Em qual país vive(re)mos?

Em um momento da história tão complexo como esse, é difícil entender tanto o passado quanto o presente (para não falar do futuro…)

Escrevo esse texto porque não consigo não escrevê-lo. Escrevo esse texto porque não sei mais o que pensar e porque escrever sempre me ajuda a racionalizar emoções e entender melhor pensamentos.

Não se engane imaginando que tenho muito o que falar. Não tenho. Não sei explicar ou analisar o passado e nem o presente e, portanto, não seria nada mais do que natural que eu também seja incapaz de imaginar o futuro.

Porque é isso. Ao final do dia, quando estou só com meus pensamentos e tento imaginar de tudo que existe nesse mundo, há algo que não consigo imaginar: o futuro do Brasil. Não porque não haverá futuro, mas porque ele é tão incerto quanto o ser humano; ou talvez ainda mais. E para piorar tudo, a história não segue regras, não é previsível. A história é uma nuvem carregada em cima da sua casa: parece que vai chover e pode ser que chova, mas também pode ser que ela vá embora e não chova por mais um mês.

Vejo tantas coisas diariamente que se estiram para caminhos diferentes que fica difícil saber o que acontecerá. Procuro informações, procuro notícias de fontes diferentes, converso com pessoas diferentes, tento entender o que está acontecendo e no final… no final sinto-me tão perdida ou ainda mais do que me sentia ao começar a busca.

Se Dilma ficar, imagino que as coisas não serão maravilhosas, porque até hoje não o foram. Imagino que ela tenha cada vez mais dificuldade de governar, com um vice-presidente que deseja mais do que tudo ser o titular do cargo (e deixa isso absolutamente claro). Não se pode defender o governo de Dilma: não se pode. As coisas poderiam estar infinitamente piores, isso é fato, mas poderiam e deveriam estar muito melhores também. Há de se compreender que é difícil governar com uma Câmara tão avessa ao governo atual e tão conservadora, mas não vejo isso como um motivo que exime o governo atual de culpa. Os erros foram vários, e definidores para chegarmos onde estamos. Sem contar que a falta de apoio e de medidas para os grupos sociais que há séculos são preteridos por cada governo é indesculpável. A vida de quem é negro, de quem é nativo americano, das mulheres, a vida de quem mora em lugares onde a democracia nunca chega não melhorou tanto assim com a vinda do PT. Não posso falar por essas pessoas, mas posso falar por mim, que sou mulher e assentada do MST: e por mim mesma, digo que houve melhora, sim, mas também houve uma grande piora em alguns setores.

Se Dilma sair, ficamos com Temer. Algumas coisas já podemos esperar: uma "anistia" de Cunha e a extinção do MinC para juntar-se ao MEC são apenas algumas delas. Essas duas suposições são muito significativas, mesmo que isoladamente: estas suposições nos dizem que a corrupção não vai acabar (jura?! que choque) e que, pelo contrário, tem a chance de estar ainda mais escancarada e livre: e que podemos esperar cortes orçamentários nas áreas que o Brasil mais carece. E a expectativa de aí para frente é piorar, ao meu ver. A questão é: o quanto piorará? Pois há níveis de piora. Há níveis que vão de desagradável a insuportável, e isso faria toda a diferença na nossa vida.

Mas devemos confiar no povo, que o povo fará a coisa certa quando necessário. Nós, o povo. Nós podemos mudar alguma coisa, não podemos? Nós temos esse poder. Ou temos? Porque às vezes me parece que não. E, às vezes, me parece que a Câmara nada mais é do que um reflexo do povo que está aqui fora. Quando Bolsonaro homenageia um conhecido torturador do tempo da ditadura durante a votação assistida pelo Brasil inteiro, o que se espera? Se espera que a população se revolte, não é? Se espera que se entenda o significado de homenagear "o terror de Dilma" durante uma votação para o impeachment da mesma e que até mesmo os mais alinhados com Bolsonaro se revoltassem, não? É isso que eu esperava. O mínimo de humanidade de qualquer um que fosse minimamente humano, sendo fã de Bolsonaro ou não, sendo de direita ou esquerda ou ultra-direita. Pois o que houve foi uma intensa crítica ao fato do deputado Jean Wyllys ter tentado uma cuspida em Bolsonaro, e um aumento em 112.116 likes na página de Bolsonaro assim, de um dia para o outro (esse número é do dia 19 de abril, às 11h).

