Esse não é um texto sobre conquistas, vitórias, eventos e post-its. Aqui vamos falar da vida real.

O que nenhum empreendedor te contará

Um texto que, se eu tivesse lido quando tinha vinte anos, mudaria a minha vida.

Ícaro de Carvalho
Feb 20, 2018 · 9 min read

Não existe outra forma, mais sincera e direta, do que começar esse texto com uma das minhas citações preferidas, do poeta Fernando Pessoa:

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Então, é isso: se você está atrás de um texto motivacional, já te antecipo que é melhor parar por aqui. Eu não falarei sobre mindset, coach, produtividade nem PNL. Hoje eu quero falar sobre algo muito mais importante: a realidade.

Se você chegou até aqui, é bem provável que empreenda. Seja através de um negócio próprio, da sua marca pessoal ou pelo menos se interessa sobre o assunto. Cá entre nós — ninguém precisa saber: você não está cansado de ser um super-homem o tempo todo?

O empreendedorismo explodiu no mundo inteiro nos últimos anos. Seja pelas características da geração Y (escrevi um texto sobre isso, que você pode ler clicando aqui) ou pelo desenvolvimento da tecnologia, que atirou os custos de produção para baixo; o fato é que nunca foi tão fácil e barato abrir o próprio negócio.

Uma geração inteira está descobrindo, pela primeira vez, que não é necessário engolir sapos e aguentar o chefe incompetente pelo resto da sua vida. Nos tornamos, finalmente, corajosos o bastante para criarmos os produtos e serviços que gostaríamos de ver no mercado.

O ecossistema reformou: “Crie os produtos que você sempre quis ver no mercado”.

Grandes poderes trazem grandes responsabilidades.

Com isso, o número de startups explodiu. Pequenas iniciativas, geralmente tocadas por até meia dúzia de desbravadores, invertendo as regras do mercado e sem medo do erro. Repito: sem medo do erro.

O problema é que o diabo mora nos detalhes…

Ah, você é super inovador? Que tal um escritório a sua altura? Cool, não?!

Com o desenvolvimento do ecossistema, inspirado pelo crescimento do Vale do Silício, foi exportado para o mundo inteiro um ideal de empreendedorismo ao estilo Google, só que sem o trabalho duro, o sentido de ownership, as responsabilidades, o coding…

E o que restou? As bicicletas coloridas e as piscinas de bolinha.

E qual é o problema nisso tudo, afinal de contas?

Bom, é aqui que inicio a minha tese. Pois é, há uma tese. Caso contrário seriam apenas palavras de ódio de algum mal amado, que não curte trabalhar em piscinas de bolinha.

O problema é que, para desenvolver a maior parte das habilidades fundamentais de uma pessoa de negócios bem sucedida, são necessárias três coisas:

A competitividade.

E a agressividade.

Ponto. Essa é a minha tese. Por detrás daquele sorriso de bom moço do Mark Zuckerberg, há um empreendedor agressivo, capaz de ameaçar os concorrentes, copiá-los ou, simplesmente, comprar aquilo que ele ache que pode se tornar um risco ao valor das suas ações.

Atrás daquele rostinho de bom moço do Bill Gates, há um negociador bem sucedido em monopolizar o mercado nos últimos trinta anos. Que teve coragem de expandir para a China quando ninguém quis, tomar e proteger propriedade intelectual da maneira mais laissez faire possível.

Todas as vezes que você rever aquele discurso do Steve Jobs sobre vocação e sobre seguir os seus sonhos, lembre-se que aquelas palavras estão saindo da boca de um dos líderes mais autocrático da cultura americana.

Se, por um lado, agressividade, apreço ao risco e ausência de medo em machucar os outros é uma característica comum entre todos eles, por outro, você não viu nenhum desses caras brincando de pet-day-office enquanto construíam o próprio caminho em direção ao primeiro bilhão.

Esse foi o primeiro escritório do Jeff Bezos, hoje o segundo homem mais rico do mundo.

