O Nômade da Noite — O Devorador de Sonhos

Sexo sempre foi uma válvula de escape pra mim. Assim como cigarro, cerveja e cocaína, comecei por curiosidade, continuei por prazer, e não larguei por dependência. E quando eu digo dependência, não me visualize embaixo de uma ponte fumando crack e pedindo esmola. Eu não chegaria a esse ponto de auto flagelação. Visualizem um Mark em coma numa maca, quase morto, delirando, com câncer no fígado, no pulmão e na rôla. Pra não morrer de cirrose eu preciso beber. Pra não morrer do pulmão eu preciso fumar. Pra não morrer de sífilis eu preciso foder.

Fo-der.

Não tô falando de fazer amor. Não tô falando de fazer sexo ou transar.

Eu não transo, eu não faço sexo, e nunca fiz amor na minha vida.

Eu fodo. Eu trepo. Eu bimbo, eu carco, eu meto, eu derrubo, eu como, eu meto e eu gozo. Amor é pra quarentão casado, sexo é pra quem tá procurando casamento, e transa pra mim é comércio.

Voltando ao assunto… eu lembro disso toda vez quando a Fran vem à minha memória. No meu aniversário de dezenove ela apareceu no Bristol usando uma minissaia de borracha e um batom da cor da minha pele. Querendo ou não, ela tinha ficado mais gostosa depois de sair do colégio.

Pra falar a verdade eu não sei que merda ela tava fazendo ali. Fazia muito tempo que eu não falava com ninguém do colégio, quando eu passava por Osasco eu cuidava pra desviar da Avenida das Flores e não passar na frente do Fortapelse. Não que eu não gostasse do colégio ou das pessoas, é só que… ah, foda-se. Eu podia contar no dedo quem eu não odiava daquela escola.

Mas no dia do meu aniversário o Bristol tava cheio de gente que eu nunca tinha visto, ou no máximo tinha trocado duas palavras. Cheguei a ouvir um filho da puta perguntar quem era o aniversariante. Mas, sabe, não tô nem aí. A Dona Zilda abriu o bar pra eu beber o que eu quisesse naquela noite, então pra mim tá ótimo. No mais, uma bandinha muito boa tava tocando. O baterista tava insano, com o nariz sujo de pó, o olho arregalado, com uma cara de chapado. O vocalista também, diga-se de passagem, cantava alto pra caralho um trecho de Resistance do The Casualties, enquanto o guitarrista esmurrava as cordas da guitarra feito um troglodita cheirado. A levada de baixo dessa música sempre me conquista. Aquela batida fodida acertava no fundo do meu peito e me deixava bem agitado, na medida do possível.

Eu tava tipo na décima quinta ou décima nona garrafa quando ela apareceu na minha vista. Eu demorei um pouco pra reconhecer, mas quando bati o olho melhor… puta que pariu!

-Fran?! O que cê tá fazendo aqui, porra?! — tive que gritar por cima da guitarra que urrava pelo bar.

-Vim te desejar feliz aniversário, Mark! — ela gritou no meu ouvido.

Passei alguns segundos estudando ela. Vou admitir, ela já foi uma garota qualquer da escola que tinha sido filha da puta com um amigo meu, mas caralho, como ela tava gostosa.

-Cê andou fumando fermento? — falei

Ela deu uma risada.

-Por que?

-Nada não — desconversei.

Daí a frente passamos a noite conversando. Eu fiquei bêbado antes dela, óbvio. Mas ela não demorou pra virar Jedi. Em certo ponto já éramos amigos de longa data, conversando bêbados no meio de uma caralhada de estranhos em plenas duas da manhã. O movimento dos quadris dela enquanto falava me deixava hipnotizado. Há algumas horas atrás meu pensamento era “essa puta destruiu o coração de um dos meus melhores amigos, não cai na lábia dela”, e agora era “caralho, que mina gostosa, eu vou transar com ela até meu pau cair”. Deu três da matina e eu decidi que a festa tinha acabado pra mim. Já nem me sustentava de pé direito, e eu sentia que o Sr. Vômito tava a fim de dar um passeio pela calçada, então tive que sair do Bristol pra pegar um ar.

A garota veio comigo.

-Tá tudo bem aí? –

-Porra nenhuma. Acho que eu bebi água de esgoto, parece até que eu vou vomitar meu rim fora.-

Ela riu bobamente, como se fosse a coisa mais engraçada do mundo. Não sei o que tinha em mim, que eu ri também.

Ficamos rindo feito dois retardados por uns cinco minutos, o riso dela alimentava o meu, e o meu alimentava o dela.

Caralho, como eu sou imbecil.

-Nunca tinha notado… mas cê fica bem lindinho quando ri — ela passou o dedo na minha bochecha.

“Eu vou comer essa mina hoje, puta que pariu”

-Acho que é por que você nunca me viu rindo. — falei

-É verdade — ela riu — Você era todo sério na escola, nunca ria, era o tempo todo sentado no canto com uma cara de bunda –

Gargalhei alto.

-Ah, então eu tinha cara de bunda?-

-Ah, mas não me leva a mal. Era uma bundinha gostosa, tipo a de um bebê. –

Ficamos nos olhando por um tempo em silêncio, até que voltamos a rir. Eu tava muito bêbado, nem tinha noção da cilada que eu tava entrando.

