[Conto] Despedida

Carol Vidal
Aug 22, 2017 · 3 min read

O sol que se mostra pela janela entreaberta ilumina um quarto melancólico. Sentado à mesa do computador, ele encara a folha em branco sem saber por onde começar. Levanta e começa a andar em círculos pelo quarto, a inquietação visível. A TV exibe para ninguém um programa de humor, que chega a ser irônico diante do quadro de sofrimento ali exposto. Ele senta novamente, pega a caneta, abre um envelope que está em cima da mesa e deixa os sentimentos aflorarem por seus dedos.

Ele ajeita o nó na gravata em frente ao espelho. Tudo precisa estar impecável para o primeiro de muitos dias importantes que terá dali para frente. Vai para a cozinha e, enquanto prepara o café, liga a TV e dá algumas risadas com um programa de humor. Como que de forma automática, invade o seu coração um sentimento de culpa, como se não tivesse o direito de ser feliz tão rápido, não depois de tudo o que aconteceu. Ele lembra do antigo relacionamento e decide improvisar, no guardanapo que encontrou, algumas palavras.

Minha vida é um resumo de saudades e lembranças. Em minhas mãos, encaro as passagens da nossa tão sonhada viagem. Seria uma surpresa. Mas você se foi antes que eu tivesse a chance de contar.

Minha vida seguiu. Tantas novidades e mudanças, que parece que foi há uma eternidade que te vi pela última vez. O momento agora é outro.

Nada tem sentido depois que você se foi. Gostaria de olhar para o futuro, para a vida que pulsa lá fora, e me convencer que ficará tudo bem. Eu não quero acreditar que o nosso “pra sempre” chegou ao fim.

Tenho muitos planos para colocar em prática. Vislumbro um futuro rico de descobertas, uma nova história que se inicia. Eu estou em paz, mesmo sem ter certeza se eu tenho esse direito.

Coloco essas palavras no papel para exorcizar o que está aqui dentro. Se você vai ler, eu não sei. Se vou enviar, ainda não decidi. Isso não importa agora. O que importa é que sofro em pensar que sua presença tão marcante já não mais habita o assento ao meu lado.

Essa carta é para te dizer que eu mudei. Quero que fique registrado, nessas palavras que rasgarei em seguida, que a solidão já não mais me acompanha. Será que você ficaria feliz em saber disso?

Eu penso em você a cada instante. Essas linhas tão cheias de dor que as lágrimas agora molham são minha forma de sobreviver a mais um dia. Pra onde vou daqui? Ainda não sei.

Me pergunto por que pensei em nós agora. Tinha tempo que isso não acontecia. A verdade é que a saudade, hoje, já tem outros nomes e outras faces para mim. Melhor assim.

Naquele exato momento, talvez pela última vez, os dois, separados por uma eternidade de sofrimento e mudanças, se reconectaram. Um aliviou a tristeza que o acompanhava; o outro, a culpa. Nessa história, não há um lado certo. Apenas duas pessoas encarando o fim e o recomeço.

Esse conto foi inspirado na música “Pensando bem” (Tó Brandileone / Pedro Altério), do 5 a seco.

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Escritora fã das artes que tocam a alma e resenhista da Revista Subjetiva. Newsletter: tinyletter.com/carolvidal_

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