Essa é a rotina de trabalho do Tim Cook, atual CEO da Apple: “ He’s always been a workaholic; he begins sending emails at 4:30 in the morning. He’s the first in the office and last to leave. He used to hold staff meetings on Sunday night in order to prepare for Monday”.

Bem diferente dos valores pregados pelo ecossistema, não é?

Aliás, bem diferente dos valores pregados pelos próprios caras…bom, sabe por que eles mudaram de opinião? Porque eles já chegaram lá. Porque, agora, eles já estão no topo.

Quando você sabe que a maioria dos programadores talentosos, designers criativos e redatores de talento estão ocupados assistindo netflix e jogando league of legends, você também sabe que eles serão — para sempre — ótimos funcionários.

Nunca uma real ameaça.

E o grande culpado nisso tudo? Você e eu.

Quem dita as regras e cria os códigos de conduta enquanto você e eu, e todos os outros empreendedores, trabalhamos? O ecossistema.

Empresários e investidores que, com seus mega-eventos, se comunicam com todos nós. Vamos lá, falando sério: ninguém investe centenas de milhares de reais — às vezes milhões — para sair no prejuízo.

Não é de hoje que os grandes eventos, os palestrantes famosos e o mercado de mentoria e imersão percebeu que o público só quer uma coisa:

Vamos silenciar as nossas dores, as nossas quebras e as nossas frustrações nesse enorme Kame Hame Há de motivação!

Os empresários do ecossistema perceberam que, quanto mais aberto, mais motivacional e mais genérico for o tema, mais as pessoas pagarão.

Aquela é a sua nova Igreja. Eles estão se convencendo de que irão pagar caro por um evento sobre negócios, mas, ao final, é apenas uma maneira de tirar o peso do mundo das próprias costas.

Por que eu pergunto isso? Porque eu sei que você está travestido com a capa do vencedor 24 horas por dia. Postando aquelas melhores fotos no Instagram para convencer as outras pessoas que está indo tudo bem.

E sobre aquelas contas atrasadas, sobre o aumento no plano de saúde, sobre as escolas dos filhos que subiram 30% em 2018, você fala com quem?

E tudo isso é uma merda. Você e eu sabemos que é uma merda. E, por perceber isso, é que eu fui para a outra margem do rio. E agora eu quero falar sobre isso com você.

O que eu aprendi nos últimos dez anos e como eu me desintoxiquei disso tudo?

Eu não tenho a menor ideia se o que eu vou propôr fará sentido para você. Se irá te ajudar ou apenas te atirar em uma espiral ainda maior de sofrimento.

Mas, acredite, e eu estou sendo absurdamente sincero com você: isso mudou a minha vida.

Fique tranquilo, eu prometo que não custará um único centavo. Encare isso como uma retribuição a tanta gente que me ajudou quando eu estava esgotado emocionalmente e mentalmente.

É até estranho pensar que você passará tanto tempo sem se motivar, não é? Mas, calma, os efeitos serão surpreendentes. Você não irá abandonar o pensamento positivo e a postura confiante em relação ao mundo, você irá, apenas, suspendê-la por esse período para perceber como existem outros sentimentos e sensações no seu corpo que são tão importantes — ou até mesmo mais — do que a gritaria e a agitação.

A regra desse modelo é bem simples e tem apenas quatro regras. Tente não quebrá-las ao longo dessas dezesseis semanas.

Regra #1: Você irá se distanciar dos grandes eventos e do perfil dos empreendedores de palco nesse período. Você não irá consumir o conteúdo deles. Chega de hiper-estímulos. Você voltará a pensar com a própria cabeça.

Regra #2: Você escolherá entre 2–3 pessoas (forme grupos de 4, no máximo), que embarcarão com você nesse desafio. Faça-os lerem esse texto e pergunte: “Você está realmente pronto para isso?”.

Regra #3: Pronto. Está criada a sua célula. Você encontrará essas pessoas uma vez por semana, seja pessoalmente ou por skype.

