Crônicas de Bibliotecas Públicas Possíveis no Século XXI (I)

A primeira pessoa chega e pergunta: estou procurando um livro que tenha informação sobre material de construção. O profissional responde, eu tenho cara de google? Pergunte ao seu celular.

A segunda pessoa começa a falar: eu tive um sonho estranho, embolado, estava sendo perseguida por um livro de capa verde, que eu li uma vez na infância mas não lembro o nome. O profissional responde: você já passeou pela nossa estante só de livros de capa verde?

A terceira pessoa pergunta: onde estão os computadores? O profissional responde: a nossa exposição sobre história da tecnologia da informação esta no segundo andar. Nós temos um engenheiro de produção orientando a visita hoje. Você pode ir pelo elevador acompanhado aquele senhor de cadeira de rodas.

Uma quarta pessoa que surpreendentemente nunca havia entrado em uma biblioteca no século XXI entra questionando: não entendi muito bem como você organizam a coleção de vocês. Por que aquela estante esta bagunçada? O profissional responde: aquela é a estante do João da Silva. Ele era um frequentador da nossa biblioteca antiga – da época em que se classificavam e catalogavam e colocavam etiquetas nos livros – e fizemos uma estante sobre os artefatos que o tornou humano. Tentamos preservar a sua memória através dos que ele mais gostava: os filmes, os livros, as fotografias antigas.

Ao entrar em uma biblioteca ouve-se uma voz humana conhecida — Roberto Carlos, narrando de forma um pouco melódica: Com quem você gostaria de conversar hoje? Temos um poeta, um historiador, uma engenheira, um cultivador de hortas orgânicas, e até a primeira brasileira a ganhar um nobel esta conosco hoje conversando sobre o prazer da pesquisa com adolescentes no primeiro andar.

Os dispositivos móveis e a internet das coisas permitiu que o espaço físico pudesse funcionar como a internet: sem nenhuma organização. Como a internet foi tomada pela inteligência artificial e as facilidade de buscar informação sobre qualquer coisa, as bibliotecas públicas buscaram transformar-se para ser um contraponto a technopolis e promovendo um retorno as conversações e ao desenvolvimento humano.

Houve uma época na história em que os bibliotecários deixaram de acreditar nas bibliotecas e foram tentando transformar-se em profissionais da informação – emulando a primeira geração dos robôs da inteligência artificial. Passaram a atuar como representantes comerciais da indústria do software e da versão ultrapassada da academia, baseada nos critérios da comoditização do conhecimento. Normatizavam trabalhos de acordo com a abnt, usavam código e regras defasadas, e não sobrou nada que eles pudessem fazer em um cenário digital – passando até a defendender que documentos digitais precisavam ser preservados, assumindo funções em arquivos. Gestores da informação foram contratados para administrar bibliotecas, comparando-as com o google, investindo na digitalização dos acervos e subvertendo a função dos espaços, com o discurso obsoleto de que tudo é sobre disseminação da informação e de que um conceito como o de unidades de informação criado na década de setenta no mundo pré-computação pessoal pudesse fazer sentido no séc. XXI.

No entanto ninguém poderia, no mundo, imaginar que seria um grupo de brasileiros a reinventar as bibliotecas, para o séc. XXI, restaurando o seu sentido original: um espaço humanista para contribuir com a busca por teoria, sentido e propósito. Um espaço criado para democratizar para a sociedade na era moderna valores restritos a aristocracia.

Os novos profissionais passaram a ser valorizados e reconhecidos socialmente e não havia nenhuma criança que não soubesse contar a história dos livros, das bibliotecas e o que elas precisaram passar para superar a idade das trevas da informação e como elas conseguiram reinventar-se para fazer sentido nos dias de hoje.

O ambiente foi completamente renovado para a celebração dos seres humanos, que estavam ameaçados de extinção pela economia pós industrial, com a era da informação, quando a indústria começou a tomar conta não apenas dos corpos mas, também, da mente das pessoas. Com a quarta revolução industrial, até o conceito de humanidade estava se tornando obsoleto.

A obsolescência deste tipo de trabalhador do conhecimento, sendo paulatinamente substituído pela inteligência artificial, foi a grande oportunidade aproveitada por um grupo de brasileiros, que acreditando num sonho, reeducou o mundo: restaurando os valores humanistas da bibliotecas e reinventando a técnica adotando tecnologias de forma inteligente para conectar as pessoas – não usuários, superando completamente a ideia de que a função social do campo era de organizar informação ampliando o acesso ao lixo informacional no mundo, produzido em excesso tanto pela academia, quanto pelas empresas.

Afinal de contas, informação é lixo.

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