Black Mirror, vale a pena assistir?

Lucas Barbosa
Aug 23, 2017 · 8 min read

A essa altura do campeonato você já deve ter ouvido falar de Black Mirror. A terceira temporada da série foi lançada há algumas semanas e gerou uma grande repercussão nas redes sociais. Mas afinal, o que faz essa série ser tão diferente assim?

Talvez a resposta esteja no criador da série e roteirista de praticamente todos os episódios, Charlie Brooker. Brooker é autor, apresentador, crítico, humorista, jornalista, roteirista e produtor. Talvez essa mistura maluca seja a receita para escrever roteiros tão fortes e perturbadores como os de Black Mirror.

Black Mirror é uma série que trabalha com a ideia de como a tecnologia pode influenciar a nossa sociedade. A série traz em suas temporadas uma coleção de contos que tem a tecnologia como gatilho à pergunta: “ E se? ”. Acho que é seguro dizer que a maioria dos episódios partem dessa premissa. E se tudo que você vê ficasse salvo em um dispositivo? E se um personagem de desenho animado se candidatasse a política? Apesar de parecer simples, os enredos são muito bem trabalhados e quase sempre com desfechos imprevisíveis.

É interessante observar que apesar de Black Mirror trazer a tecnologia como característica recorrente em todos episódios, a série se propõe a fazer críticas a sociedade através dos desdobramentos das situações que surgem neste plano de fundo. Apesar de ser uma característica comum em ficção cientifica, acredito que esse seja o maior mérito de Charlie Brooker e é o que torna a série tão interessante. Você começa a assistir esperando o clichê: tecnologias futuristas, máquinas assassinas, super hackers, etc. Porém, o que você encontra são histórias que refletem questões importantes da atualidade e chega a ser angustiante o quão fácil é se identificar com alguns episódios.

A partir daqui falarei sobre os episódios da série, então se você ainda não viu e não quer spoilers, pare por aqui!

Primeira Temporada

O primeiro episódio de Black Mirror é com certeza o mais angustiante de todos. O primeiro-ministro britânico é acordado com a notícia de que a princesa tinha sida sequestrada. Até aí, “normal”. Após alguns segundos de diálogo é possível entender porque a série é tão bizarra: A princesa é obrigada pelos sequestradores a dizer em vídeo que só seria libertada caso o primeiro-ministro, Michael Callow, aparecesse em rede nacional transando com um porco. Deram instruções de enquadramento e tudo mais. É esse nível de bizarro.

Obviamente, o primeiro ministro se recusa e pede que o vídeo seja retirado da internet. Como sabemos, uma vez na internet, não tem mais volta. O vídeo já tinha sido replicado milhares de vezes no Youtube e, apesar da imprensa ser orientada a não comentar o assunto, todo o país ficou sabendo do acontecido. Além desse núcleo bizarro, o episódio também mostra o ponto de vista da mídia em relação ao fato: seguir as ordens do governo ou deixar que outro jornal poste primeiro? A ética, bom senso e até a sanidade entram em jogo nessa história. E se o primeiro-ministro fez o vídeo? Assista!

Ele não parece estar gostando da situação

O segundo episódio da temporada traz uma história mais futurista e beira uma distopia. A televisão é a única forma de lazer e é dominada pela publicidade (alguma semelhança com a realidade?). As pessoas desse mundo pedalam para gerar energia em troca de pontos que podem ser usados para tudo: desde comprar comida até pular um anúncio. O episódio tem um ritmo lento, porém um desfecho inesperado e surpreendente.

O terceiro e último episódio da primeira temporada de Black Mirror talvez seja o pior da série. Coincidentemente, é o único que não foi escrito por Charlie Brooker. O episódio traz um conceito que é reaproveitado algumas vezes durante a série: uma lente capaz de reproduzir imagens e que nesse episódio pode reproduzir as lembranças dos seus portadores. Apesar de ter uma ideia inicial interessante, o episódio é muito lento e traz uma história pouco aproveitada.

Segunda Temporada

Na segunda temporada da série, Charlie Brooker conseguiu manter a pegada da série sem perder a qualidade e trazendo episódios tão impactantes como os da primeira temporada. Começamos com “Be Right Back”, que conta a história de Martha, uma mulher que após perder o marido procura um serviço estranho para poder ter contato com ele novamente. O episódio não chega nem perto de ser tão angustiante quanto “The National Athem” mas também traz a sua carga de angústia. Não sei vocês, mas até o fim do episódio esperei que fosse dar alguma coisa muito errado.

O segundo episódio talvez seja o melhor de todas as temporadas até agora. “White Bear” conta a história de uma mulher que acorda sem lembranças em um mundo onde as pessoas a observam o tempo todo através das câmeras dos seus celulares e aparentemente tem uns loucos assassinos perseguindo ela. Foi o primeiro episódio que assisti de Black Mirror e me fisgou de primeira. Não dá para falar sobre esse episódio, ASSISTAM!

Os dois últimos episódios de Black Mirror também trazem conceitos interessantes. No terceiro, um personagem de desenho animado com um humor ácido se candidata a uma eleição. A história é boa e engraçada mas a melhor parte é a dimensão da situação no final das contas.