Aqui há um ponto que precisa ser explicado: dentro dessa célula vocês falarão apenas sobre os desafios, os problemas, os percalços e as dores que o negócio ou que a sua vida apresentam.

É para falar sobre coisa ruim, mesmo: o cheque que voltou, o funcionário que te roubou, a mulher que ameaçou sair de casa porque você não tem mais um tostão…

Vendeu mais? Contratou um novo funcionário excepcional? Ótimo. Isso não entra na célula. Dentro dela, apenas problemas e desafios.

Incentive todos os participantes a responderem através de sugestões práticas, técnicas, financeiras ou burocráticas. Não aceite motivação. Soluções práticas ou o silêncio. E tudo bem se algum membro ficar apenas em silêncio. Estará, pela primeira vez na vida, pondo em prática o voto de humildade.

Regra #4: A reunião dura 60 minutos e nem um minuto a mais. Nada de mega-conversas ou enrolação. Cada um tem 5 minutos para expôr as suas dores e mais 20 minutos para ouvir a opinião dos demais. É assim, pá pum. Como vocês se encontrarão toda semana, acredite, haverá tempo para tudo.

Mais algumas dicas…

Aqui vão mais algumas dicas que, com o tempo, eu percebi que aumentaram a minha percepção de avanço; aumentaram de maneira real, não aquela projeção eufórica que se sente — eu posso tudo! Eu sou foda! — quando estamos pulando ao som de eye of the tiger.

Monte um trello: coloque, de um lado, os desafios de cada uma das pessoas dentro do grupo, as suas realizações (questões solucionadas) e também contribuição de cada um ao outro.

O Trello é apenas uma sugestão. Isso pode ser feito até em uma folha de papel.

Eis que, em dado momento, você perceberá algo mágico acontecendo: você verá que, resolvendo o problema dos outros, você aprenderá a solucionar questões que são problemas para você e para a sua própria empresa.

Que sentando e quebrando a cabeça para arrumar pequenos problemas, do mundo real, como contas a pagar ou o que exigir de um atendente, você aprenderá muito mais do que preenchendo os quadros de propósitos para o mundo ideal, no mega-evento high-stake.

Nessa hora você irá sacar que não ter contas a pagar vem antes de mudar o mundo. Que a Uber, antes de valer bilhões, precisou manter os servidores funcionando.

E assim caminha a humanidade…

Lá pela décima, décima segunda semana, você já perceberá muitos benefícios, tanto emocionais quanto comportamentais.

Você terá se tornado mais crítico, mais prático, não gastará tanto tempo com bobagens na internet.

Estar certo, para você, terá menos importância do que fazer certo.

Que parecer terá dado lugar ao “se”.

E, ai, algo muito engraçado acontecerá: você topará com aquele amigo, viciado na adrenalina da motivação e do propósito, e perceberá que 90% das suas preocupações e 95% dos seus planos estão, simplesmente, colocados no lugar errado.

Que ele ainda nem fez a lição de casa, que ele nem lavou a louça, e já está projetando como será quando ele mudar o mundo.

Você também irá perceber que 95% das startups que buscam investidores são, simplesmente, lixo. Vendem o que o mercado não precisa ao preço que jamais pagariam.

Que são releitura da releitura da releitura de algo que já funciona bem e roda barato no mundo inteiro.

Que os empreendedores chegam a esse mundo (mundo real) despreparados, que utilizam a motivação e os empreendedores de palco como muleta e que acabarão, mais cedo ou mais tarde, se tornando, também, esse tipo de gente.

Que só 1 em cada 100 coachs o é por vocação. Que os outros 99 são porque não se encontraram em qualquer outra área.

Nessa hora, você estará pronto para o próximo desafio:

Separe a sua célula, peça para que cada um dos membros monte uma nova, encontre amigos despreparados e inundados desse lixo motivacional e comece a mudar a vida de quem é importante para você.

Eu espero, sinceramente, ter ajudado. E isso não custou um centavo.