Vivo em uma bolha privilegiada. Vivo com meus pais que por sua história de vida (e de luta, ambos fizeram parte do MST desde meados dos anos 90) procuram ter uma opinião informada. Estudo numa universidade para a integração latino-americana, onde recebemos ferramentas para analisar criticamente tudo o que acontece e aconteceu. Meus amigos compartilham das minhas opiniões, em sua maioria. Na minha vida, só sobraram aqueles que concordam comigo ou que discordam respeitosamente: não excluo quem pensa diferente de mim, então muita gente que pensa muito diferente de mim segue fazendo parte da minha vida, mas aqueles mais extremos e que não têm respeito pela opinião alheia e pela vida humana já há muito se foram. Querendo ou não, me restou uma bolha onde há o mínimo de respeito e compreensão. Mas sinto que o Brasil não é assim. Sinto que, em geral, as pessoas estão muito mais à favor de pessoas como Bolsonaro do que contra. E isso me assusta.

O que esperar desse país? Sou dominada por vários sentimentos, nenhum dos quais é positivo. Tenho medo, sinto angústia. Sinto raiva e tristeza. Vejo aquelas pessoas que conheço há anos falando as coisas mais absurdas, defendendo o indefensável, justificando barbaridades por um objetivo torto. A internet é um grande caldeirão onde as pessoas se sentem livres para dizerem o que bem entendem, e nesse caldeirão se lê cada coisa… cada coisa que dá vontade de sumir. De verdade, me dá vontade de sumir da face da Terra. Como se pode defender a tortura? Como se pode acreditar que o impeachment em andamento vá mudar alguma coisa para melhor? Como se pode eleger para heróis da democracia aqueles que a corrompem diariamente?

E a cada pequena centelha de esperança, vem-me um cobertor pesado para abafá-la e para ter certeza que não voltará a surgir. A cada investigação que começa, a cada tentativa de cidadãos de fazer as coisas da maneira certa, há um encobrimento ainda maior da verdade e há uma apologia ainda maior à falta de ética que me faz extinguir a esperança anterior.

Se Dilma ficar ou sair; se Temer ficar ou sair; qual será a diferença? Quando o Brasil dará uma real guinada para fora desse buraco onde fomos postos 500 anos atrás? Quando começaremos a erradicar as raízes anti-éticas e podres do Brasil: quando? Se não hoje, quando? Eu esperava que o governo do PT iniciasse essa guinada, mas pela atitude que vemos hoje em dia vinda de grande parte da população, se pode ver que pouco foi feito. E qual será a nossa chance de ter uma próxima geração mais consciente, politizada e informada? Qual será a nossa chance, se qualquer governo que entrar deixará a educação e o bem do povo de lado por qualquer outro interesse que dê resultados mais imediatos e que não incomodem os grandes?

Não se pode culpar o povo pela mentalidade que vemos escancarada no senso comum, não se pode até um certo ponto, pois essa mentalidade é resultado de séculos de colonização, de doutrinação cristã, de uma péssima educação sendo feita em favor de quem sempre teve no poder, em favor das elites. Mas não se pode eximir o povo de culpa, também. Um povo que não vê que linchar ladrão de galinha é errado; um povo que acha que não tem problema sonegar impostos (afinal, corrupção só é corrupção quando é o outro quem a comete); um povo que não reconhece seu próprio passado manchado e que não vê problema em repetí-lo é um povo que está condenado a sofrer pelas próprias escolhas. De novo, não é uma questão de culpar o povo por tudo aquilo de ruim que acontece ao país: é uma questão de olhar para os políticos e não ver saída e, virando para o povo e esperando ali encontrar uma força positiva e com a capacidade de mudar, se encontra com um povo alinhado com o que se vê de ruim nos políticos. E não me refiro à direita ou à esquerda: me refiro à ambas. Me refiro também à crescente polarização que tem acontecido no nosso país e que não beneficia ninguém, pelo contrário, prejudicando as chances de se achar soluções e aumentando o radicalismo irracional.

Não entendo de política. Não entendo de sociologia também, embora tenha estudado o básico de ambos. Não tenho credencial nenhuma para corroborar o que estou dizendo, e nem deveria ter, porque tudo que disse aqui é minha opinião, da maneira mais respeitosa e honesta possível. Tudo o que estou dizendo é que eu olho ao meu redor e não consigo ter esperança. Não acho que nosso país não tem como melhorar, porque tem. Só acho que do jeito como as coisas estão, todas as coisas: todas, a política, as universidades, os órgãos públicos, as empresas privadas, nossas relações interpessoais: a nossa situação histórica, cultural, econômica: todas as coisas, do jeito que estão, não nos levam a melhora nenhuma.

Se o nosso país adentrar ainda mais fundo no buraco, podemos confiar em nós mesmos para ajudá-lo a sair de lá? Eu espero estar errada, mas sinto que a resposta é um sonoro não.

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