Conhece-te a ti mesmo — e a tua multidão

Estão todos aí, com a ‘boca escancarada cheia de dentes’ ou não: preconceituosos, homofóbicos, hipócritas, corruptos, embusteiros, ilusionistas, urubus de pobreza alheia e apresentadores de programas da tarde. Concentram-se em vender felicidade efêmera e paliativa; dissolvedores instantâneos de solidão; bom mocismo mentiroso; incitação à violência descarada; creme que não acaba com celulite mas sim com seu suado dinheiro.

Mas, meu amor, não se deixe entorpecer — divergências costumam ofuscar nossos cristalinos. Permita, e queira, que eles continuem onde estão, falando bem alto o que pensam e acreditam. Tentar vedar essas bocas pode nos machucar as mãos, além de não resolver o problema. Em vez disso, dê a eles megafones.

Coisa mais linda é ver alguém dizendo o que pensa, mostrando a cara e arcando com o preço de ser sincero, mesmo que você não concorde com a oração. Precisamos nos abrir e saber, além de opinar, ouvir o outro, pois apenas uma ideia pode combater outra. Não tenha medo, eles não são o maior perigo.

Desconcerta-me, isso sim, as ideias veladas, escondidas, covardes. Todo esse politicamente correto que dá audiência. Aquele que levanta a bandeira da proibição das drogas — por que isso gera eleitores — e que em casa enrola uma ervinha. Isso é que nos engessa, bloqueia avanços sociais e nos faz regredir. Esses, sim, merecem nossa indignação, mas passam ilesos a ela pois não se mostram, não se expõem, não gritam.

Não tenha medo de pensar, prenda minha. Não fuja das ideias pra não cair nessas mesmas armadilhas. ‘Conhece-te a ti mesmo’, pois só há um pecado maior que a hipocrisia: o auto engano.