TOMEI PORRADA DA Polícia Militar da Bahia NO CARNAVAL DE SALVADOR

No sábado, dia 06 de fevereiro de 2016, por volta de 18h30, fui agredido, de forma absolutamente gratuita, por um policial militar, no bloco Cerveja e Cia (show da Ivete Sangalo), em Salvador. Eu pulava, vestindo o abadá, do lado de dentro do cercadinho de cordas que acompanham o trio elétrico ao longo de toda a Avenida Barra-Ondina, o circuito de blocos mais famoso — e lucrativo — da cidade. Empurrado pela multidão, caí sobre as cordas. E assim, do nada: sem ter brigado, ou de qualquer outra forma dado causa à agressão, sinto uma pancada em minha costela direita. Com a força do golpe, caio novamente para dentro das cordas, e só então percebo o ocorrido — um policial militar me atingira com a ponta de um cassetete, na gentil tentativa de me afastar das cordas. Ainda incrédulo, assisto, com terror absoluto, uma cena. A Cena. Para guardar com carinho e levar para o analista: um psicopata brutamontes, paramentado como um tartaruga ninja, avançar, babando, irado, decidido, em minha direção! FU-DEU. Ando para trás. Em vão. É tarde e ele levanta o cassetete no ar, e o golpeia em direção à minha cabeça. Por sorte, me protejo com o braço esquerdo, que absorve a porrada, evitando o pior. Deste momento em diante, não lembro a sequência exata dos golpes, mas fui atingido também na perna esquerda (altura do quadril) e no braço/punho direito. Estou com diversos hematomas pelo corpo, e com o braço esquerdo contundido, inchado com edemas musculares, e imobilizado.

Já tinha lido sobre a violência e truculência extremas da Polícia Militar da Bahia, cometida, sobretudo, contra os jovens negros e pobres das periferias de Salvador. Chaga nacional, aliás: padrão de atuação desta instituição tão fora de nosso tempo. Mas, ainda assim, a agressão me surpreendeu. Só mesmo uma falha na matrix para explicar, no Brasil, uma agressão tão gratuita a um branco, em área VIP? Que motivo levou o policial àquele ato? Diante do inusitado, somos levados a pensar como eu no momento de pânico: um ato isolado de um psicopata.

Nada mais falso. Para entender a agressão, é preciso entender o que é, hoje, o Carnaval comercial de Salvador. No entorno dos blocos com corda, o ‘cercadinho vip’ toma praticamente a rua inteira: e ‘pipoca’ é o pouco espaço que resta para o povo pular carnaval, e também o lugar por onde os circulam os serviços da festa. O ‘problema’ — e, para uns poucos, a solução — é que só com muita violência é possível segregar o espaço público e elitizar a diversão, em uma festa originalmente tão popular. Excluir o povo da rua tem um preço: deixar, ao menos, a calçada livre. Eu violei esse código de segregação, e por isso fui espancado. E testemunhei brigas diversas. Entre foliões — da pipoca e do bloco. Entre seguranças e foliões. Além de agressões de policiais a todos. A porrada ali é democrática, come em todos lados e em todas as direções. O policial que me bateu foi treinado e orientado a cumprir esta missão. Não nos enganemos. Não pensemos — por um segundo sequer — que se trate de um acidente.

No chão de fábrica da logística violenta do Carnaval de Salvador, o policial é o personagem mais poderoso. E na base está a figura do cordeiro. Nesse código não escrito, os cordeiros têm duas funções: segurar a corda, ajudando a garantir o perímetro vip. E tomar porrada, de seus superiores e também dos foliões. Eles fazem isso ao longo do dia, acompanhando 2, 3, 4 blocos. Espremidos entre a pipoca e o bloco. Em troca de 50 reais por dia. Eles são o colchão — só que feito de gente — que amortece — e, por vezes, repercute e amplifica — a violência generalizada. Ah, e sem beber água: dois cordeiros me abordaram, apontando, sedentos, para a própria garganta, implorando por água ou cerveja — qualquer líquido que aplacasse as horas mal remuneradas debaixo de sol.

As violências não param por aí. E são muito piores que ser obrigado a beber Schin, a cervejaria exclusiva do Carnaval: o exército de ambulantes, miseráveis, que dormem na rua, ao relento, em barracas, ao longo de todo o Carnaval, em troca de uns trocados. Impedidos de vender outras marcas, têm suas margens de lucro, já pequenas, reduzidas. Vi moleques de quatro, cinco anos, dormindo em isopores. Vi moleques um pouco mais velhos vendendo cervejas. Uma miséria que dói.