Ao interestelar e além!

Provavelmente o filme mais discutível do ano, com opiniões divergentes entre quem entende de cinema, quem entende de física e quem não entendeu o filme. Interstellar vem como um dos grandes filmes dessa recente safra de ficções científicas no cinema, e traz em sua bagagem diversas homenagens ao gênero.

Para quem gostou do filme e ver outras obras relacionadas, ou para quem não gostou mas quer mais ficção científica, listo aqui outras obras que flertam com elementos do filme e que, por si só, valem serem lidas/vistas. Aviso: (quase) SEM SPOILERS.


Viagem no tempo: "O fim da eternidade"

Não somente no quesito "viagem temporal", mas a forma com que Isaac Asimov brincava com as três leis da robótica em suas histórias lembra como Christopher e Jonathan Nolan trabalham as regras de seus universos (os paradoxos temporais de Inception, as três partes do truque de mágica de The Prestige).

Contudo, "O fim da eternidade" não somente é um dos maiores livros do Asimov, como também é quase um tratado definitivo sobre viagens no tempo. A narrativa dele em vários momentos funciona como um "romance-tese", em que ele cria uma história com a intenção de discorrer sobre seu conhecimento sobre o assunto. É possível ver isso em Interstellar em partes criticadas pelo "excesso de didatismo" (coloco aspas por discordar totalmente).

E mesmo que o Interstellar não apresente em seu enredo uma viagem temporal per se, a ligação entre seu primeiro e terceiro ato estabelecem uma relação também proposta no livro, que é um spoiler pesado demais para eu descrever aqui.

Gravidade artificial: "2001: a space odyssey"

Mesmo para quem apenas ouviu falar sobre o filme, é sabida a "homenagem" que ele faz à obra escrita por Arthur C. Clarke e filmada por Stanley Kubrick. A gravidade artificial gerada pela estação Endeavor (que, pelo formato e pelo funcionamento, lembram a estação espacial V), as cenas em que o protagonista Cooper fica suspenso no espaço, vários trechos executados em órgão de sopro na (ótima) trilha sonora composta por Hans Zimmer, o visual das cenas de lançamento… são muitas as referências do filme a 2001.

Alguns classificaram o filme como "o novo 2001", mas acho um mero exagero mercadológico. 2001: a space odyssey, além de ser um cult, um ícone da história do cinema e da ficção científica, é referência para Interstellar e muitos outras histórias do gênero, merecendo a atenção de quem quer se aprofundar.

Cilindro de O'Neill: "Encontro com Rama"

Interstellar lembra um dos filmes anteriores do próprio Nolan, Inception, em dois momentos. Um deles é spoiler; o outro diz respeito ao cilindro de O'Neill, proposto pelo físico Gerard O'Neill em 1976, mas idealizado pelo Arthur C. Clarke em 1973 no livro "Encontro com Rama".

Rama, na história, é uma estação espacial extraterrestre cilíndrica, que cria gravidade artificial em sua superfície por meio da força centrífuga da nave em constante rotação. É uma visão extrapolada da estação espacial V, do 2001, que em certo momento também aparece em Interstellar e lembra um dos efeitos visuais mais famosos de Inception.

Buracos negros: "Cosmos: a spacetime odyssey"

Um dos maiores acontecimentos de 2014 entre os curiosos e nerds de ciência (oi!) foi a repaginação da série "Cosmos: a personal voyage", apresentada por Carl Sagan em 1980, que tornou-se "Cosmos: a spacetime odyssey", apresentada pelo astrofísico Neil deGrasse Tyson. Trazer de volta o espírito explorador de Sagan, atualizando conceitos científicos e fatos históricos, fez a série de 13 episódios ser uma das mais importantes do ano, recomendada até mesmo pelo programador e presidente dos E.U.A. Barack Obama.

No episódio 4 — A Sky Full of Ghosts — , Tyson propõe uma viagem a um buraco negro em sua nave da imaginação, a fim de ver seu interior, algo impossível de acordo com as leis conhecidas da física. No meio do caminho, Tyson explica os conceitos envolvidos no estudo dos buracos negros: a singularidade, a absorção de luz, a "espaguetificação", e o que há do outro lado. Mesmo não contando com a precisa representação visual de um buraco negro que tornou Interstellar prestigiado na comunidade científica, a viagem ao buraco negro de Cosmos merece ser vista — assim como a série toda.

Para que não fique esquecido, "Event Horizon" ("O Enigma do Horizonte") também vale a pena ser visto. A explicação sobre worm holes de Interstellar lembra a explicação utilizada em 1997 no Event Horizon.

Gravidade: "Gravity"

Por serem recentes, Gravity e Interstellar são inevitavelmente comparados. Só que muita gente compara-os pelos parâmetros errados, gerando interpretações injustas sobre o que um tem e o outro não, quando na verdade ambos mais se completam do que competem entre si. Ambos, como boas ficções científicas, aproximam-se da realidade humana, cada um por sua maneira.

A gravidade (como uma das quatro interações fundamentais da natureza) é tratada no Interstellar e na comunidade física como um "problema": no filme (e, quando andarmos razoavelmente perto de buracos negros, na vida real também), ela é a responsável pelos paradoxos temporais e pelo fechamento da trama; na física, é uma das interações que o modelo padrão ainda não compreende, já que comporta-se de forma diferente às outras três: eletromagnetismo e forças nucleares fraca e forte.

Isso gera um certo trocadilho, no sentido de que Gravity, por ser recente, torna-se um "problema" para Interstellar. Na verdade, o problema é quem viu Gravity e não percebe as diferenças entre as mensagens de um e de outro. Por isso, e também por ser outra obra que merece ser vista por si só, Gravity deve ser visto.

Curiosidade: "Fahrenheit 451"

Este é um tópico à parte: o controle de pensamento por meio de ensinar conhecimentos convenientemente errados para as pessoas pode ser visto em várias obras distópicas. "1984", "Admirável mundo novo", "V de vingança", os filmes "Gattaca", "Idiocracy", "Logan's run", entre outros, trazem o controle do pensamento coletivo como pretexto para diversos fins: esconder da população um mal maior, garantir privilégios a grupos, reprimir intenções subversivas etc.

Em Interstellar, os livros de ciências e história são modificados de forma a reduzir a importância de quaisquer progressos que não fossem ligados à necessidade primordial de cultivar comida. Essa mudança é bastante expressiva em 1984, mas para este tópico prefiro destacar o livro "Fahrenheit 451", de Ray Bradbury. Na distopia proposta, os livros, ao invés de alterados, são queimados pelos "firemen". No entanto, como destacado pelo Neil Tyson, não é apenas nos futuros distópicos que se ensina coisas erradas para as crianças por causa de um interesse maior… se é que você entende. ;)

Sobre ir além: "Do not go gentle into that good night"

Para fechar este texto, achei justo estar presente o poema de Dylan Thomas, citado ao longo do filme em vários momentos, e que traduz em versos porquê as grandes pessoas não se contentam com pouco e fazem de seu pouco tempo de vida o mais intenso que puder ser.

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
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