Nas aparências


Aos olhos de todos somos apenas dois namorados em um relacionamento permeado pelo amor doce dos romances literários e dos sorvetes tomados em uma praça do interior. Internamente, caminham por todas as veias uma espécie de arrepio que apenas em escrever transforma meu semblante. Não sei do que se trata, caro leitor, amor, sexo, desejo, paixão, todas as alternativas juntas batidas com um limão. Sim, acredito que essa última represente a paixão.

Olham-nos como um casal normal, mas não divagam como nós divagamos deitados na cama após um dia, tarde ou noite de uma transa suada, carnal, que beira o animal, mas que mantém a afabilidade das palavras carinhosas ao pé do ouvido e das carícias preliminares que vão do tímido dedinho do pé, até a escancarada boca e seus dentes que tanto me mordem, aguardando de uma língua feroz.

Passamos pelos corredores, somos intitulados como “o casal”, andamos de mãos dadas e perante a sociedade, fazemos nosso papel de mantenedores do amor angelical. Porém, na cama, na rede, no chão, nos assentos, entre os lençóis, as mesmas mãos que nos carregam, são as mãos que nos açoitam, nos martirizam de prazer, nos conduzem para os templos sexuais aleatórios que são nossos mais fieis seguranças e guardam nossos piores desejos.

Em sala de aula, somos convencionais. Nos abraçamos, brincamos, rimos, brigamos, o casal exemplar. Em casa, ou em qualquer outro lugar fora dos ambientes socialmente reconhecidos, somos mais. Somo um, somos corpo e alma entrelaçados em tesão e paixão, sem fôlego, com um único caminho que leva ao gozo aprisionado em multidireções. Não nos controlamos, nos sujamos com o suor, lubrificante da paixão, e afinal de contas brincamos, porém, entre lençóis.

Em família, nas convenções aparentes, deixamo-nos acreditar que vivemos de uma forma simplória, arrastada, com sempre os mesmos assuntos ociosos, chatos da vida burocrática da cidade grande. Ademais, não imaginam que jogamos tudo para o alto, nos mais belos momentos de amor que conseguimos fazer, sem burocracia, sem lentidão, contendo todo o amor que podemos dar um ao outro.

Até para nós mesmos mentimos, ficamos às aparências de um casal que briga, discute por casualidades, desenvolve apenas conversas sobre estudos e liga muito menos um para o outro do que deveriam ligar. Claro, atrás das cortinas desse palco sexual, somos assim, porém, as coxias revelam o encontro de dois órgãos ávidos por paixão, ávidos por amor, ávidos pelo comprometimento que a rotina insiste em castigar. Ele revela a paixão, o tesão, as sensações, as relações, os suspiros, as mordidas, as tapas, apertões, batidas, empurrões, falsetes, conquistas, o gozo. E no fim, caro leitor, descobrimos que somos mais que aparências, somos dois em um, o casal que atende aos preceitos da sociedade, mas que nos lúgubres esgotos do sexo, fazemos o socialmente inaceitável.

Amor, sexo, paixão, tesão? Todos esses batidos com pitadas de limão e gotinhas de leite por favor! Que as aparências nunca morram, que os casais nunca se esqueçam.