“Hoje, a sede de novas experiências é maior do que nunca. Assim, unir duas pessoas só para formar uma família segura deixou de ser satisfatório.” — Disse a maior especialista em relacionamentos do país.

Quem diabos é Regina Navarro?

Me surpreendi ao descobrir que alguém pode ser famoso, um best-seller e ainda assim não fazer a menor ideia do que fala.

Até há dez minutos, eu nunca havia ouvido falar sobre Regina Navarro. Tinha acabado de entrar na página da UOL para olhar a cotação do dólar e me deparo com um dos seus artigos, ao canto direito da página, com o seguinte título: “Medo da solidão faz união insuportável ser suportada”. Pelo tamanho do vício do raciocínio utilizado para produzir o texto, provavelmente se tratava de mais um blogueiro pitaqueiro ou uma menininha de cabelo com duas cores, ensaiando, antes do tempo, algumas palavras sobre o Sacramento do Casamento. Me enganei violentamente.

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Para a minha surpresa, quem assinava a matéria era uma senhora com os seus sessenta anos, autora de 11 livros, best-seller em um Frankenstein moderno chamado “Auto-ajuda para relacionamentos”. A minha surpresa havia sido ainda maior quando, logo depois, na wikipédia, eu descobri que ela havia tido três casamentos e uma filha com cada um.

“Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne” — Efésio 5:31.
“Tudo bem, Ícaro. Não seja preconceituoso. Você acabou de conhecer essa senhora. Ainda que ela tenha cagado completamente no título desse artigo e a sua vida amorosa não seja lá um exemplo de resiliência, calma lá. Sejamos coerentes” — conversei com a minha consciência. Coisa de pisciano.

Retorno para o artigo e decido dar um solavanco no meu pré-conceito. A partir de agora eu analisaria tudo a maneira mais imparcial possível. Logo na primeira linha eu encontro uma enquete que, ao ser clicada, revela que 50% das pessoas não acham que vale a pena insistir em um casamento que passa por dificuldades. Que é perda de tempo ou algo do tipo. Enfim, boa parte dos que responderam devem estar juntos para jogar com dois controles no X-box ou para dividir o preço da Netflix. Eis que, antes de terminar o primeiro parágrafo…

Puta merda!

“Ainda não completou um século da entrada do amor no casamento. Foi a partir de 1940 que o matrimônio por amor passou a integrar as relações”. Quantos anos tem essa senhora? Ela tem a moral de, no primeiro fodendo parágrafo, confundir amor com escolha? Fico imaginando o que deve ter dentro de cada um daqueles milhares de livros vendidos.

“O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” — Cor. 13:7
O amor sempre esteve presente no Casamento. Com C maiúsculo, inclusive, que é a forma mais fácil de você diferenciar quem realmente entendeu a sua natureza dos meros viajantes e mochileiros sacramentais.

Não é possível que alguém, a essa altura da vida, ainda imagine que, dos anos quarenta para trás, todos se casavam por mera obrigação. Que não só não havia amor prévio, como ele não havia se desenvolvido ao longo de todo o relacionamento. Era uma espécie de cartório doméstico, onde você saía para vender panelas e a sua mulher ficava em casa, limpando o chão e cuidando dos seus trinta e dois fedelhos. Para Regina Navarro, nós somos o resultado do sucesso fantástico do modernismo; uma raça de super-homens, tão bons e tão plenos que fomos capazes de inventar o amor matrimonial.

Seguindo mais um pouco no seu artigo, ela faz algumas comparações bobinhas sobre o que algumas cientistas comportamentais — ou afetivas, sabe-se lá — acreditam que seja ou que não seja o motivo para as pessoas estarem tão infelizes no próprio casamento; mais algumas bobagens, alguns leros e, de repente, mais uma pérola: “O historiador inglês Theodore Zeldin afirma que o medo da solidão assemelha-se a uma bola e uma corrente que, atados a um pé, restringem a ambição, são um obstáculo à vida plena, tal e qual a perseguição, a discriminação e a pobreza”. Eu fico imaginando, para esse sujeito, que caiu de para-quedas nesse artigo, não que ele pudesse atrair outro tipo de coisa melhor, o que é plenitude.

O mano Theo.
Santo Tomás de Aquino havia chegado à conclusão de que o objetivo final da inteligência é amar. Para esse sujeito, endossado pela sexóloga que acabei de conhecer, esse objetivo era outro; algo do tipo fazer o que quiser, em oposição à perseguição, implementar, de vez em quando, o poli-amor, em oposição à discriminação, e ser rico.

Fico imaginando o que esse povo acha de Teresa de Ávila, Padre Damião, Padre Pio ou qualquer irmã que, enclausurada, revela-se uma afronta ao pensamento desse tipo de gente. Eles possuem — exatamente — o contrário do que eles acabaram de elencar: foram pobres, estiveram presos à cordas justíssima durante toda a vida e foram discriminados e perseguidos; entretanto, alguém seria capaz de duvidar da felicidade de cada um deles?

Então, o que falta?

Falta ao homem moderno a compreensão de dever. Retomar a ideia do que é, realmente, o casamento; tanto como Sacramento quanto em relação a sua motivação. Chesterton dizia:

G. K. Chesterton. Casou uma vez.
“O grande prazer do casamento é que ele é uma crise permanente”

Ou ainda, como quando ele falava:

“Reclamar que só posso me casar uma vez é como reclamar que só nasci uma vez. (…) Poligamia é falta de realização no sexo; é como um homem que quer comer uma pêra, mas colhe cinco só para se distrair”.

O gigante gentil costumava encarar o matrimônio de uma maneira simples: a sua existência se justificava pela sua capacidade de mantê-lo, justamente quando a convivência se tornasse insuportável. Esse povo todo se diz especialista em Casamento, mas eles não sabem sequer do que estão falando. Comentam sobre juntar as trouxinhas, sobre morarem juntos, sobre qualquer tipo de atividade que se pareça com dividir um apartamento e a pagar as contas em dupla — economizando um bom dinheiro como sexo, que agora se torna gratuito — e se permitindo engordar uns quilinhos a mais.

Casamento é dor, privação, batalhas, vitórias, mas, mais do que isso, é a superação constante. Se a mera incompatibilidade de gênio, ou porque ele gosta de deixar a toalha em cima da cama ou porque ela não consegue aceitar o ar-condicionado frio demais, já são elementos para desestruturar o seu alicerce, você não está casado; está brincando.

Aonde erra Regina Navarro?

“Quando o tesão acaba, há mulheres que compram lingeries, vão a motéis, abrem champanhe. Mas não tem jeito. Tesão não se força, existe ou não” — grande poeta.

Regina Navarro, como a maioria dos homens modernos, confunde questões filosóficas essenciais, que até mesmo um estudante tímido, despreparado e pouco estudado, como eu, já percebe que estão todas trocadas. Para Regina Navarro, é mais importante amar a mulher pela qual você vai se casar do que amar a mulher com quem você casou. Isso é um erro fundamental — e, cá entre nós, infantil!

Dai, em uma bacia só, ela vai misturando materialismo e positivismo, atirando as desculpas em um imenso abismo de casualidades modernas: “Ah, a pobreza atrapalha, a perseguição é uma droga, fica difícil se manter junto quando ela não aceita que ele quer fazer um swing às quartas-feiras, depois do futebol”.

Veja bem, ao dizer, ao final do seu artigo: “Segundo ele, a crença mais gasta, pronta para a lixeira, é que os casais não têm em quem confiar salvo neles próprios, o que é tão infundado quanto a crença de que a sociedade condena os indivíduos à solidão”, ela demonstra que não tem ideia sequer do mercado onde está posicionada. Se as pessoas — realmente — confiassem apenas nelas mesmas, para que diabos haveria uma Regina Navarro? O homem moderno confia em todos, até mesmo em sexólogas com três casamentos, menos neles mesmos.

Confiamos em artigos da UOL que dizem que o Swing pode salvar um relacionamento, que há 19 formas de você enlouquecer a sua esposa na cama, que dados eróticos e gel que aquece o brioco é capaz de resgatar a chama. A chama. A vida desse tipo de gente, a dois, se resume a essa palavra: “Só não pode deixar apagar a chama”. Já encontrei meninas, com 25 anos, desesperadíssimas porque haviam acabado de ter um filho e não estavam “mantendo a chama acesa” no casamento.

“As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam” — Cânticos, 8:7
Menina, você acabou de ter um filho. Se o teu esposo não se satisfez com isso, de que vale a chama de uma vela, se ele ignora o sol por inteiro?

Ao final, Regina Navarro fecha o seu artigo com chave de ouro: “A ideia de fusão, de que todas as necessidades serão atendidas pelo parceiro, são passos em direção a profundas frustrações”. Realmente, dona Regina, nós não estamos falando da mesma coisa. Eu estou com a cabeça na eternidade e você ensinando as meninas a escolherem maridos — e trocá-los — como quem aponta o dedo para uma nova série na Netflix.