Sossego

Tudo que eu queria era um sossego. Nós dois no canto do quarto, a tua pele na minha. Uma risada aquecida no teu abraço, e um mundo perdido lá fora.

Queria não saber quantos graus faz lá fora, porque nossa temperatura é uma só. Queria esquecer do saldo no banco, do trabalho, das contas acumuladas embaixo da porta. Queria só aquela nesga de sol que bate direto no meu travesseiro.

Queria mesmo era ver essa nesga andar, subir nas paredes, desenhar nas tuas costas, enquanto eu fico brincando de contornar a luz com os dedos, meio carinho, meio cócegas.

Tudo que eu queria era um sossego. Cobrir dos pés a cabeça com o edredom, e fingir que o mundo acabou. Te contar a histórias sem graça da minha vida, fingindo que é tudo aventura, e ouvir as tuas, só porque eu gosto de ouvir a tua voz. Talvez imaginar um barulho de mar, mas só se couber no contexto.

Queria que a trilha sonora fosse a voz da Gal naquelas canções mansas, e fazer cafuné nos teus cabelos no ritmo da música, cantarolando, bem baixinho e sonolento.

Hoje eu ia poder te contar todas as pautas que ensaiei no ônibus voltando do trabalho. Todas as coisas que eu queria te falar, mas a semana não deixa. Eu queria um tempo. Uma pausa. Sossego.

Tudo que eu queria era sossego, uma cama, você, uma nesga de sol e todas as coisas que eu imaginei fazer com isso.