A Troca

O barulho ensurdecedor daquele corpo inteiramente de vidro se chocando contra o chão foi capaz de emudecer a todos por longos minutos.
Foi como se um meteoro tivesse ido ao encontro da terra e se arrebentado com toda a força que a gravidade poderia imprimir ao corpo em questão.

Mãos aos ouvidos não foram suficientes para abafar aquele som que feriu profundamente os tímpanos e que adentrava o cérebro de forma perturbadora.

Tudo o que havia a frente do tal corpo foi devastado, tomados por total brutalidade e empurrados pela energia, até então comprimida, de uma forte onda sônica.
Acompanhada a isso uma branca luz intensa e forte se dissipou no momento em que toda aquela energia acumulada eclodiu.

No momento seguinte o que se via era uma confusão de pedaços de vidro, até então inseparáveis, agora totalmente impossíveis de se juntar novamente.

Nesse instante o tempo parou!
Não a rua; Não o bairro; Não a cidade; Não o planeta.

O próprio tempo em si!

Tudo ficou imóvel e durante alguns segundos, ainda que paralisados, todos os seres puderam admirar a mais pura beleza do poder da criação. 
Foram capazes de experimentar, em cada célula de seus corpos, algo que sequer tinham conhecimento sobre a existência nessa ou em outra parte qualquer do universo.

Com exceção do próprio Deus nenhum ser havia presenciado tal momento.

Não se sabia explicar o que havia acontecido e por nunca terem experimentado tal sensação as respostas a esse fenômeno eram diferentes.

A grande maioria caiu sobre os joelhos e pôs-se a chorar um choro sem fim… mão cobrindo a tez e soluçando o amor que transbordava neles, enquanto outros apenas ficaram imóveis, boquiabertos, incapazes de dissociar aquela sensação com o que seus sentidos haviam acabado de presenciar.

A onda em questão atravessou o corpo de todos os seres vivos, e tudo mais o que foi concebido pelo criador, não mais forte do que um sopro calmo. 
Carros, arranha-céus, quarteirões inteiros, bairros e cidades foram varridas. Nada pode se sustentar diante a força que se desencadeou daquele momento.

Distante dali a própria vida se pôs em check no momento em que galáxias inteiras também haviam sido impactadas.

Aquele corpo totalmente despedaçado em troca da mais sublime e intensa sensação de PAZ.

Foi preciso esse sacrifício para que a humanidade, por não mais saber como encontrá-lo dentro de si, pudesse receber de volta todo o AMOR que havia perdido.
Amor que aquele corpo carregava tão intensamente dentro de si.

Aos olhos do criador aquela era uma troca necessária, única, justa e sem volta.

Aquele corpo era meu!