A Literariedade em “A Imitação da Rosa”

Eu escolhi um conto da Clarice Lispector intitulado “A Imitação da Rosa”, publicado no livro “Laço de Família” que reúne diversos contos da autora. Nele, há diversas características da literariedade. Trata-se de uma história que aborda a história de uma mulher chamada Laura, que vive uma típica vida de esposa de classe médica, em casa, à espera do marido chegar de mais um dia de trabalho, em sua condição frágil e submissa. Sem filhos, sua rotina vai sendo revelada para o leitor como algo pacata e monótona, interrompida apenas em dias em que eles se encontram com um casal de amigos, Carlota e João.

A primeira vista, a narrativa pode até parecer não ter uma “criatividade acentuada”, como é de se esperar de um texto literário; contudo, graças à forma profundamente reflexiva e subjetiva, tão característica da autora Clarice Lispector, o conto surpreende. Repleto de metáforas e alegorias cheias de conotações poéticas, o conto se desenvolve todo em torno de um desses dias, em que a nossa protagonista Laura se preparava para o encontro com o casal de amigos. Ao longo de toda a narrativa, Laura entra em uma espécie de espiral de reflexões próprias e silenciosas em torno de uma série de pensamentos, ora corriqueiros e superficiais, como com que roupa deveria vestir; hora íntimos e profundos, como seu jeito de ser em comparação com o da amiga, Carlota. Ela, que sempre procurava agir de forma passiva e obediente, enquanto que a amiga parecia sempre impulsiva e de uma independência formidável.

O auge criativo da autora quando Laura se depara com a beleza sedutora e particular de um ramo de rosas que comprara na feira e que estavam dentro de uma jarra na sala. Admirada por sua extrema beleza exuberante, em um rompante, Laura decide dar as rosas a amiga. Ao chamar a empregada da casa, por um instante, Laura hesita e ali, naquele curto instante, o leitor testemunha como aquelas flores, ao mesmo tempo em que as flores traziam muitas características semelhantes à amiga (por sua beleza sedutora e atraente); por outro, também a tentavam, quase como a serpente na história bíblica de Adão e Eva (leitura vertical), como num convite a desabrochar de sua própria rotina, sem filhos, pouco original e até meio chata.

No fim, a protagonista de nossa história resolve presentear sua amiga com as rosas, quase como quem deseja se livrar de uma tentação. E, mesmo sem sabermos como exatamente ocorria o tal encontro com os amigos, o conto termina de maneira surpreendente. Distraída por seus devaneios, Laura não se dá conta que anoitecera e que não estaria pronta até a hora que o marido chegasse. E, assim que o marido chega em casa, ela sentada ali, em seu no sofá, ainda com seus vestidinho de casa, apenas se desculpa por não ter seguido seu gosto meio obsessivo pelo método e pela perfeição de comportamento dentre as condutas esperadas de uma “esposa exemplar”, e já estar pronta com seu vestido marrom com gola de renda creme, de banho tomado, a espera de seu marido, que poderia precisar da ajuda dela para se vestir.

Nesse sentido, o conto de Clarice Lispector é impecável. Funde com maestria a prosa à poesia ao fazer uso constante de imagens, figuras de linguagem, símbolos, sonoridades, rimas ao longo da comparação entre as duas personagens femininas, Laura e Carlota. E, ao fazer isso, a autora ainda coloca em debate o papel que a mulher daquela época (década 60/70) ocupava na sociedade (e que, sem dúvida nenhuma, ainda hoje, em 2017, a mulher desempenha) e o que se esperava das mulheres em termos de comportamento e postura. De um lado, Laura, uma mulher submissa e obediente, que busca obsessivamente ser eficiente nos afazeres do lar e nos cuidados com o marido. Do outro, Carlota, ativa e impulsiva, ao mesmo tempo atraente e independente.

E, entre uma postura e outra, por intermédio de um singelo ramo de rosas, a personagem principal se vê em busca de sua identidade, por meio de suas próprias lembranças e descrições do passado e do presente; enquanto que, como plano de fundo, nas entrelinhas, é possível reconhecer as mudanças que os anos 60 e 70 trouxeram para as mulheres após a expansão do ensino universitário e a maior absorção da mão de obra feminina no mercado de trabalho. Mudanças essas que despertaram em muitas mulheres um maior interesse por sua vida pessoal e profissional, não mais vinculadas à figura do homem e/ou do casamento como para as mulheres das décadas passadas.

É diante de um simples jarro de rosas que essa obra literária acarreta um enorme efeito catártico e promove um verdadeiro Raio-X do comportamento da mulher diante de seus novos papéis e, por fim, a re significação que suas condutas passam a ter perante a família, amigos e, sobretudo, diante dos homens e de toda uma tradição patriarcal e machista.