Ter alguém legal ao lado muda tudo, inclusive voltar a transar depois de um estupro

Carol Patrocinio
Sep 25, 2016 · 7 min read

A cada 11 minutos uma mulher é estuprada.

Você pode não saber, mas você conhece uma mulher que foi colocada nessa estatística.

E nós, mesmo depois desse momento terrível, retomamos nossa vida sexual. Ou pelo menos tentamos.

Dito isso vamos falar sobre o texto “Como foi transar com uma vítima de estupro”, publicado no TRENDR .

1 – O texto é cafona, mas é um cara contando COMO UMA MULHER SE LIBERTOU

Sinto que tem um problema enorme rolando entre nós, principalmente da militância: antes de ter uma opinião sobre as coisas a gente precisa saber quem é o responsável por aquilo. Aí sabe o que acontece? Quando é um cara que faz, a coisa imediatamente é jogada no lixo. E isso, amigas, é apenas estupidez.

O texto é ruim. É cafona. Mas ele conta uma história que muitas de nós já passou: a gente quer transar, mas nosso corpo não entende que daquela vez é diferente.

ESTUPRO, PRO CORPO, É IGUALZINHO AO SEXO. A DIFERENÇA É QUE VOCÊ NÃO QUER AQUILO RACIONALMENTE.

Olha só: vários cientistas tentaram estudar a relação entre mulheres e desejo. A conclusão, durante muito tempo, era de que as mulheres se excitavam com qualquer coisa, já que qualquer tipo de pornografia as faziam ficar lubrificadas. Depois descobriram que pra falar de teão tinham que pensam em clitóris e na sua ereção, não no canal vaginal. Sabe o que foi descoberto com isso? O corpo da mulher lubrifica o canal vaginal no mínimo sinal de que pode rolar sexo, querendo ela ou não. É tipo uma técnica que a evolução deu ao nosso corpo. Ficamos lubrificadas mesmo em estupros simplesmente porque nosso corpo se prepara para se machucar o menos possível — mais aqui e aqui.

Ela pede pra parar, ele para. As coisas esquentam e ele faz de novo. Ela pede pra parar, ele para. Notem: ela não disse pra ele parar com palavras, o corpo dela apenas ficou tenso e ele parou. Não dá pra saber se ela queria ou não enfrentar aquilo até que ela dissesse. A gente quer enfrentar as coisas, a gente não quer ser tratada como incapaz. E as coisas funcionam de maneira diferente pra cada pessoa.

2 – Precisamos uns dos outros

Em maior grau pra algumas coisas e nem menor para outras. Porém, quando o assunto é sexo, precisamos da outra pessoa.

Ser lésbica ou bi não são uma opções, é quem uma pessoa é. Uma mulher, depois do estupro, não se torna lésbica. Ela não passa a odiar todos os homens, apesar de poder ficar com medo de encontrar o estuprador dentro dos homens com quem ela convive. Ela não deixa de ter desejo, apesar de poder demorar para que ele volte.

Quando uma mulher vai voltar a transar depois de algo tão traumático não é fácil. São mil obstáculos. E nesse momento existem duas possibilidades:

a) ter ali um cara gente boa, que vai acompanhar seu ritmo, que vai entender suas dificuldades e não vai te tratar nem como alguém incapaz nem como alguém que deve ser novamente violentada

b) ter ali um cara estúpido, que vai fazer as coisas do jeito dele, te culpar pelo estupro que você sofreu ou te tratar como se você fosse de cristal

O texto fala sobre um cara que foi pro primeiro tipo e resolveu dividir essa postura com outros caras. Isso, além de tudo, pode mostrar pra outros caras que existe uma maneira bacana de lidar com a questão.

3 – Nem toda relação hétero é estupro. Nem toda relação lésbica é perfeita. Toda relação sexual pode ser baseada na cultura do estupro

Todos nós fomos criados no mesmo mundo. Todos nós fomos impactados pela mídia, cultura e costumes. Todos, homens e mulheres. Tudo o que a gente faz de diferente disso é DESCONSTRUÇÃO e não é o que a sociedade espera da gente.

Nem toda relação sexual hétero é estupro. Penetração não é a mesma coisa que estupro. Se tem consentimento não é estupro. Combinado?

Porém. Sim, tem um porém.

Mesmo relações consensuais podem ter traços da cultura do estupro. E ouso dizer que a maior parte das nossas relações sexuais têm esses traços. Não estamos sendo estupradas o tempo todo, não é isso que estou dizendo. O que estou dizendo é que não somos ensinados, enquanto sociedade, a obserar verdadeiramente o outro, a entender o que o corpo do outro está dizendo, a ter um momento verdadeiramente compartilhado. Isso faz parte da cultura do estupro e rola tanto no sexo com homens quanto com mulheres.

4 – Como você aprendeu o que era transar?

