Swipes, solidão e outras histórias.

Único registro do Ano Novo no Martinelli.

Minha primeira mensagem em 2017 foi para um chaveiro. Um chaveiro que encontrei no Google, 4 horas da tarde, chegando em casa depois da festa de Ano Novo. Foi a primeira vez que eu passei o Ano Novo com amigos — nesse dia eu resolvi me abrir para as oportunidades. Pra tentar encontrar o amor da minha vida. E encontrei, fui pra casa com ele. Esse primeiro amor eu não lembro nem mais o nome, nem sei mais como entrar em contato. Mas o chaveiro se chama Ricardo e o Whats dele está bem guardado na minha agenda.

Depois disso veio o Tommy, Fernando, Thiago, Rapha. O Rapha no fim das contas, era um casal que tinha acabado de mudar pra SP. Que coisa louca né? Perfil de casal no Tinder. Confesso que já fiz em alguma época obscura da minha vida. Não deu em nada, fico pensando se com as pessoas dá bom.

Ai teve o Jon que me passou o celular de madrugada e perdeu na mesma noite. O André ilustrador, o Paulo jornalista cheio de amigos em comum e de fato uma graça — mas era mais baixo que eu e ficou visivelmente incomodado com isso. Em janeiro também teve o Pedro que tinha largado tudo, ido pra Londres e trabalhado na cozinha de algum chef de programa de TV.

Fevereiro começa com um moço que eu não marquei o nome na agenda. Bizarro, como a gente perdeu o hábito de salvar o nome dos outros na agenda né? No fim das contas, acho que é mais uma forma de desapego.

Ai teve o Italo que eu conheci na Casa da Luz e arrumei alguma desculpa pra ele ir embora. Lembrei que tinha feito isso lendo o histórico. No dia seguinte sai com o Teo. Pelo que li da conversa encontrei com ele na esquina da Augusta com a Paulista. Eu não lembro o que a gente fez. Nos encontramos umas 7 da noite, provavelmente a gente comeu em algum lugar. As 10 eu mandei uma mensagem "gostei de te conhecer". 
Teo não tem nome na agenda e também não me respondeu mais.

Mais ou menos nessa época eu sai de novo com o Gabriel, que tinha conhecido ano passado. Na verdade tinha conhecido há muito tempo, mas só redescobri o Gabriel ano passado. Fomos ao cinema assistir um filme do Oscar. Curti pra caralho, assim como curti pra caralho o Gabriel. Mas sabe como é né, eu sempre falo: Timing is a bitch. Pelo menos a gente é amigo até hoje. 
Um dos poucos amigos de verdade que eu fiz na terra dos crushes.

Ai tem o Marco que não veio de app, mas também não deu em nada, Andrew e o Martin. Todos tem nome na agenda. Nenhum sobreviveu. Tem um cara que eu perguntei como andava a vida e a gente conversou muito. Mas não faço ideia quem seja.

Simon, Celso, Francisco. Gente que conheci no Noname provavelmente, o bar que eu sempre vou. Só anoto nome na agenda de quem eu conheço pessoalmente, assim fica mais fácil de lembrar. Mas a verdade é que as vezes eu fico tão indisponível que eu não lembro de ninguém. 
"Desculpa, mas o trampo tá foda" é o que eu sempre falo. A verdade é que nem sempre o trampo tá tão foda assim. Só não tenho paciência mesmo.

Perto da época que eu fiz cirurgia esse ano, teve um crush que me mandou R$ 10,00 reais de bônus no Méluiz. Entre isso e o fim do Carnaval teve mais um Thiago, Renato, Vitor, Fernando. 
Mas sabe como é né? Carnaval a gente não espera nada de ninguém. Nem da gente mesmo. Perdi minha chave no primeiro dia — e sorte minha que eu ainda tinha o telefone do Ricardo, chaveiro.

Nesse meio tempo aconteceu o M. Ele era uma pessoa que eu não queria que tivesse acontecido. 
Na verdade era uma pessoa que eu não queria ter magoado. Foi de app mas não era de app, conheci ele no meu primeiro trampo em SP e deu match uma caralhada de tempo depois. A história dele é bem longa e terminou comigo sendo cuzona e perdendo o melhor amigo que eu já tive em anos.