O quarto episódio, que também é um especial de natal, mostra dois homens em uma cabana isolada em algum lugar gélido trocando histórias sobre a sua vida. Na prática, esse episódio é meio que um “pout-pourri”, com vários minicontos (tão interessantes quanto os outros episódios) contados por um dos caras que estão na cabana.

Terceira Temporada

E chegamos, enfim, a terceira e tão comentada terceira temporada de Black Mirror. Cada episódio foi um tiro, porrada e bomba. Apesar de ter alguns episódios melhores que outros, a série se manteve forte e ao contrário das expectativas, tão boa quanto as outras temporadas.

Já começamos com um tapa na cara: em “Nosedive” as pessoas são classificadas por ranking. Todos andam por aí com seus “smartphones”, avaliando uns aos outros o tempo inteiro. Se você tiver uma pontuação menor do que 4.0 as pessoas já começam a te olhar feio. Se você chegar a 2.0, esqueça sua vida social, nem no emprego você pode entrar. É nesse mundo que conhecemos Lacie, uma moça típica do subúrbio com o aceitável ranking de 4.2 e que está sempre buscando boas avaliações das pessoas próximas.

Esse episódio faz um perfeito paralelo com o momento que a gente vive: a geração dos likes, do instagram. Sua reputação e notoriedade ao alcance de um clique. Mesmo quando não estamos tão interessados nesse mundo, ver que as nossas publicações não geram tantos likes quanto as de outros gera um pequeno incomodo. E é nisso que “Nosedive” acerta. É impossível não se identificar com as tentativas de Lacie em conseguir avaliações, afinal, quem nunca postou uma foto só porque achou que muita gente ia curtir? Ao longo do episódio, Lacie se vê caindo no ranking e entra em desespero: precisa fazer qualquer coisa para se manter acima dos 4.0. No final do episódio temos uma cena que achei genial. Dentro de uma prisão, ocorre uma cena que começa como uma discussão mas se transforma em uma bela cena de libertação.

Fiz um teste e deu que eu seria 3.2. Parece legítimo.

O segundo, apesar de não ser o pior da temporada é o mais simples e o que traz o menor impacto entre todas. Um americano está viajando pela Europa quando se vê precisando de dinheiro para voltar a seu pais. Através de um app em seu celular, Cooper encontra um trabalho como testador de jogos. Obvio que o jogo é em realidade virtual, a nova onda do momento e, novamente seguindo a moda, um jogo de terror. O episódio explora o que seria o sonho de muitos gamers por aí que é a imersão total em um jogo, só que isso não acaba muito bem para Cooper. Apesar do episódio ser divertido, não chega perto dos próximos episódios.

A partir daqui é só bomba atrás de bomba. “Shut Up and Dance” ou “Manda quem pode” na tradução brasileira, é um episódio angustiante nos faz ficar paranóicos. E se filmassem tudo que você faz na frente de sua webcam? É o que acontece com Kenny ao assistir pornografia ilegal na internet. Minutos depois, ele recebe um e-mail: gravaram tudo e, se não fizesse como mandarem, as imagens iriam para todos seus amigos. Esse episódio traz à tona um medo do século 21: as câmeras. Quem nunca cobriu a webcam do notebook que atire a primeira pedra. Durante todo o episódio ficamos sem entender o que está acontecendo e qual o objetivo das pessoas por trás da mensagem. O que acontece no final é inesperado.

O quarto episódio é um daqueles que você não entende nada até entender tudo. Por mais que inicialmente tenha um ritmo lento, “San Junipeno” conquista com seus personagens. Esse é mais um daqueles episódios que despensa palavras, assista!

Elas são lindas, né?

O quinto episódio apesar de lento, traz de volta uma discussão antiga e atual: Quão forte um discurso pode ser? Em “Men Against Fire”, conhecemos Stripe, um jovem soldado indo para sua primeira missão. Nesse episódio somos apresentados as “baratas”. Seres descritos como selvagens e portadores de uma doença letal à humanos. No decorrer do episódio, descobrimos a origem das baratas e percebemos que não é uma realidade tão longe da nossa.

Finalmente, o sexto e último episódio. O que poderia ser um grande episódio, se tornou (para mim) o pior da temporada. Não sei se por causa do ritmo lento ou do excesso de explicações, o fato é que “Hated in the Nation” perde o ritmo logo no início. A premissa do episódio é boa: E se o que escrevemos na internet se tornasse realidade? No país do “Come to Brazil!”, não é difícil entender como funciona o episódio. Pessoas odiadas nas redes sociais começam a morrer misteriosamente. A única ligação são as milhares de mensagens desejando suas mortes. Já deu pra entender, né? É uma ideia com muito futuro, mas que talvez não tenha sido 100% aproveitada.

Black Mirror é uma sensação no Brasil e no mundo. Quem não conhecia a série, com certeza agora conhece. Com tantas séries idênticas sendo lançadas ano após ano, não é surpresa que Black Mirror se destaque entre elas. Cada vez mais o público se liberta das amarras do óbvio e se aventura em narrativas que fogem ao convencional.

Se você ainda não viu, a série está disponível no Netflix.

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Lucas Barbosa

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if every porkchop were perfect, we wouldn't have hotdogs

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