Chegou a hora de entender um pouco mais sobre esse diabo que é o preço do combustível.

Por que o preço da gasolina sobe tanto?

O pricing de combustíveis é um tema tão complexo e intrincado, que os jornais e as revistas não têm tempo para explicá-lo para você.

Ícaro de Carvalho
Jun 5, 2018 · 11 min read

Vamos lá, é bem provável que nas últimas duas semanas o tema não tenha sido outro: o preço dos combustíveis. Ele foi o responsável pela greve dos caminhoneiros, pela quase-queda do governo e por uma quantidade enorme de medidas emergenciais.

Tem quem defenda os caminhoneiros, quem aponte que, ao final das contas, será o povo que arcará com as novas diretrizes de preços e quem quer que tudo isso se exploda.

O objetivo desse texto não é político, mas econômico. O que faz o preço dos combustíveis subir tanto?

Os elementos são tantos que é bem provável que eu esqueça de adicionar algumas informações. Paciência.

Bom, vamos lá: para explicar a dinâmica do preço dos combustíveis, temos que dividir o tema em sete verticais: Brasil, Estados Unidos, OPEP, normas e legislações, Irã, juros e câmbio.

A primeira pergunta que nos vêm à cabeça, é: por que diabos o combustível do mundo é negociado em dólar?

Porque, há mais de cinquenta anos, o Dólar é a moeda de reserva global. E por que? Porque ela venceu a livre concorrência.

Assim como qualquer outro mercado, as moedas concorrem entre si. Vence aquela que é mais estável, líquida, segura e afiançável. Enquanto a Europa derretia na segunda guerra, o Dólar despontou como a reserva de segurança do mundo.

E quando você precisa negociar algo tão volumoso e volátil quanto milhões de barris de petróleo/dia, acredite, você precisa de uma moeda forte, líquida e abundante.

Bom, é isso: os barris de petróleo são negociados em dólares, porque, provavelmente, essa é a única moeda que consegue suportar o caráter global das negociações; principalmente as diversas trocas cambiais, que, através do dólar, se resumem a apenas duas: da moeda local para o dólar e vice versa.

Quem manda no petróleo?

O mundo consome cerca de 99 milhões de barris de petróleo por dia. Os três maiores produtores são, em ordem: Estados Unidos, Arábia Saudita e Rússia.

O problema é que os americanos consomem quase tudo que produzem, ou seja, estão fora do jogo.

Aqui começa o problema: os americanos consomem quase toda a energia que produzem.

Na verdade, eles conseguem suprir apenas 86% da demanda energética do país. Ou seja, ainda que sejam os maiores produtores do mundo, ao final do mês, precisam importar petróleo.

O que os americanos exportam não é o petróleo em si, mas produtos originados do óleo: polipropileno, vaselina etc.

Por que eu disse que é aqui que começa o problema? Porque isso tira os americanos dos grandes players exportadores do mundo e adiciona volatilidade ao preço do combustível.

Imagine que 50% da produção global exportável está na mão de países de terceiro mundo, instáveis democraticamente e inflacionados.

À menor menção de queda nos preços, a OPEP age, inflacionando os valores artificialmente. Seus países membros precisam disso. O PIB da Arábia Saudita, por exemplo: 80% dele é oriundo da exportação de petróleo.

Imagine que 80% de toda a riqueza do seu país está atrelada ao preço dessa commodity. Como prever investimentos e manter os gastos atrelado à variação diária desse único produto?

Imagine depender da cotação do barril para manter o seu país de pé.

Os grandes produtores de petróleo se esforçam e, desde 2016, removeram 1.8 milhão de barris de petróleo por dia do mercado. Eles criam represas artificiais, onde só extraem mais óleo caso o preço esteja acima de 100 dólares o barril. AINDA QUE HAJA DEMANDA.

Essa medida, contrária às diretrizes da OMC (organização mundial do comércio) irrita principalmente o Presidente Trump, que já manifestou, inúmeras vezes, o seu descontentamento com a situação:

Uma das alegações é que os sauditas mantém 45 milhões de barris de petróleo em seus navios, fora de comercialização.

Chegamos, assim, à primeira resposta do nosso texto: o preço do petróleo é mantido artificialmente alto, ainda que as produções aumentem ano após ano.

Vamos falar de moeda?

Se preço dos combustíveis está intimamente ligado à cotação do Dólar, à exceção dos americanos, o mundo inteiro deve computar a variação da moeda aos preços finais de cada barril.

Os americanos, por estarem em uma economia dolarizada, devem lidar apenas com o aumento ou a queda do preço do óleo. Já o restante do mundo, está fadado ao cálculo:

Valor da alta do barril acrescida à variação cambial do dia.

