Entrei rapidamente no trem, aquela pressa que é necessária à sobrevivência. A pressa, contudo, foi em vão, o vagão estava bastante vazio, tive a oportunidade de sentar, e foi então que os problemas começaram. Sentei no lugar certo? Estou sendo discreta o suficiente para que os outros passageiros não me percebam a ponto de não comentarem sobre mim, mas ao mesmo tempo sou visível o suficiente para não ser pisada? Estou próxima demais do passageiro ao lado, ou esta é uma distância boa? Ler, mexer no celular ou ficar olhando para o nada?

Escolhi a última opção, que acabou virando um desafio mental: Não reparar as pessoas ao meu redor. Fui derrotada e comecei a analisar as vidas que compartilham comigo os (des)privilégios do transporte público. Troquei tímidos olhares com a mulher ao lado da porta, e ela me ignorou, percebi um velhinho simpático, porém com um olhar assustador, a senhora ao lado dele olhava a frente para um ponto fixo, tinha um jovem que não é preferencial sentado no banco preferencial e alguém estava a dois lugares do meu lado, mas não consegui enxergar bem.

Tinha um cara de vans com um violão também, do tipo de pessoa que eu gostaria de ter uma conversa do tipo “conte mais sobre porque você está com o seu violão aqui”. Não teria coragem suficiente de puxar conversa, e nem senti a necessidade porque fiquei criando minhas próprias hipóteses, algumas delas são: ele é professor ou aluno de música e estava indo para a aula, ele é um artista de rua indo para um lugar mais movimentado trabalhar, ele havia comprado um violão e estava levando ele para casa, entre outras possibilidades. Por que eu penso nisso? Eu não sei.

Tive a sensação de que todos estavam olhando para mim, sei que é coisa da minha cabeça, mas não conseguia parar de pensar nessa possibilidade. Am I crazy? Maybe. A pessoa que estava do meu lado saiu e eu fiquei sozinha em uma fileira de aproximadamente seis lugares. Lado positivo: ninguém vai me encostar, lado negativo: sinto como se estivesse chamando muita atenção.

Pessoas saíram, pessoas entraram. O cara do violão saiu. Alguém sentou na ponta da fileira de bancos que estou sentada. Fico aliviada pois estava me sentindo estranha de ninguém querer sentar perto de mim, sem querer que as pessoas sentassem muito perto de mim. Esse alguém sentou na distância certa! Começo a selecionar mentalmente as pessoas que provavelmente desceriam na mesma estação que eu e erro majoritariamente.

Minha estação. Tento parecer discreta e não derrubar minha bolsa e meus casacos. Desço do trem, me misturo a multidão copiando o ritmo dos passos que as pessoas andam. Não quero ficar pensando nas pessoas ao meu redor, quero parecer normal, quero aquietar meus pensamentos e falho… Sempre falho em tal situação (mas sempre acabo com conteúdo para escrever).

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