Desabafo

Vou confessar que tenho lido bem menos sobre política brasileira do que lia antes. Talvez seja a nova fase da vida. Talvez seja minha própria absorção em leituras de trabalho. Talvez uma preocupação maior com outros assuntos, como indústria de tecnologia (li um ótimo texto hoje no Medium sobre liberdade de expressão no Reddit e tenho acompanhado bastante os posts sobre assédios em empresas no Vale do Silício). Talvez simplesmente cansaço sobre o destino do debate.

Ainda assim, vou olhando de longe. E confesso que olhando de longe, o que tenho é medo. Muito medo.

Eu apoiei o impeachment. E apoiaria hoje de novo. E entre Dilma e Aécio, continuaria escolhendo o Aécio, mesmo sabendo de toda a situação. Por um motivo simples: crime de responsabilidade fiscal é MAIS GRAVE que crime de corrupção. Corrupção é caso de polícia. Crime de responsabilidade fiscal é caso de destruir e derreter a economia de um país, que foi o que ela fez. Desestabilizou a confiança do mundo no Brasil para ajudar os empresários amigos (as pedaladas foram, afinal, para “incentivar a economia”, o que no jargão petista é encher os cofres do Joesley). A corrupção foi sendo sistematizada e institucionalizada (porque já existia antes, claro) POR CAUSA desse modus operandi de governo.

Dito isto, a caça às bruxas que se tem agora é uma maluquice. A impressão que dá é que temos todas as instituições brasileiras tentando passar por cima de tudo, com um afã que beira o autoritarismo. E nisso, vão-se cortando cabeças, como se as coisas fossem ser resolvidas de uma hora para a outra. Não vão. Há de se dar tempo ao tempo.

Dar tempo ao tempo não significa impunidade. Significa que reforma é melhor que revolução. Significa que diálogo é melhor que guilhotina.

Somos vizinhos da Venezuela. Deveríamos ter aprendido já o que acontece quando o populismo vai às últimas consequências. Mas parece que não estamos conseguindo aprender.

O Brasil está com síndrome de salvador da pátria (já perdemos isso em algum momento? Acho que não. Sebastianismo ainda é mais presente na colônia que na metrópole).

E as redes sociais, a grande ágora que prometia democratizar as vozes para que houvesse mais descentralização, mais pontos de vista, mais debate, só aumentam esse sentimento. À esquerda e à direita.

À esquerda, parece-me que ainda temos a ideia de que Lula pode salvar tudo. Traga o homem de volta que ele “arruma” a casa e traz de novo os “bons tempos” de crescimento econômico e divisão do bolo entre a super elite e as classes mais pobres. Esquecem-se, de maneira conveniente, que o bolo só parou de crescer POR CAUSA do afã populista do homem e de que o esquema de cleptocracia que virou o congresso foi criação dele (ou o que era o mensalão, senão um grande mercado de deputados comprados com dinheiro de corrupção para a obtenção de um poder absoluto?)

Do outro lado, tem-se a direita, que, depois do impeachment, mostrou as garrinhas de mediocridade. Gente! Temos a seita “Olavo é meu senhor e nada me faltará”, a seita “Bolsonaro é meu senhor e nada me faltará” (como sincretismo religioso no Brasil é tradição, há aqueles que têm dois senhores), há o grupo que resolveu abraçar teorias da conspiração com fé (globalismo e às vezes acho que esse povo acredita em reptlianos) e há, claro, o grupo que acredita que é bacana e é legal ser abertamente machista (gente que acha que aborto é errado até quando a mãe morre em decorrência da gravidez) e homofóbico. Nem vou falar aqui de algumas “musas da direita” que falam em casar virgem e postam foto de decote porque nem filósofos pós-modernos dão conta de explicar tamanha liquidez.

E nisso a gente vai deixando o Janot achar que manda no país sozinho, deixando o Dellagnol virar empreendedor de palco, deixando o José Dirceu ganhar poder de novo, abrindo espaço para uma eleição que vai ter Bolsonaro e Lula no segundo turno, admirando ou Trump ou Maduro, vendo brasileiro ser paga-pau da Marine LePen, vendo o pessoal acreditar que o melhor mesmo é ter um Putin para chamar de nosso e achando tudo normal um monte de brasileiro que nunca conversou com um muçulmano na vida ser islamofóbico.

E a economia? Ah, isso é um detalhe na cabeça dessa gente. E a melhoria do ambiente para as empresas? Outro detalhe. Política ambiental? Que é isso, né? Quem precisa de equilíbrio ecológico e sustentabilidade num país agrícola? E desenvolvimento tecnológico? Para que isso se é muito mais legal chamar quem aborta de assassino no Facebook ou chamar quem votou no Aécio de apoiador de traficante?

Sério, dá medo. E é por isso que ás vezes parece melhor ler sobre como o Reddit poderia melhorar para seus usuários ou sobre a história do salto alto. Pelo menos alivia a ansiedade.

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