Agora, chegamos a duas situações distintas:

Você lembra daquela história sobre 50% da reserva mundial estar em países instáveis (tanto politicamente quanto economicamente) e inflacionários? Bom, acrescente também o risco político a essa conta.

O Irã, quinto maior produtor do mundo, se envolve em polêmicas nucleares há pelo menos trinta anos.

O Iraque parece ter aprendido a lição. O Irã não.

Recentemente, os americanos apontaram os seus porta-aviões para o novo (não tão novo) inimigo da década: o Irã.

Ainda há um GAP de 14% de dependência, que incomoda muito os americanos.

E ninguém freia o Capitão América. O Presidente já alertou:

Só há uma moeda mais forte que o dólar: Tomahawks!

E quando qualquer problema político de escala global acontece, testemunhamos o meso efeito: a alta do dólar.

Por que? Porque ela é a mais segura, líquida, estável e negociável moeda do mundo…todas aquelas coisas que já falamos.

Ou seja: ainda que os preços do petróleo se mantenham baixos, em caso de instabilidade política, o petróleo aumenta mesmo assim. Infelizmente, ele é extraído na região mais instável do planeta.

Vamos falar de juros?

Recentemente os americanos estão promovendo uma sequência de aumento da sua taxa de juros. As razões para isso não cabem nesse texto; talvez eu escreva mais a respeito em outro.

O fato é que os Estados Unidos, desde a crise de 2008, vivem taxas de juros historicamente baixas. Isso causou o reaquecimento da sua economia, a alta dos seus índices e a situação próxima ao pleno emprego.

Capitalismo malvado!

Por motivos diversos, que vão desde o risco de novas bolhas à necessidade de represar a circulação de dinheiro doméstico, os americanos sobem os seus juros.

E, quando isso acontece, o mundo inteiro sente os efeitos. O país mais rico do mundo, com a economia de mercado mais desenvolvida e as maiores empresas do planeta, está dizendo: “Ei, pode pôr o seu dinheiro aqui, que eu ainda te pago juros!”.

Em tempos de liquidez global, não restam dúvidas: todos mandam o dinheiro para lá.

Apenas para ilustrar, aqui está a curva de diferença de juros entre Brasil e Estados Unidos:

Difícil de entender? Eu explico: quanto menor, mais a gente se ferra.

Ou seja, o investidor tem duas alternativas: investir na locomotiva do mundo, recheado de segurança jurídica, onde todos negociam ou vir para o Brasil do Temer e das incontáveis canetadas e acreditar em uma das nossas incríveis empresas.

Descotada a inflação, que bônus ele tem para vir pra cá? Ah, uns 2.17% a.a. Negócio da China, não é?!

Não.

E por que isso é ruim pra gente? Não só pra gente: pro mundo todo. Quando todos estão à procura de dólares para investirem nos Estados Unidos, a demanda aumenta e a oferta se mantém a mesma. Resultado? Os preços do dólar sobem.

Chegamos a mais uma resposta: o preço dos combustíveis aumentam quando o spread de juros MUNDOxEstados Unidos diminui.

Que tal falar de China?

Esse é, ainda, um oitavo motivo que deve ser somado aos preços internacionais do petróleo. A china não pára de crescer.

Antes, o fominha do mundo era os americanos. Hoje, os chineses já despontam como prováveis líderes de consumo de petróleo no planeta.

Isso pressiona ainda mais as cotações, cria ainda mais instabilidade política e irrita ainda mais o presidente Trump.

Oops!

E ainda tem a Índia…

Oops2.

Ou seja, esses dois cenários ainda são considerados hecatombes futuros. Bombas relógio que ninguém está se importando…ainda.

Vamos falar de legislações e impostos americanos?

Se eles são os maiores produtores e consumidores do mundo, o que acontece na casa deles repercute diretamente no preço da nossa bomba.

Inflação doméstica, vontade de ir para a guerra e aumento da taxa de juros estão necessariamente ligadas a essa parte do texto.

Recentemente a EPA (Enrivonmental Protection Agency) criou uma regulação chamada Summer blend gasoline requirements.

Essa regulamentação prevê a criação de diversos tipos de combustível, para serem utilizados em diferentes estações do ano, como parte do plano de redução da poluição nos Estados Unidos.

Ai mora o problema: summer blends custam mais e possuem mais de 20 variações diferentes, que devem ser transportadas por regiões diferentes, através de políticas de compra e venda em menor quantidade.

E isso torna tudo mais caro.

E, finalmente, chegamos ao Brasil!

Agora tá na hora de falar de país sério!

Ufa, achou que eu iria me perder, não é?

Como é que você quer que uma matéria de um minuto e meio, no Jornal Nacional, explique tudo isso?

