Hoje fui enganada pelos signos, ou talvez pela conjunção astrológica no astro solar. Entrei em seu carro e com orgulho me contou estar entre os dez melhores motoristas de Brasília. Esse tal privilégio! Por alguns minutos fiquei desconfortável, nunca fui grande admiradora dos melhores e inteiros. Sou fragmento. Todos eles me trazem este sentimento de perfeição com o qual não sei lidar muito habilmente. Porém, aquele trabalhador me confirmava haver ausência de desorganização e sujeiras em seu mundo e confesso que me desarmei. Decidi pelo momento tragar um pouco de oxigênio e explorar sua levisciência.

Começamos a falar sobre a falha do gps dos aplicativos, os quais ultimamente não têm andado nos eixos, levando passageiras a lhe culpar por isto. Mas era só o sistema! Perguntava para elas se gostariam de cancelar a corrida, pelo que pagariam seis reais. Logo desistiu, avisá-las gerava mal-estar: melhor deixar por elas mesmas. Às vezes, avisos não são a melhor saída. Precisamos aprender assim, só. Sozinhas – ela já havia me contado que sozinha era somente o diminutivo de só. Tão bonita! Não me assusta a solidão, apesar de preferir estar carregada de famílias de diferentes vidas, amigas, colegas de trabalho, chefes, professoras, garçonetes, famílias de apartamento compartilhado, famílias de problematizar, famílias de resistir, famílias de minorias com grandes maiorias de pensamento.

Por não estar muito aberta ultimamente a conversas pesadas, resolvi lhe perguntar se vinha de candanga-Brasília para desviar o assunto. Daqui provinha, daqui gostava medianamente. Aprazia-lhe a cidade, desgostava das diferenças. Era muito trânsito, você vê, muitas repartições entre a cidade. Havia, para ele, três classes: a de estudantes universitários das 400, os trabalhadores de classe média das 200, e as bem-apossadas das 300 e 700. Sabe, lá era demasiado custoso viver. Essas coisas que só para quem tem golpinhos.

Entramos no buraco de tatu, desbravando esse túnel de passagem para o meu trabalho, quando ele mencionou gostar de morar por si só. Comprou apartamento com uma pequena entrada e quita suas parcelas com preço menor que o aluguel de kitnets no Plano Piloto. Falho piloto este, o avião quase caiu. Quanta contradição! Morava desde os quatorze anos só-zinho. Sua mãe decidiu desquitar desigual-Brasília e ele resolveu ficar. Cativante-Brasília, cada um em seu gosto. Venerava mesmo era deixar o celular em cima da mesa e encontra-lo da mesma maneira no dia seguinte. Maneirismos. Preferia deixar o copo em cima da pia e não o ver se mexer nos próximos tempos. Maestro da sua vida, gerente-geral da cozinha. Tudo dependia somente dele, esta sensação de independência. Detestava louças na pia. Diziam eles lá em casa: você só olha pra direita e pra esquerda, a louça te esmaga de cima pra baixo!

Preferia organização às pessoas. Aí, não tive dúvidas: virginiano da nata! Eu prefiro a vida e a imperfeição, me desligo do controle da paisagem. Para mim, nada como trocas e conversas, ignoro as poeiras. Para ele, irritava-o a companheira. Chegava em casa, como conseguia? Deixava pilhas de louças lambuzadas na pia. Cada hora que ia tomar água, tomava um copo diferente. Era um para cada momento! Ao total, no fim da semana, eram doze copos em cima do fatídico balcão. Pura matemática: vinte segundos por copo, duzentos e quarenta segundos de lavação. Tão desorganizada, faltava-lhe repreensão! Nesta hora perguntei o arremate: virginiano, você? Neste, meu choque: geminiano era ele! Incrédula, decidi que faltavam informações de seu mapa. Porém, estávamos chegando, o tempo era curto e a vontade era pouca. Resolvi por vez ficar com a leveza. Larguei mão de decifra-lo. Olhei para ele, agradeci, e lhe desejei então um ótimo dia: muita limpeza e organização!

Saio sempre pela tangente de brincar com as peculiaridades. Ele esboçou uma risada gostosa, percebi. Nada como cada um em si mesmo. Tudo como Gil me cantava: Eu continuo aqui mesmo, aperfeiçoando o imperfeito, dando um tempo, dando um jeito, desprezando a perfeição, que a perfeição é uma meta, defendida pelo goleiro, que joga na seleção. Ou pelos virginianos, que jogam na constelação. Só sei de mim: pisciana, prefiro a imperfeição das curvas da natureza ao abandono da exatidão. Cazuza te contou das metamorfoses ambulantes?