Ai teve o Erico chileno, depois o Maxime francês. Na sequência o Sascha apareceu, alemão eu acho — ja tinha viajado e/ou morado em mais de meio mundo. Eu discuti sociologia na cama com ele. Nunca imaginei que isso fosse acontecer, dessa forma, com ninguém. Discutir sociologia. O mais engraçado dessa história é que ele tinha o corpo quase inteiro tatuado e eu só lembro de discutir sociologia com ele. Acho que a gente saiu uns dois dias enquanto ele estava aqui, a gente foi no cinema. Claramente não lembro o que assistimos.

Ai teve Bruno, Luciana, Silvia e "Fernando Happns". Vocês também fazem isso? De nomear a pessoa na agenda com o nome do aplicativo e de vez em quando acabar com 3 pessoas com o mesmo nome, não sabendo mais quem é quem? Teve uma vez ano passado inclusive que eu tive que renomear o nome do cara pra "PARA DE PASSAR VERGONHA". Acho que foi por isso que eu parei de salvar todos os nomes na agenda.

Amilton, o moço do squirting, o moço do carro esquisito, a menina de um olho de cada cor, um outro Pedro. Já repararam que quando você sai de um aplicativo pro Whats a conversa geralmente morre? Com esse Pedro morreu porque ele disse que eu tinha cara de brava. Mas já morreu depois que o cara achou ruim que eu sou alta, sou mãe, sou bi, publicitária, porque meu ex era bonito demais.

Mais gente que eu não lembro, Sofia, Bruna. Quando você começa a ter dates demais, meio que você decora um script né?

Oi tudo bem? Eu sou UX, mas como ninguém sabe o que é falo que sou designer. Blá blá bla, Sou mãe. Blá blá blá, gosto de video game, já fiz cosplay. Blá blá blá minha música favorita é Heart of Glass, Blondie.

Tudo meio que parece um show de stand-up que você faz dia sim dia não na noite. Claro que as pessoas também contam várias histórias legais da vida delas. Mas né, você é a estrela principal. E você comanda esse show. No fim das contas você já saiu com tanta gente que não lembra mais o que contou pra quem. E segue o baile.

Junho. Sei que nessa época do ano eu enchi o saco de todo mundo. Comecei a beber demais, sair demais, fazer merda demais. Todo mundo tem essa época. Ou épocas. Foi nesse momento de timing zero que apareceu o "PQP é ELE. 🖤".

Ele tem uma história engraçada. A primeira vez que eu falei com Ele foi no Happn, uma ano antes da gente se conhecer. Teve aquele "Hey, tudo bem?" normal — e eu parei de responder. 
Corta.

Um ano depois, outro app, Tinder, ele lembra de mim e a gente combina de sair no mesmo dia. No Noname. Já disse que o Noname é meu bar preferido? O Noname também é um dos lugares favoritos dessa pessoa. 
Corta.

Eu esqueci d'Ele. Esqueci do Noname. 
Corta.

Lembrei, mandei mensagem completamente bêbada. Ouvi Blondie, Cazuza, Bowie e passei 2 dias direto com Ele. Eu disse pras minhas amigas no grupo que eu tava num grande Date-palooza. No fim eu estava perdidamente apaixonada.

Eu ainda lembro que, no sábado, Ele me disse algo como

"Eu não queria sair com você porque eu sabia que eu ia gostar de você".

Acho que inconscientemente acabo fazendo isso com as pessoas, todas as vezes. Deveria ter feito com Ele.

Depois de dois anos solteira, muita gente sem nome e ou sem rosto passa pela sua vida. E tem alguma hora você para de se sentir sozinha, para de chorar, para de ter sentimentos, para de se importar. Meio que você entra numa vibe Clube da Luta onde todo dia é uma cópia, da cópia, da cópia. Os apps tão lá pra matar o tempo, pra você não ter que voltar pra casa. É raro você sentir uma conexão com alguém.

