A satisfação foi transformada em números

Cena do episódio “Nosedive”, da série Black Mirror.

As redes sociais inauguraram (ou pelo menos popularizaram) a medição da satisfação e do sucesso por meio de números. Quanto mais curtidas, compartilhamentos e comentários, mais bem-sucedida uma pessoa é, mais relevante ela se torna. Porém, essa realidade pode ser injusta, já que visibilidade não significa qualidade e, muito menos, pode ser vista como sinônimo de felicidade.

É muito cruel que algo só tenha valor com base no retorno proporcionado pelas redes sociais. Para quem trabalha com as palavras ou quer expor seus pensamentos na Internet, pode ser frustrante a falta de leitores quando produtos com qualidade duvidosa fazem sucesso. É claro que qualidade é um termo relativo e, num espaço dito democrático como a web, deveria ter lugar para todos. Mas não é isso que acontece na prática.

A Aline Valek, em sua última newsletter (aliás, aproveito para agradecer a Viviane da Costa pela indicação dessa e de outras newsletters maravilhosas), falou sobre esse assunto, e aqui destaco um trecho:

Não vou mentir: é um bocado frustrante saber o que fazer para ter mais evidência, mais gente seguindo (o que não necessariamente significa mais leitores), mais participação em espaços relevantes, ou em que estilo ou qual tipo de assunto escrever para ter mais compartilhamentos ou mesmo mais livros vendidos. O problema é que isso envolve nivelar o discurso por baixo, ter que criar uma mentira de mim mesma, algo que não estou disposta a fazer porque ser famosa é algo muito pequeno em comparação ao que acontece quando uso da literatura e da arte para atingir uma verdade.

Eu não poderia concordar mais com essa colocação, pois precisamos acreditar naquilo que fazemos, ou nos tornaremos falsos e superficiais. Uns cliques a mais valem mesmo esse preço? Deixar de ser quem nós somos é o primeiro passo para o fracasso, não importa quantos likes tivermos.

Essa discussão me lembrou o episódio “ Nosedive”, da série Black Mirror. Em linhas gerais, o episódio mostra uma realidade na qual tudo o que você for fazer depende da sua “pontuação” nas redes sociais, desde alugar um apartamento até comprar uma passagem de avião.

Quando assisti a esse episódio, me senti muito incomodada com o tom quase histérico da personagem principal, como se ela se esforçasse além da conta para ser enquadrada e garantir sua “reputação”. A forma de se vestir, de andar e uma simpatia exacerbada, que soava muito falsa, me deixavam angustiada cada vez que ela aparecia em cena.

E é isso que estaremos sujeitos se tentarmos ser quem não somos apenas para sermos aceitos e termos mais seguidores/leitores. Quando tentamos demais, perdemos a espontaneidade e viramos quase robôs inexpressivos, que foi o que a personagem de Black Mirror pareceu para mim.

Por isso, não importa se uma ou 100 pessoas prestarão atenção no que produzimos: no fim do dia, like nenhum paga a nossa paz de espírito. Precisamos nos manter fiéis ao que acreditamos ou nos tornaremos caricaturas de nós mesmos.