Vamos lá: aqui nós temos alguns pequenos (PE-QUE-NOS!) problemas (institucionais, tributários e de oferta e demanda) que tornam o nosso combustível um dos mais caros do mundo.

E não adianta dizer que o nosso combustível não é caro, que lá na Islândia é mais, porque você precisa fazer o cálculo de hora trabalhada para a compra de cada litro de gasolina.

Sim, o nosso combustível é indecorosamente caro; ainda por cima: de péssima qualidade.

Problema número 1: ausência da concorrência.

Por hoje é só, pessoal.

Simples assim, direto e reto: a ausência de concorrência deprecia o poder de ajuste do mercado. Tanto é que, para tentar fazer cumprir os repasses de preço, o governo está ameaçando utilizar o poder de polícia, multar e até mesmo prender os donos de postos.

Voltamos a 1.986 e à época dos fiscais do Sarney. O nosso país não anda pra frente.

Problema número 2: alta carga tributária.

Melhor que isso, só desenhando.

Assim fica fácil de entender.

A ausência de concorrência incide, inclusive, no percentual que vai para a refinaria, que poderia ser mais eficiente e menos dispendiosa, se estivesse pressionada pela livre concorrência, no preço do frete e na distribuição.

Impostos? Bom, nem preciso falar: deveriam ser zerados.

Aliás, o Brasil que possui uma longa tradição de tributar insumos básicos para a sobrevivência da sua população:

Da-lhe paracetamol.

Problema número 3: a fraqueza da nossa moeda.

A moeda é o retrato de um país. Ela é o resumo do quão forte, bem administrados e produtivos nós somos.

Cá entre nós: se você pudesse escolher, receberia o seu salário em real?

E por que você não pode? Porque o governo proíbe. E por que ele proíbe? Porque, se não fizesse isso, adivinhe só o que aconteceria?

Diga Xis!

Esse é o retrato do nosso Brasil. Estamos vivendo uma década e meia perdida e o resultado disso é uma moeda mais fraca a incapaz de reagir ao vigor do dólar.

Ou seja: enquanto os Estados Unidos continuarem aumentando os seus juros, todos os países de terceiro mundo testemunharão aumentos incessantes do preço dos combustíveis.

E a Petrobrás?!

A Petrobrás é o que menos importa. Eu espero que, após ter gasto duas horas e meia do meu dia digitando esse texto, você tenha entendido que a última coisa que importa na precificação do preço de um litro de gasolina é a política de correção da empresa.

Usar o congelamento de preços ou o seu represamento só significa uma coisa: o governo gastando ainda mais dinheiro para subsidiar um setor da economia.

E a que preço? Dois:

Lembra quando o seu gerente te recomendava fundo multimercado?

O sucateamento da empresa, que está ruindo em seu valor de mercado. E, antes que você pense que isso é problema de gente rica, lembre-se que o povo brasileiro é titular da maior parte das ações da empresa.

Ou seja: você está pagando essa conta.

E o valor que sairá dos cofres do governo para cobrir o rombo que o represamento causará (todos os meses!) aos cofres públicos:

Achou que ia ficar barato, né?

Ou seja, fora do preço flutuante não há salvação.

O que temos que pensar é em como reduzir quatro fatores fundamentais na nossa economia e que refletem a nossa ineficiência em pensar e agir:

  1. Por que apenas a Petrobrás detém o monopólio da exploração de petróleo no país?
  2. Por que o refino está destinada a tão poucas refinarias?
  3. Temos mesmo que arcar com uma carga tributária tão alta em um insumo tão importante para as camadas mais baixas da população?
  4. Não iremos encarar com maturidade questões como a reforma tributária e a reforma previdenciária, para afastarmos o fantasma do dólar nas alturas no país?
  5. Quando é que iremos modernizar o nosso ecossistema de combustível, reinvestindo em malha ferroviária, desonerando, permitindo a negociação direta da refinaria com o posto e acabando com a necessidade de frentistas em postos?

Mas, o mais importante…

Quando é que nós iremos refletir, de maneira adulta e compromissada, sobre a carga tributária esquizofrênica que cada um dos brasileiros é obrigado a suportar sobre os próprios ombros?

Enquanto tem que suportar esse tipo de descaso?

E esse…

Enquanto não estivermos verdadeiramente dispostos a discutir todas essas variáveis, da oscilação política ao câmbio, passando pelo spread de juros e pela necessidade de livre concorrência, restaremos reféns para sempre das regalias de uma pequena classe de engravatados que, podres de rico, tentam nos fazer achar que a culpa da alta dos combustíveis é desse ou daquele partido, do presidente da Petrobrás, do capitalismo ou de quem quer que seja.

Precisamos amadurecer e começar a resolver os nossos problemas como gente grande.

Ícaro de Carvalho

Written by

Alguém interessado pelo mundo.