E quando você sente, tudo fica intenso demais. Fica intenso porque você não sabe muito bem como se comportar mais com alguém que você gosta. Não sabe fazer aquele meio termo de demonstrar mas ao mesmo tempo não vomitar tudo em cima da pessoa. De estar junto sem que seja autodestrutivo pra nenhuma das partes.

Foram 40 dias de É Ele, ou quase isso. Assim como eu fiz com o M., sei que de várias formas estraguei as coisas com Ele. Os primeiros 15 dias foram incríveis. Depois deu tudo muito ruim. E foi nesses dias eu vi a pessoa horrível que eu me tornei. Eu sabia que não estava bem pra estar com ninguém, mas mesmo assim, tudo era tão mágico que insisti pra ficar. Insisti até o dia que eu mesma pulei fora. Eu não aguentava olhar nos olhos da bagunça que eu fiz. Terminei por mensagem, desterminei, bati na porta de madrugada bêbada e chorando. Me tornei a pior pessoa.

Depois d'Ele, fingi que sai ilesa. Nos dias seguintes que tivemos nossa conversa final em Agosto, eu sai com Daniel, Geronimo, Paulo, Tim, Eric, Celso, Bartô, Thiago, Dani, Raquel, Manu. Tudo pra esquecer essa coisa ruim que eu tinha causado pra outra pessoa e pra mim mesma. Deu certo? Obviamente não.

Ai VISH, logo na sequência eu conheci uma garota que eu pensei

"Puxa é ela e eu esperei muito por esse ela".

Aconteceu de novo. Lembra o que eu falei sobre ser intenso? Conversamos a noite inteira, saímos vários dias seguidos.

Me assustei. Fugi. Sumi. Magoei ela. Muito.
Menos de mês depois eu voltei a ser a pessoa que não se importa e que não anota o nome das pessoas, não responde e segue o baile.

A única coisa que mudou por causa dela foi a minha percepção que algum dia todo mundo vai ser o embuste na vida de alguém. Eu fui. E conclui que fui na vida de 3 pessoas incríveis esse ano. E olha, sinceramente, acho que foram 3 pessoas. Pode ter rolado com várias outras.

Tá tudo bem? Não. 
Eu vou ser uma pessoa melhor daqui pra frente? Não sei.
Só sei que uma amiga muito querida, depois de tudo isso me falou algo como

"se você não se importar e não se comprometer com as pessoas, as pessoas também vão cagar pra você."

Depois de ter tomado esse review da vida, tentei pelo menos ajeitar as coisas com Ele. Quer dizer, estou tentando. Não tentar voltar ou algo do tipo, só ser amiga sabe? Tentar se importar um pouco pra variar e ser menos egoísta. Não sei onde isso vai parar ainda. Sei que tem muita gente que recrimina quem tenta ser amigo de ex. Mas né ¯\_(ツ)_/¯ ninguém acerta tudo de uma vez, me deixa.

Acho que a minha solidão é sintomática do jeito que eu trato as pessoas. Do medo que eu tenho de me envolver com as pessoas. Da auto sabotagem que eu sou especialista em fazer quando me envolvo com elas.

E esse é o desafio que eu decidi abraçar. 
Parar de olhar o número exorbitante de crushes e matches e me sentir bem com isso. 
Parar de trazer pessoas aleatoriamente pra minha vida. 
Parar de sumir aleatoriamente da vida das pessoas.
Parar de me auto sabotar.

No começo do ano eu decidi ser mais aberta, mas fazendo do jeito errado aprendi que ser aberta demais me fodeu de jeitos que eu não fazia ideia que fosse possível. É como se eu tivesse entrado em 2017 tentando procurar o Wally. E no meio de tanta gente eu parei de perceber e de me importar com tudo o que estava em volta. Inclusive o amor ou amores da minha vida. No fim das contas, depois de tanto não prestar atenção em nada direito eu não lembro mais como o Wally se parece. Triste né?

É Outubro. Tudo ainda é meio confuso e turvo. Mas com esse desafio de ser menos Serial Dater, acho que até o fim do ano da pra lembrar de como é o Wally e voltar a ser uma pessoa um pouquinho melhor — sem tratar os outros como coleção de swipes. E se tudo der certo, sem precisar do Ricardo chaveiro novamente.