"Feliz Dia das Mães"

As vezes eu esqueço como o mundo é, as vezes eu esqueço essa colcha de acolhimento que tive que costurar na mão. Com linhas de pesca, retalhos de pelúcia e aço. As vezes eu esqueço das diversas vezes que furei minha mão até quase o osso tentando fazer as coisas se segurarem juntas. Minha colcha hoje não é perfeita, as vezes cobre a cabeça e descobre os pés, mas se eu me encolher direitinho na tormenta é o suficiente para conseguir ficar as vezes quente e quase sempre inteira.

Um dia que eu não me esqueço é o Dia das Mães, eu lembro do meu primeiro dia das mães. Foram seis dias antes do meu filho nascer. Era um domingo, eu estava sozinha em casa, 41 semanas. Ficava literalmente enjoada de ficar na internet, na tv a coisa não melhorava muito. O único espaço cabível e habitável era ali dentro, mas ali dentro era só eu. E essa solidão já me doía a tempos.

Eu dormia e acordava e ainda era dia. Não conseguia comer nada, porque parecia que se fosse algo tinha que ser especial, e eu não tinha nem dinheiro nem fome, o sol corria o chão do quarto. Pensava em dizer algo para minha mãe, me parecia apropriado falar pra ela que agora eu entendia. Mas toda vez que pensava meus olhos enchiam de lágrimas, porque a vida dela me doía. Me aconcheguei na certeza de que ela entenderia o respeito em meu silêncio. Eu a via.

"Feliz dia das mães". "A pessoa mais especial". "A que está sempre com você".

Mentira.

Minha mãe não ficava comigo, ela ficava com a casa. Ou eram as roupas, ou era a comida ou eram as louças. Nossos passeios eram ir no mercado, a feira. Ela estava sempre agitada, sempre correndo. Eu ficava brava. "Você não me ama? Não pode largar isso e brincar comigo?". Ela não podia. Nós brincávamos em volta das calças dela — minha mãe não é mulher de saias. Ela lavava as roupas e eu gostava de enfiar os braços no tanque enquanto a máquina esvaziava. Até os ombros.

De pequena eu tenho uma tormenta de imagens da minha mãe na cozinha, estendendo roupas, fervendo leite de manhã pro meu café da manhã. Ela acordava mais cedo que todo mundo. A gente morou alguns anos da minha infância em uma edícula de dois cômodos, logo depois da depressão do meu pai. Eu não sei contar essa história direito. Era pequena. Mas ela colocava o despertador para 5h30 e se levantava devagar, ainda cansada. Colocava a roupa primeiro, e ia para a cozinha, deixava a gente na cama até o último minuto que desse, depois vinha acordar eu e meus irmãos.

No nosso aniversário ela fazia bolo, com batedeira e tudo. Não tinha festa, nem presente, mas era importante fazer bolo.

No começo do ano ela fazia a gente pegar todos os cadernos do ano anterior e tirar as espirais pra pegar as folhas ainda em branco e montar cadernos novos. Eu e meus irmãos ficávamos putos porque a gente queria coisa nova, só a gente não tinha coisa nova. Mochilas novas, tênis novos, borrachas coloridas.

Minha mãe fazia tudo com a gente por perto, porque ela não tinha exatamente com quem deixar, primeiro porque toda a família dela estava a 250km de distância em uma cidadezinha no interior de Minas Gerais e segundo porque todo mundo da família do meu pai trabalhava. Um pouco antes d'eu nascer meu avô de pai teve um AVC e teve suas capacidades psico-motoras bem reduzidas, era o trabalho integral da minha vó. Ele e mais uns 5 netos por dia em casa.

Depois da escola minha mãe conciliava tudo, passar no açougue, no mercado, na feira e no banco. Eu não entendia direito a relação da minha mãe com o banco, porque no banco tinha dinheiro e dinheiro era bom não era? Ela ia, parava na máquina, pedia pra gente ficar por perto, digitava umas coisas, saia um papel amarelo comprido e aquilo apertava o coração dela. Era a mesma cara que ela fazia quando não tinha mais arroz, talvez um pouco pior.

Meu pai se fazia de otimista "a gente vai dar um jeito!", mas minha mãe não acreditava em jeito, ela acreditava em contas pagas. Comida na mesa. Dinheiro pra feira.

Eu achava ela chata. Bem chata. Se tinha uma pessoa que eu não queria ser nesse mundo era ela.

Aos 24, eu fiquei muito puta quando descobri que eu nunca conheci minha mãe. Eu só conheci essa versão guerreira, autômata, sobrevivente, retirante. Eu só conheci a tensão dos músculos de uma mulher de 40 anos, que viveu a vida inteira na roça e caiu no meio da periferia da cidade grande com 3 filhos e um marido alienado de si mesmo por uma masculinidade tóxica e privado de um atendimento psicológico necessário para a seguridade social sua e da sua família.

Eu conheci uma mulher cativa em um papel social opressor que eu própria desenhava com coraçõezinhos. E não só ela. Muitas delas.

E o que mais me dói todo dia das mães é saber que eu perdi as brincadeiras com ela, as alegrias com ela, as músicas da voz dela, os carinhos das mãos dela…

E essa menininha aqui dentro ainda sofre, porque eu não queria uma guerreira, eu queria a minha mãe.

Todo dia das mães a minha tradição é estar sozinha ou entre mães. Por que é o meu "Feliz dia" de pegar os cacos e restaurar os ciclos da maternidade.

Que a gente possa se ver. E se reparar. E mudar nossos rumos.
Ontem, hoje e sempre.

– Ahoy.