Carta sobre a arte

Amigo, um ensaio sobre a arte não é coisa simples, pois os mistérios que sondam a arte sondam a vida.
Foi a capacidade de olhar pro céu, de enxergar arte em todas as coisas que nos fez os humanos que somos, e deixar de fazê-la nos tornou tão desumanos quanto poderíamos imaginar.
Eu não sei como explicar a arte que habita em mim, eu não sei pra que serve, eu não sei de onde vem a necessidade de expressão, eu não sei muita coisa ainda. E sobre todas as coisas que eu não sei eu me deito, reflito, escrevo, canto, desenho, registro, porque eu não preciso saber, eu preciso mostrar, botar pra fora, esfregar na cara de quem tem olhos e ouvidos, eu só preciso.
Uma das maiores crises do artista é se encontrar na arte, se chamar artista, encontrar seu lugar, ser músico, pintor, escritor, poeta, como se a arte fosse uma empresa capitalista que te entrega um crachá com um cargo e um uniforme em seu primeiro dia de trabalho. Por bastante tempo sofri este drama, até entender que arte não se limita, ela é criadora, não se vende, não se define e não precisa de justificativa, eu pertenço a ela como pertenço a esta existência, e existir não é fazer, é ser, apenas ser.
Eu respiro isso, faço o tempo todo, tenho mil ferramentas, tintas, canetas, cordas, câmeras, sons, tudo q eu tocar vai se tornar arte porque fui consumido pela necessidade de ser, nesta existência, a expressão, o poema, a beleza, a profecia, tudo que me fizer sentir vivo e presente.
Eu me coloquei em um altar e queimei por dias e noites até não existir mais em mim a dúvida de que arte é o deus a quem me prostro todas as manhãs, e será até o fim, porque não existe mais eu, só a arte que vive em mim.
Meus olhos mostram isso com honestidade, e eu não tenho nada a apresentar enquanto artista, só o olhar.