A gente fala sobre sexo com foco em reprodução. A gente fala de camisinha pra evitar gravidez e DST. A gente fala sobre promiscuidade quando julga as pessoas. Mas a gente não fala sobre sexo. Meninas não têm acesso a informações sobre a própria vagina e meninos não sabem sobre o pênis nada muito além de que ele fica duro quando eles se excitam.

Meninos aprendem a transar com filmes pornôs. Meninas hétero aprendem a transar com o que os meninos trazem pra primeira vez. Meninas lésbicas aprendem a transar seguindo a intuição, porque não temos acesso a sexo lésbico de verdade nem na pornografia – a maior parte das coisas é sobre prazer masculino, mesmo quando são apenas duas mulheres em cena.

Aprendemos a transar com base na cultura do estupro, que é o que guia filmes pornôs. Aprendemos que não nem sempre quer dizer não. Aprendemos que, como mulheres, temos que nos fazer de difícil, não podemos seguir nossos desejos. Tudo isso é cultura do estupro.

5 – Como estamos lidando com as pessoas?

O cara que escreveu o texto foi agredido de todas as formas. Tudo porque algumas pessoas não concordaram com o texto ou com o que rolou.

Não parece coisa de criança mimada não permitir que existam coisas com as quais você não concorda? Não importa se com o conteúdo ou com a forma. O texto do cara não é um texto criminoso, não é um texto ofensivo. É um texto que relata algo que aconteceu, simples assim. Não gostou? Fecha a aba. Quando foi que passamos a agredir tão veementemente as pessoas com quem não concordamos?

6 – Homens e feminismo

Minha posição nesse assunto já é bastante conhecida e já me gerou muitos desconfortos, então vamos lá: homens podem falar de coisas ligadas ao feminismo.

Sabe por quê? Porque a gente não vive em um mundo perfeito e a gente não quer esperar esse mundo perfeito para que as mudanças comecem.

Como assim, Carol?

Existem muitos e muitos caras que não estão nem aí pro que as mulheres dizem. Assim como algumas minas jogam no lixo textos incríveis escritos por caras, alguns caras se recusam aouvir e até a entender o que minas falam. Mas eles escutam outros caras.

Nesse momento não me importa quem tá passando a informação, me importa que mulheres deixem de morrer, de ser agredidas e a gente consiga ter o mínimo de dignidade para sobreviver nesse mundo. É algo muito anterior e mais básico do que o lugar de fala.

Nós, adultos, estamos aqui discutindo isso, mas toda essa discussão tem impacto na vida de adolescentes. E vocês sabem o que está acontecendo no universo adolescente? As meninas estão excluindo os caras da transformação. O cara quer ajudar a elas? Não pode. O cara é contra elas? Não pode. O cara existe? Não pode. E algumas dessas meninas são hétero, portanto se apaixonam por caras. Como vocês acham que isso pode ser saudável? Como vocês acham que essas meninas não serão as responsáveis por relacionamentos abusivos? Como vocês acham que vai existir transformação se uma parte do mundo não é nem permitida de participar dela?

7 – A conclusão

Não é apenas sobre o texto, é sobre entender que mulher não são eternas vítimas de estupro, elas foram colocadas naquele lugar e dali vão sair. O estupro não define essas mulheres.

No texto o cara conta que ELA ligou a música, ELA ficou sobre ele, ELA gozou. ELA. Ela foi protagonista da coisa. Ela não pediu pra ele parar. Ela quis ultrapassar a barreira. ELA. É sobre ela e não sobre ele. Ele mesmo se enxerga patético por, por um momento, achar que foi responsável por algo. Ele só tava ali, ele só foi convidado para participar de um momento dela. Só isso, mais nada. A gente não deveria ficar feliz por ver uma mulher saindo do lugar horrível em que a colocaram?

Ah, mas ela que deveria ter escrito o texto. Também senti isso em um momento, mas aí pensei melhor e lembrei que esse cara também viveu aquela história. Também é sobre ele. Não deve ter sido fácil pra ele se enxergar em um estuprador – e a gente sabe que é difícil quando vê os caras surtando ao ouvirem que todo homem é um estuprador em potencial. Ele preferiu escrever sobre isso e levar reflexão a outros caras do que guardar a vergonha pra ele mesmo. Ele é um dos caras legais – pelo menos nesse quesito – e a gente prefere afastá-lo. O que tá acontecendo?

8 – O outro lado

Tem mulheres que foram vítimas de estupro que ficaram incomodadas com o texto. Outras acharam bom. Todas têm seus motivos e suas razões. Cada uma tem seu ponto de vista. E é só compartilhando cada um deles que somos lembradas de que o mundo é plural e de que cada pessoa encara as coisas de uma maneira, de que gatilhos se manisfestam de forma diferente pra cada uma, de que cada mulher escolhe um caminho para seguir. Não tem certo e errado sobre como a gente se sente, tem certo e errado sobre o que a gente faz com isso.

Carol Patrocinio

Written by

Aquele assunto que você vem evitando mas sabe que precisa discutir. Me ajude a continuar escrevendo de forma independente: apoia.se/carolpatrocinio

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade