A crise da verdade — parte 1

A Oxford Dictionaries elegeu o termo "pós-verdade" como a palavra do ano de 2016.
A Oxford Dictionaries elegeu o termo “pós-verdade” como a palavra do ano de 2016.

Para algumas pessoas, a crise da verdade começou no meio de 2016, quando a Oxford Dictionaries escolheu o termo “pós-verdade” como palavra do ano. Não à toa, a escolha do termo aparece num momento que mais dialoga com o significado dado pelo próprio departamento: um adjetivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”.

Claro que, como todo conceito novo, houve uma apropriação dele para todos os lados de forma pouco criteriosa. Teve quem dissesse que era apenas um termo “academicista” para a boa e velha mentira, ignorando que pós-verdade diz respeito não a quem diz mentiras, mas sim sobre quem as aceita. Agora, surge aos montes quem levanta a bandeira dos “fatos alternativos” (do inglês trumpiano fake news) e de alguns veículos serem proibidos de entrar na Casa Branca por serem supostos criadores de fake news.

Dessa situação, dá para tirar pequenas reflexões para tantos caminhos diferentes que vou tentar expor algumas delas por aqui. Todas diferentes, porém correlatas.

A (des)informação pelo título

Comecemos com uma anedota bíblica, aquela de João 18:38, em que Pilatos pergunta a Jesus “que é a verdade?”. Ao invés de esperar a resposta, Pilatos foi correndo para a área de comentários do G1 escrever que não tinha visto culpa nele, mas que gente de bem não vai presa sem motivo. Dizem que foi assim. ;)

Quando olhamos sobre analfabetismo funcional e hábitos de leitura no mundo, dá uma certa tristeza. Nos EUA, apenas 13% da população é considerada “altamente letrada” (NCES, 2003); no Brasil, a proporção de “plenos proficientes” é de 8% (Instituto Paulo Montenegro e ONG Ação Educativa, 2016). O Brasil também divide com México, Reino Unido, Japão e Coreia do Sul os menores tempos médios dedicados a ler livros — menos de 6 horas por semana (NOP World — GfK, 2016).

Na contramão disso, o Washington Post produz, em média, 500 artigos e vídeos diariamente. New York Times e The Wall Street Jornal, juntos, produzem quase 470. Ninguém consegue ler toda essa quantidade. Há também uma grande produção de veículos independentes, comprometidos ou não com apuração de fatos. Muitos blogs aproveitam-se da facilidade de disponibilizar conteúdo e lucrar com plataformas de publicidade online para jogar ainda mais conteúdo para as pessoas.

Enquanto a filtragem surge como necessidade, a demanda de confirmar um viés faz com que o ato de informar-se seja como entretenimento: as pessoas selecionam apenas aquilo que as divertem, sem um compromisso muito grande com veracidade. As pessoas assistem “Coração Valente”, cientes ou não da quantidade absurda de erros históricos do filme, e aplicam a mesma lógica para notícias.

Cena do filme "Coração Valente", com uma grande coleção de erros históricos.
Cena do filme “Coração Valente”, com uma grande coleção de erros históricos.

Quando surgiu a notícia falsa de que o ator brasileiro Selton Melo faria parte do elenco da série “Game of Thrones”, ela foi repercutida em mais de 500 tuítes com o link, mais de 3 mil compartilhamentos no Facebook, matérias no UOL, Ego, Bandeirantes, O Dia e vários outros sites. Ainda há a dramática conclusão de que 59% dos usuários do Facebook compartilham links sem ler além do título (Columbia University, French National Institute, 2016). Se, antigamente, existia o hábito de tirar algumas horas do dia para ler um jornal, ele vem reduzindo-se a um nicho mais recluso, já que 55% das pessoas dedicam até 15 segundos para ler um artigo online. Pois é: 15 fuckin' segundos.

A conclusão mais aterrorizante dessa seção é que muitas timelines são feitas de gente que não leu para gente que não lerá. Isso porque estou falando apenas de notícias e artigos, que dividem os mesmos segundos de atenção com memes e gifs de animais fofos gatinhos. A internet, como uma grande “curadoria comunitária”, falha miseravelmente no jornalismo. Se ninguém ganhasse algo com isso, não teria como dizer que dá pra ficar pior.

Só que dá para ficar pior.

A desonestidade pelo título

Vocês souberam que o Papa Francisco declarou apoio a Trump durante as eleições? Que os militares chegaram a Brasília e depuseram Dilma Rousseff? Que a Venezuela tem mísseis na fronteira do Brasil com a Guiana, e que a Rússia tem uma base militar aqui? Que Barack Obama é muçulmano e tem uma certidão de nascimento falsa?

Dá pra passar o dia apontando mais e mais notícias falsas que propagaram-se por aí em momentos propícios. Ao procurar a maioria delas, os sites de origem têm uma coisa em comum: banners. Muitos banners. Não basta o chorume da leitura por si só: ela torna-se mais penosa com a quantidade absurda de espaço de publicidade por todo lado. Invocando minha credencial de designer para web, aponto também várias falhas visuais nos sites em questão pela má qualidade da aplicação dos scripts que geram os espaços publicitários.

Lembram quando eu falei que a maioria das pessoas dedica apenas 15% à leitura de um site? Pois é, já foi tempo suficiente para que o criador da notícia falsa ganhe centavos com a exibição de publicidade. No caso da notícia do Selton Melo, a origem foi apenas para “trolar” a internet. Só que o assunto fica sério quando esses centavos multiplicados pela grande quantidade de pessoas que compartilharam desesperados para que a Dilma Rousseff saísse da presidência. Ou para que Trump fosse eleito.

Quando não esteve ocupado fazendo listas de n motivos para qualquer coisa, o BuzzFeed fez bons artigos investigando a origem de vários sites dedicados a propagar notícias falsas, e principalmente, o que eles ganham com isso — de um piloto no Missouri a adolescentes na Macedônia. A expressão “follow the money”, cunhada durante as investigações do Watergate, responde a maioria dos casos de por quê tanta gente se dedica a desinformar.

A indústria de notícias falsas funciona para todos os lados também no Brasil.
A indústria de notícias falsas funciona para todos os lados também no Brasil.

Por algum motivo, a Internet ainda tem um glamour de que “tudo que está nela é verdade”. Pela ausência de critérios ao usar a Internet, 76% dos usuários brasileiros adultos já foram vítimas de crimes cibernéticos, assim como 73% dos americanos (Mashable, 2012). Se delitos mais complicados como roubar senha de banco ou conseguir credenciais de cartão de crédito não são complicação, imagine o usuário tratando com a mesma credibilidade um artigo na Folha de S. Paulo, um artigo da Folha Política e uma foto de uma folha com alguma denúncia borrada que veio pelo WhatsApp. É fácil racionalizar a credibilidade de um veículo no mundo offline — ainda se vê mais valor informativo num jornal tradicional do que num folhetim de sindicato ou um tabloide com “garota do tempo”.

Na Internet, ainda não.

Continua na semana que vem. ;)

Referências

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/11/16/O-que-é-‘pós-verdade’-a-palavra-do-ano-segundo-a-Universidade-de-Oxford
https://en.oxforddictionaries.com/word-of-the-year/word-of-the-year-2016
https://nces.ed.gov/pubs93/93275.pdf
http://download.uol.com.br/educacao/2016_INAF_%20Mundo_do_Trabalho.pdf
http://www.prnewswire.com/news-releases/nop-world-culture-scoretm-index-examines-global-media-habits-uncovers-whos-tuning-in-logging-on-and-hitting-the-books-54693752.html
https://www.theatlantic.com/technology/archive/2016/05/how-many-stories-do-newspapers-publish-per-day/483845/
http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2014/07/geracao-so-cabecinha.html
https://www.washingtonpost.com/news/the-intersect/wp/2016/06/16/six-in-10-of-you-will-share-this-link-without-reading-it-according-to-a-new-and-depressing-study/
http://time.com/12933/what-you-think-you-know-about-the-web-is-wrong/
https://www.buzzfeed.com/craigsilverman/the-strangest-fake-news-empire
http://www.telegraph.co.uk/news/2016/07/21/one-in-people-now-victims-of-cyber-crime/
http://mashable.com/2012/11/05/cybersecurity-infographic/

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