Comida, nós e as commodities

Aprendemos desde cedo na escola, lá na biologia, que somos seres heterótrofos, ou seja, não somos capazes de produzir nosso próprio alimento e por isso temos necessidade de ir em busca dele para nossa sobrevivência. O alimento é algo fundamental para a existência da vida na Terra. No processo evolutivo, o que nos proporcionou estarmos aqui foi a evolução do reino plantae que nos provê todos os nutrientes para nosso desenvolvimento.

Nós , seres humanos dotados da capacidade de invenção, transformamos o ambiente sempre na busca de diminuir nosso trabalho e independência dos fenômenos naturais. Chegamos longe, de nômades caçadores nos tornamos agricultores coletores, uma verdadeira revolução que possibilitou o desenvolvimento de outras faculdades e saberes.

Mas, e hoje, o que nos tornamos? Nessa busca por facilitar a obtenção de alimento será que não fomos longe demais?

Não precisa pesquisar muito, qualquer busca no google sobre agricultura e sistema alimentar já nos mostra o triste panorama que nos encontramos, principalmente nos grandes centros.

Deixamos de ser dependentes de fenômenos climáticos, temos sempre comida disponível porém criamos outra dependência, a da indústria.

Pra entender essa dependência precisamos olhar um pouco pro passado e diversos fatores, mas curiosamente para uma fase da história do Brasil. A indústria açucareira portuguesa do Atlântico foi a responsável pela invenção da primeira commodity agrícola, ou seja, um produto cuja escala de produção e a cotação dos preços são definidas pelo consumo do mercado global. Junto com o café, chá e chocolate , o açúcar tornou-se artigo de primeira necessidade para os trabalhadores e a classe média dos países em processo de industrialização e urbanização. Arrisco a dizer que o fast way of life deu seus primeiros sinais nessa época. Nessa visão o alimento começa a ser banalizado e a ser visto como um bem de consumo, uma coisa, um produto disponível apenas para aqueles que podem pagar e agora a nível global. E de lá pra cá as coisas só pioraram, hoje esse é o modelo vigente no mundo todo e o preço a se pagar é muito maior daquele praticado pelos supermercados.

Voce já se perguntou de onde vem seu alimento? Ou você acha que vem da caixinha da prateleira do supermercado? Voce sabia que um alimento normalmente vem de uma semente, que foi cultivada, precisou de luz, água, solo e condições adequadas para crescimento? Depois foi colhida, transportada , ás vezes transformada até chegar no supermercado e finalmente na sua mesa? Voce deve estar se perguntando por que escrevo isso, é óbvio que todos sabemos disso. Infelizmente te digo que não, nem todo mundo sabe. Muitos habitantes dos grandes centros urbanos não fazem ideia do que é ambiente natural, não fazem ideia ás vezes do que é uma fruta, verdura ou legume, quanto mais o que é produzir, plantar um alimento. Não a toa vemos tantos textos, programas de TV, vídeos no youtube, e tantas outras mídias falando de comida, de como comer, etc… Sim, a mídia, sempre ela nos dizendo o certo que devemos fazer. Mas ai, pobres de nós se hoje não buscarmos as fontes das informações. Há muita coisa boa, mas também há muita coisa que só faz, na verdade, um desserviço de comunicação, nos dando informações erradas a todo momento. Mídia é poder, poder de influência. Influência interfere no seu consumo e o seu consumo faz a indústria girar. Informação é veiculada através, muitas vezes de venda, ou seja, paga-se para estar na Televisão e dizer a você o que é o certo na hora de colocar no seu carrinho do supermercado. E quem paga, oras, a indústria que quer te vender seus fabulosos produtos. E ela vem pra você travestida normalmente de alguma personalidade carismática e aclamada pelo público. Grandes chefs, apresentadores de TV, atores, enfim, celebridades nas quais você confia. E você se pergunta: por que elas te dariam uma informação tão ruim não é mesmo?! Nem eu sei, estou me perguntando também até agora.

Diante desse cenário, um tanto quanto catastrófico, a angústia é normal, mas é dela que vem a curiosidade de buscar os “novos caminhos”, que de novos não tem nada. Basta olhar para o modo de viver e hábitos alimentares de um passado não muito distante, uns 60 anos atrás, que encontraremos uma parte da resposta. Recuperar tradições esquecidas, aquelas das nossas bisavós, avós, tias-avós, vizinhos, amigos distantes. A vida não era um mar de rosas, nem devemos querer voltar a essa época de forma nostálgica, mas sim de ver o que tínhamos de bom e como conciliar esses bons hábitos com a sociedade urbana que está conformada.

Para começar, que tal tirar a ideia pré-concebida de que a natureza está lá, longe de nós, a ideia separatista de nós seres humanos e meio ambiente. Somos parte dele, inclusive ambiente urbano, incluindo eu e você, somos meio ambiente.

O hábito mais saudável , por assim dizer, e tão esquecido é o de ter uma horta em casa. Eu sei, vida de apartamento não é fácil, nem sempre dá, nem sempre tem luz e espaço suficientes. Mas e o telhado do prédio? A laje do vizinho? Quem tem uma pequena horta já se livra da despesa semanal de um hortifrúti, diminui a dependência do supermercado e tira automaticamente alimentos cheios de agrotóxicos. Então, ainda temos eles, os químicos, que chegaram com força na agricultura e transformou radicalmente ambiente e saúde pública. Mas vamos deixar esse assunto pra um próximo post. Hoje fica a dica de fazer uma horta em casa, que não tem nada de difícil. As aromáticas e as verduras são ótimas pra iniciarmos o cultivo dentro de casa. É só começar, você vai ver como é boa a sensação de plantar, cuidar, ver crescer e consumir seu próprio alimento! Boa sorte!

Obrigado pela leitura. Se você gostou dê um clique no coração verde abaixo, seria maravilhoso. Você pode curtir de explorar algumas idéias e compartilhar informações sobre alimentação, história, cultura e viagens. Carol Sá

Visita a produção orgânica do grupo Pedras Altas do Brejal — 2014