Sério, se eu tivesse sóbrio já teria caído fora daquela merda.

Só sei que quando a gente parou de rir eu brinquei com uma mecha do cabelo dela que havia caído por cima da testa. E ela, pra retribuir, me beijou. Quando nossas bocas se colaram, eu senti um gosto misto de saliva, cerveja, desejo e solidão. Tudo o que eu e ela éramos em conjunto. Pela respiração daquela mulher eu percebi que ela estava desesperada. E, porra, eu também estava, mano. Não vou mentir não. Tinham sido três semanas de punheta desde a última que eu havia trepado, e isso era tempo pra caralho pra mim. Naquela situação, três da madrugada, bêbado e desesperado… uma amiga de infância crescida e com um par de pernas e tetas daquele resolve meter a língua na minha boca… o que você queria que eu fizesse, cacete?!

Ah, dá um tempo.

Ela me levou pro apartamento dela que eu não lembro em que bairro era agora (se isso fizer alguma diferença pra você, me avisa depois). Chegando lá, fazia calor. Ela foi logo tirando a roupa e exibindo aquele corpo escultural do caralho. Mano…

Não deu outra. Eu já carregava pouca roupa mesmo, não demorou pra tirar. Em menos de cinco minutos a gente já tava se devorando na cama.

Ela era quente, ou talvez fosse o quarto. Só sei que ela suava, tinha um cheiro que era uma mistura de perfume caro com cabelos por lavar, era puramente uma mulher humana, sensual e carnal com todos os prazeres e defeitos que sua humanidade podia oferecer. Eu enlouqueci nos beijos dela, e aquele corpo se encaixava muito bem dentro dos meus braços. Fui em cima da garota com uma fome desgraçada de quem passou dias sem comer, e em poucos segundos eu já estava me acabando entre as pernas dela.

De primeira eu gozei rápido. Ela ainda suspirava. Olhei com uma cara de desesperado.

-Foi só um esquenta, relaxa. — e voltei a meter.

Ela gemia feito louca. Eu só queria me esbaldar. Ela me virou e começou a cavalgar por cima de mim.

Caralho, como aquilo era bom. Mas por que eu tava me sentindo tão mal?

Daí Cadu surgiu na minha memória. O cara foi uma das únicas pessoas que eu não odiei no Fortapelse. Um dos únicos naquela escola que não foram escrotos comigo. Cadu, o gordão gente boa, que foi apaixonado por Fran dos quinze aos dezessete anos. Cadu, que teve o coração partido por Fran na viagem de formatura. Francisca de Pádua Diadorina dos Santos, que sabia de toda a paixão do garoto por ela, e manteve o garoto de step sentimental por três anos, naquele meio termo entre amizade e condição.

Fran era a grande paixão de Cadu no ensino médio. E virjão como sempre, Cadu nunca pensou em comer ela. Ele tinha pensamentos idiotas de fazer ela feliz. Mas ela não merecia ele. Fran sempre teve um problema seríssimo de egoísmo e falta de personalidade. Era uma menina mimada, com um complexo de superioridade infantil, apesar de sutil. Tão sutil que quase ninguém além de mim percebia.

Tá certo que ninguém é obrigado a gostar de ninguém, mas manter o Cadu de step, e dar pro cara que vivia enchendo o saco dele era no mínimo sacanagem.

Ela transou com o Bruninho, depois que a escola acabou ouvi falar que ela foi atrás de quase todos os caras da sala. Entrou pra academia e fez um serviço completo de repaginação na aparência. Era uma questão de tempo pra que ela me encontrasse. Pra ela eu era só um número, um cara a mais com que ela trepava. Pra mim ela era a dose de sexo que me puxava pra longe da abstinência.

E pro Cadu, Fran sempre foi um sonho distante. Ele passou noites sonhando com ela, planejando uma vida juntos, romantizando uma relação de sonho que nunca viria a acontecer. E agora eu estava aqui, um dos melhores amigos dele, comendo sua garota dos sonhos. Naquela noite, eu, o punk bêbado e desesperado, o neguinho magrelo de cabelos espetados e com uma suástica cortada tatuada no ombro esquerdo, Marcos Vinicius Soares de Macário Neto, era o Devorador de Sonhos, o Violador de Esperanças. Eu estava ali, chupando as tetas de uma garota que meu amigo sonhou em fazer feliz. Eu estava ali, metendo na boceta dela, agarrando as bochechas da sua bunda com a mão, sem ter um quarto do esforço que ele teve no ensino médio, por puro e bel prazer.

Foi a gozada mais culpada que eu já dei na minha vida.

Pela manhã ela me acordou fria e séria, como se a noite passada nunca tivesse acontecido. Mandou juntar minhas roupas e cair fora. Eu vazei, e foda-se. Não vou ficar enchendo a cabeça com complicação de mina.

Lá fora a rua se estendia pelas paredes de concreto. São Paulo estava mais cinza do que nunca. Acendi um cigarro e saí pisando minhas botas pelas calçadas, assobiando meus arrependimentos, e sendo notado pelos meus únicos heróis: os mendigos.

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