sobre o dia em que você me olhou e disse não confiar nas minhas palavras

dormi sozinha no seu quarto por que você não queria dividir a cama. tomei dois remédios para dormir. minha psiquiatra passaria meia hora me repreendendo por abusar dos remédios mas é que eu não queria pensar em você ali no sofá distante como se estivesse na Índia e eu no Brasil. gritei e você nem escutou. as vezes acho que você vê a ferida cicatrizando e sente a necessidade de cutucá-la só para se lembrar dos meus defeitos. você não abandonaria tudo por alguém tão louca como eu. ela anda direitinho ela não fuma ela não tem problema na coluna não tem ansiedade ela não bebe não fuma não usa drogas; não sou ela. a garota que cê escolheu. você me fala sobre a mágoa que eu te trouxe sem pensar nas vezes em que aguentei calada e chorei no escuro do meu quarto enquanto você dividia aquele mesmo travesseiro com outra pessoa.

me apeguei tanto à ideia do seu amor. ele me parece tão quente e confortável. sinto frio e os pelos do meu braço arrepiam. aqui não é nada confortável. não me olha assim; como quem pode ir embora a qualquer momento. naquela noite abracei seu travesseiro e ele ficou encharcado com as minhas lágrimas. me desculpa por isso também. odeio a necessidade incessante de pedir desculpas. por quem eu sou. pelas minhas loucuras. pela forma como eu lido com os problemas. por ter beijado aquele cara. por ter me resguardado e por sentir tanto medo de um mundo que me devora. é difícil te ver indo aos poucos e fazer poesia disso. às vezes sinto que ficaremos juntos a qualquer momento. é certeiro. ficaremos juntos. sinto paz. é questão de tempo, digo para mim mesma. e aí me vem um soco no peito sufoco na garganta minha traqueia fecha e eu percebo que nós podemos nunca mais nos tocar. posso nunca mais te ver de manhã. dividir o chuveiro. te ver coberto d’água sem máscaras nú de corpo e alma e te achar tão tão tão bonito. e dói tanto. te ver aqui e saber que parte sua está lá; e a qualquer momento você pode ir.

aquele dia dormi sozinha na sua cama
mais do que sozinha
eu estava solitária

de manhã você me acordou com um beijo na testa e me pediu desculpas. e lembro de uma conversa na qual nós falávamos como um momento pode mudar quem nós somos como pessoas para sempre. como algumas pessoas arrancam pedacinhos nossos e como de alguma forma nós somos a soma dos pedacinhos de outras pessoas

na noite em que eu dormi sozinha sabendo que você escolheu não estar por perto
cê arrancou um pedacinho meu
tentei estancar o ferimento
mas ainda sangra.

(não te digo isso para que cê se sinta culpado por ter me deixado ali. só queria que ce soubesse que nós dois erramos tanto tantas vezes e que talvez esse seja o momento de acertar. seja como for. indo ou ficando. a gente se machucou. nós abrimos as feridas. só nós podemos suturar.)