de mim mesma. Eu faço bobagens pra saber quem eu sou, com a minha intensidade destrutiva e com o meu jeito reto de “certos e errados”.

Já passou de meia-noite, o despertador está contando, e eu ainda tenho medo de escuro.

Eu confio demais, eu acredito demais em amor e boas intenções. Eu me perco. Eu danço quando ninguém está olhando e cantarolo alto caminhando pra casa.

Eu sou do tipo que está acordada, na terceira guerra mundial com esse caos que chamo de pensamentos. E a pior parte, a parte mais exaustiva, é que só eu posso controlar essas trincheiras que construo ao meu redor.

Eu podia estar arrumando a casa, incomodando os vizinhos, ouvindo música alta, tomando um vinho e depois me arrepender de ter “arrumado” a casa. Eu também podia estar chorando, ou rindo, do fato de ter gritado “broxa!” pra um cara que foi escroto comigo na rua.

É difícil, pra mim, não ser essa pessoa. Porém, eu estou aqui procurando um fim pra essa história, um fim que vai culminar com pensamentos menos eufóricos e aleatórios.

Um fim talvez culminasse comigo mesma atendendo às minhas expectativas, e, entre elas, utilizar menos pronomes na 1a pessoa. Um fim me exigiria atender expectativas do mundo das ideias, e eu não durmo há dias.

Um fim seria eu comendo a torta de banana da minha avó, ela me chamando de um jeito que só ela sabia me chamar, no fundo tocariam tambores, e ela ia me benzer com as mãos. Eu queria descansar, isso seria bom. Estou cansada, não durmo há dias.


Originally published at euescrevomal.tumblr.com.

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