Sobre Leonardos e despedidas

Meu primeiro amor foi Leonardo. Ele tinha 5 anos, assim como eu, e estudávamos na mesma sala. Logo que chegava na escola eu procurava um lugar para sentar perto dele. Mas infelizmente eu não era a única a gostar de Leonardo, outras colegas nutriam uma paixonite pelo menino, o que deixavam disputadas as carteiras ao seu redor. Isso me incomodava um tanto: era ciúmes, apesar de eu ainda não saber nomear esse sentimento na época.

Numa das atividades escolares a professora pediu para que trabalhássemos em dupla com o colega que estava sentado ao lado. E eu estava ao seu lado, o que encheu meu coração de felicidade por alguns instantes, mas por uma fatalidade do destino ele formou dupla com outra menina. A princípio neguei, fui discutir com a dupla de Leonardo dizendo que ele era o meu par. Mas fui confrontada pela professora dizendo que, por uma questão matemática, minha dupla estava do meu outro lado. Fiz a atividade frustrada e me culpando por ter escolhido o lugar errado pra sentar.

Mas isso não me abatia. De uma coisa eu tinha certeza: meu sentimento por Léo. E eu não escondia, não. Se para mim era claro que eu gostava dele, então era claro para todo mundo, inclusive pra ele. No meu aniversário eu disse em alto e bom som “O com-quem-será vai ser com o Leonardo”, para que não houvesse dúvidas ou confusões. Para minha mãe eu falava, “O Léo é meu namorado”, que me retrucava, “Você não é muito nova pra namorar, não?”, e eu respondia com o mais convicto “Não”.

O que me confortava após o término da aula é que ele era quase meu vizinho, morava duas casas depois da minha. E várias vezes pedi pra minha mãe que me deixasse ir brincar com ele em sua casa. E eu acabava indo. Gostávamos de massa de modelar. Era nossa brincadeira preferida. Ficávamos no chão da cozinha brincando com uns bonecos diferentes. Eles eram carecas e tinham furos na cabeça com o intuito de fazer os cabelos com a massinha. Era demais! O melhor momento do meu dia.

Eu não sabia se Leonardo gostava de mim com a mesma intensidade que eu gostava dele. Mas eu não me importava muito com isso. Pra mim o importante era o que eu sentia quando estava com ele e que ele topava brincar de massinha comigo. E também era essencial que ele soubesse que eu gostava dele. Eu fazia questão de mostrar pro Léo o que tinha dentro de mim. E parece que isso bastava, pra mim e pra ele.

Até que um dia meu pai me chamou para conversar e disse que mudaríamos de cidade por conta de um novo trabalho que ofereceram pra ele. Fiquei confusa e não sabia muito bem como isso seria, só sabia que não tinha gostado da notícia. Quando estávamos pra ir embora insisti pra minha mãe me levar até a casa de Léo, pois queria me despedir. Sentia que era algo importante a se fazer. Enquanto nossas mães trocavam palavras quaisquer, ficamos nos olhando, de longe. Eu não sabia o que fazer, nem o que dizer, muito menos o que aquela despedida significava. Eu nunca mais o veria? O que era isso de nunca mais ver alguém que se gosta tanto? Nossa despedida foi um balançar de mãos seguido de um tchau em uníssono.

Eu nunca mais vi Léo. Se eu viajasse no tempo e falasse praquela menina, “Você nunca mais vai ver o Léo”, provavelmente ela me olharia assustada e não se sentiria capaz de enfrentar tamanha dor. Após a mudança, fiquei um tempo sentindo saudades das nossas tardes de massinha, mas a vida seguiu e logo surgiram outras paixões. Além do mais, fui descobrindo outros jeitos de gostar, de amar e, principalmente, sobre as complexidades de se relacionar conforme a gente vai crescendo.

Mas parece que algo permanece da mesma forma em mim. Quando me despeço de alguém que amo me sinto com aqueles 5 anos de idade, sem saber como agir, me fazendo exatamente as mesmas perguntas. A gente nunca mais vai se ver? O que é isso de nunca mais ver alguém que se gosta tanto? As despedidas continuam acontecendo, com mais frequência do que eu gostaria, e eu só consigo pensar na tamanha sacanagem de quem fez esse mundo assim, cheio de desencontros. Mas talvez aquela menina de 5 anos, me vendo angustiada com as separações, me diria, com toda coragem que tinha, “Vai, diz que ama, mostra o que tem dentro de você, chama pra brincar de massinha, o depois a gente vê”.