O fim do Apple's New Thing

Ou a história de não apenas por quê é tão difícil consertar um iPod hoje em dia, como também por quê nós não veremos mais o iPod como ele nasceu.

Unboxing do iPod Classic de sétima geração pelo Ars Technica. (http://arstechnica.com/apple/2007/09/ipod-classic-and-3rd-generation-ipod-nano-unboxing-photos/)

Começo este post expondo um dos meus defeitos, nas palavras de Hugo Cabret: "Tudo tem um propósito até as máquinas. Os relógios dizem as horas, os trens levam a lugares… Por isso as máquinas quebradas me deixam triste, não servem aos seus propósitos. Talvez seja assim com as pessoas."

Eu tenho um problema com coisas quebradas, que não funcionam, que mesmo depois de umas 30 abas de navegador abertas, vídeos e tentativas de fazerem voltar, simplesmente não funcionam mais. "Bricam", no linguajar dos adictos de smartphones que conhecem a dor de fazer um monte de plástico, vidro e metal virar peso de papel. Ou tijolo, se for da Nokia.

Há alguns meses, meu iPod Classic "bricou". A maldição do iPod Click of Death atingiu-o sem dó, e agora é mais fácil encontrar Oscars do Leonardo DiCaprio do que peças de reposição para o iPod Classic. Especialmente, os HD's, que sempre permitiram ao Classic ter o diferencial de armazenar muito mais músicas que seus irmãos Mini, Nano e Shuffle. Claro que hoje a gente acha absurda a ideia de algo tão delicado como um HD equipar um gadget não-fixo, mas hey!, lá para 2001 memória flash não era algo exatamente barato.

Mas, para o nosso bem, acabou ficando.

A princípio, ótima notícia. Nada mais de clicks of death, e mesmo que o custo ainda não permitisse um aumento significativo na quantidade de espaço disponível, pelo menos traria um tipo de armazenamento mais rápido e confiável para as próximas gerações. Usando a interface Lightning dos iPhones e iPads recentes, e suportando USB 3.0 (ou mais rápido ainda, ligando-se às portas Thunderbolt), seria um aparelho foda!

Mas guarde este conceito do que seria "foda" pra depois.

Por enquanto, vamos apenas dizer que não foi apenas as memórias em estado sólido (definição zoada, eu sei) que ficaram mais baratas e acessíveis.

As conexões Wi-Fi e 3G/4G também ficaram mais baratas e acessíveis. Cada vez mais pessoas têm conexão móvel à Internet em seus tablets e smartphones. A cada nova linha habilitada, surge um novo cliente em potencial para Spotify, Deezer e outros players desse novo mercado de streaming de músicas, e eles buscam fazer jus ao posto que ocupam: no Brasil, por exemplo, o desempenho dos aplicativos do Deezer tornou-o um competidor rival ao pioneiro (e agora falecido) Rdio. Em todo o mundo, o Weekly Discover (Descobertas da Semana) do Spotify rende elogios por entregar aquilo que o Genius do iTunes nunca conseguiu: músicas que as pessoas realmente querem ouvir.

Tudo isso de forma cômoda e ágil para o usuário, gratuito ou assinante. Comprar uma música na iTunes Store já era mais simples do que compra-la fisicamente; escolhe-la e ouvir na mesma hora por streaming tornou-se mais rápido e fácil ainda. Como toda revolução consistente, o mercado sentiu essa migração, obrigando a própria Apple a fazer seu serviço de streaming, o Apple Music, promissor mas carente de uma interface mais amigável. Menos downloads, mais streaming; é a tendência para os próximos anos.

Onde o iPod Classic entra nisso?

Lembra daquele meu conceito do que seria um iPod "foda"? Então… existe um meme chamado cool but impractical, quando algo é muito legal à primeira vista mas na prática é inútil. Um iPod Classic com mais armazenamento em SSD, USB 3.0 e outras coisas é cool but unprofitable. É muito bom, mas não é para onde o mercado vai, não é o que as pessoas querem mais, e nem é algo que a Apple vai gastar tempo e dinheiro pra fazer. O novo negócio da Apple é fazer relógio e prancheta. (got it?)

