Chão De Giz

É tão engraçado quando somos crianças e criamos alguém para nos espelhar na vida, no jeito e no dia a dia. Quando se trata de você eu cresci querendo me espelhar em cada gestos desde o cheirinho de roupa lavada num sábado de manhã até no tempero da comida. É incrível a minha sorte. Foi incrivelmente incrível a minha sorte de ter vivido ao teu lado. Foi. Passado. Você não está mais aqui. E eu continuo a escutar aquela musica que você cantarolava entre assobios “Eu desço dessa solidão espalho coisas sobre um chão de giz. Há meros devaneios tolos a me torturar”.

Talvez você tenha me ensinado a ser completa mas eu e esse meu déficit acabei não prestando a atenção nas entre linhas e nas pistas que me dava quando dizia “eu não estarei aqui pra sempre” e não esteve, justamente como previa. Acho que poderia ser mais explícita. Me preparado mais e me mimado menos. Eu aprendi a ser completa até meus dezessete anos e depois disso você se foi, foi arrancada de mim. Não tenho filhos mas a sensação que eu tive foi a mesma de uma mãe que teve seu filho arrancado de seus braços e junto a isso perdi uma parte de mim (aquela parte que me fazia completa). Hoje eu to aqui e você aí. Eu com vinte e quatro anos e você aí com o que poderia ter. Já dizia o nosso amigo Zé, agora eu pego um caminhão, na lona vou a nocaute outra vez, pra sempre fui acorrentado no seu calcanhar. Ele cantava. Você cantava. Cantarolávamos. Hoje eu canto só.

Você teria orgulho de quem sou hoje? Me diz, eu preciso saber. Mas preciso saber de você não aí e sim aqui, de carne e osso, alma e espírito. Uma das nossas últimas conversas eu lembro como se fosse hoje. Estava sentada na beira da cama de um hospital e enquanto massageava seus pés te disse que caso morresse para não inventar de querer me visitar e aparecer em espírito cê sabe o quanto sempre fui medrosa (continuo não querendo que apareça).

Hoje eu me agarro quietinha em poucas coisas que deixou. Me agarrei também aquele ursinho que compramos juntas. Aquela foto, aquela blusa que você fez pra quando nasci. Me agarrei até no dia que faz aniversário. Por coincidência é no dia trinta. Não trinta de março igual a mim. Trinta de agosto. Hoje. Agora. E você não está aqui e lá se vão sei lá quantos dias, horas e segundos (sempre fui péssima com contas). Eu sigo por ai nesses meus vinte e poucos anos me fazendo perguntas, tentando ser completa e me espelhando no que você já foi e no que poderia ter sido.

No mais, estou indo embora.

Sinto sua falta, Vó.

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