O iPod Classic é aquele carro SUV gigante movido a gasolina num mundo de carros elétricos. Hoje você precisa de um motivo muito bom para vender gadgets que apenas tocam música: o Shuffle é ridiculamente pequeno; o Nano é pequeno mas faz umas coisinhas a mais; o Touch, bem, é um iPhone sem phone. E os três estão lá no final na página de música da Apple, como quem não quer nada, mas são os filhos de quem ajudou fazer da maçã de Cupertino a empresa mais valiosa do mundo. Difícil de pensar que tudo começou lá em 2001 como o digital hub do Steve Jobs, que desde quando foi anunciado como o Apple's New Thing, já arrancava sinceros elogios:

"Todo esse hype por algo tão ridículo! Quem liga para um player de MP3? Eu quero algo novo! Eu quero que eles pensem diferente! Por quê, eles fizeram isso? Isso é muito estúpido!"
"Hey — aqui uma ideia pra você, Apple — ao invés de entrar no mundo de brinquedos e bugigangas, porque não gasta um pouco mais de tempo na sua pateticamente cara e inútil linha de servidores? Ou você quer mesmo ser uma gloriosa fabricante de bugigangas?"
"É tudo que o mundo precisa mesmo, outro player de MP3. Qualé, Steve! Cadê o Newton?!"

Pois bem… ok, admito que, sozinho, apenas seus 5GB de armazenamento eram impressionantes. Conectar-se apenas por FireWire e funcionar só no Mac OS força muito a amizade…

Felizmente, as gerações seguintes abraçaram o Windows e o USB. Graças a um simples player de MP3 (pensado junto com um ecossistema decente, ao contrário de seus contemporâneos), a Apple vendeu, até 2014, 35 bilhões de músicas, e ajudou a criar as bases que Jobs precisava para ele trazer o Newton de volta, só que como iPhone e iPad.

Quanto aos servidores, bem, deixa pra lá. Um dia as pessoas podem precisar ter servidores em casa como hoje precisam ter telefones e computadores pessoais, até lá a mais valiosa fabricante de bugigangas do mundo pensará nisso com o mesmo afinco que ainda precisa pensar em como conciliar as músicas do Apple Music com os downloads na iTunes Store dentro dos iPods.

Como lágrimas na chuva…

Ah sim, o meu iPod está vivo e está bem. O HD original morreu, mas foi trocado por um adaptador de cartão SD. Eu sempre digo que, não importa o tamanho, computadores são todos iguais e, quando não tem uma solda entre suas partes, dá para consertar. Agora está mais leve, mais rápido, com mais espaço, mas não tem mais atualizações e, com o passar dos anos, verá outros componentes falharem definitivamente. A desculpa oficial da Apple não fabricar mais o iPod Classic, nas palavras (traduzidas) de Tim Cook:

A Apple parou de fazer o dispositivo porque já não existem componentes suficientes para fabrica-lo e não temos planos para reintroduzir o iPod Classic devido a um público cada vez menor e os custos de engenharia que seriam necessários para redesenhar o equipamento.

Triste, mas verdade. A sétima geração do iPod Classic, basicamente uma atualização da sexta, perdurou de 2009 a 2014. Seu fim já era previsto desde 2011. Em 6 anos, os componentes da sétima geração pararam de ser fabricados, e o público que quer ter um grande acervo de músicas à disposição num dispositivo móvel encontrou-se no streaming.

Virou aquele nicho audiófilo chato de agradar por querer ter isso em altíssima qualidade (e ainda não foi pro Pono), ou paranoico por querer tudo offline, sem a preocupação orwelliana de que aquilo que existiu ontem simplesmente deixe de existir porque o ministério da verdade disse que aquela música que ontem estava nos servidores de streaming não está lá e nunca esteve lá.

Mas não vivemos no mundo de "1984", é claro que essas coisas não acontecem.